O livro de Bia Labate e Gustavo Pacheco inova em uma área de estudos ainda muito pouco explorada no Brasil e na língua portuguesa em geral: o estudo da música nos contextos rituais. O mundo das religiões da ayuahasca é um mundo de encantamento e parte desse encanto vem precisamente da sua dimensão musical: como a música ritual é criada, como ela aciona os poderes do mundo sobrenatural e é por eles acionada; quais são seus efeitos sobre os fiéis e quais são seus códigos estéticos, que se entroncam com outras estéticas musicais tradicionais e que ainda assim variam enormemente de uma religião da ayahuasca para outra.

Logo no início do ensaio os autores citam um conceito de música proposto por John Blacking: “os sons organizados pelos homens”. Todavia, na medida em que avançamos na leitura do livro nos deparamos com outros aspectos conceituais trabalhados por Labate e Pacheco que apontam para um transbordamento espiritual desse limite humano para o fazer musical, pois aprendemos que é a própria substância preparada com a planta sagrada que ensina canções aos Mestres e organiza a música praticada no ritual de bebida e devoção. A música participa do complexo jogo místico das mirações, da memória, da criação, do crescimento pessoal e do decantamento de uma sabedoria, da expansão da consciência e da consolidação de uma comunidade de adeptos organizada em torno do amor e do culto aos Mestres, à planta sagrada e às entidades celestiais que habitam o universo trazido à vida pelo líquido divino. Nada desse mundo encantado poderia existir sem música.

Por outro lado (e, sempre na vida há outro lado, como no Daime e na UDV a sombra é o lado, de cá ou de lá?, da luz), a música também não pode viver solta, indiferente à hora certa em que é convidada a mostrar seu poder para os próprios seres humanos que a geram. É assim que o poder da música depende também da precisão e da fidelidade do ritual específico para o qual é convocada. Aprendemos com os autores que o investimento na estética puramente musical parece ser maior na tradição do Santo Daime quando contrastada com a da UDV. Obviamente, essa diferença de investimento na musicalidade como uma expressão artística autônoma não afeta a intensidade do impacto espiritual dos respectivos repertórios sobre os adeptos de cada um desses diferentes estilos religiosos.

Na medida em que o livro avança, a etnografia rigorosa e detalhada apresentada pelos autores convida-nos a pensar em outra colocação teórica do mesmo John Blacking em uma de suas grandes interpretações das músicas dos cultos de transe e possessão. Entre os Venda da África do Sul, por exemplo, o transe místico ocorre estimulado pela música que é tocada e cantada nos momentos prescritos do ritual e apenas para aquelas pessoas que estão aptas para entrar em transe; fora dos momentos rituais e para aqueles que não estão inseridos no protocolo iniciático dos cultos religiosos de possessão, o transe esperado não vem. Esse mesmo tipo de dilema entre convenção musical e convenção religiosa está também presente em um grande universo religioso brasileiro que mantém afinidades e interseções com as religiões da ayahuasca: o das religiões de matriz africana, como o candomblé, o xangô, o batuque, o tambor de mina, e também das tradições religiosas ditas sincréticas, como a jurema, a mina de encantaria e o candomblé de caboclo.

Em todos os casos mencionados, a expressão musical está permeada por regras, hierarquias e interditos acerca do tempo, do espaço e da ocasião em que uma determinada música pode ser cantada ou tocada para estabelecer um contato com as entidades sobrenaturais. Esses exemplos apontam para o sentido mesmo da música sagrada: aquela que é criada e que se manifesta em um regime de co-dependência com o mundo divino. Admitida essa co-dependência praticamente ilimitada entre os planos humano, natural e sobrenatural surge uma grande questão para os etnomusicólogos e demais estudiosos do fenômeno musical: será a música, então, poderosa apenas quando é ritualmente permitida e impotente quando não é chamada? É esse paradoxo fascinante de, por um lado, gerar o mundo sagrado e por outro, sacralizar-se somente por pertencer a esse mundo, que emerge das relações detalhadas entre música e ritual da ayahuasca. E essas são apenas algumas das inúmeras dimensões musicais das religiões ayahuasqueiras sobre que Bia Labate e Gustavo Pacheco nos convidam a meditar em seu livro primoroso.

Unindo uma erudição impressionante sobre o universo religioso da ayahuasca no Brasil e um esquema de apresentação que facilita a absorção das distinções principais de estilos em um universo complexo de tendências formais, de organização sócio-religiosa e de padrões estéticos diversos, este livro é certamente um marco conceitual e etnográfico de grande peso nos estudos sobre música e experiência religiosa no Brasil.

José  Jorge de Carvalho
Departamento de Antropologia – UNB

Brasília, maio de 2009.