A Reinvenção do Uso da Ayahuasca nos centros urbanos [The Reinvention of the use of Ayahuasca in Urban Centers], by Beatriz Caiuby Labate

Editora Mercado de Letras
ISBN 85-7591-037-X

Formato 16 x 23 cm – 536 pp.

Preço
: R$ 82,00

Prêmio de melhor Tese de Mestrado em Ciências Sociais em 2000, da ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais)

Intervenção – NEIP – Lida por Thiago Rodrigues
São Paulo, Livraria Cultura, 11 de agosto de 2004

A quem pertence nossas experiências, nossas mentes, nossos desejos? Quem tem o poder de regular nossos trajetos, pautar nossas buscas interiores? Nossa vida e nossas questões são, de fato, nossas? Há cerca de um século a maioria dos Estados no mundo passou a afirmar que esses nossos percursos não eram somente nossos, mas diziam respeito a eles também. Em nome do “bem-estar e da segurança gerais”, nascer, morrer, viver, procriar, relacionar-se – por excelência, acontecimentos humanos – transformaram-se em alvo de um controle externo, político, totalizante. Experimentar a própria existência deixou de ser algo dependente das escolhas individuais ou dos grupos de sociabilidade locais (família, comunidade, grupos religiosos). A perseguição legal a inúmeras substâncias psicoativas buscou sua justificativa em argumentos sociais e econômicos que sempre esconderam mal suas motivações morais. A obediência aos “valores elementares” da nação, atitude fundamental para se conseguir uma padronização de condutas, exige que as práticas tidas como incorretas, imorais e desviantes sejam caçadas, atacadas, suprimidas. Dentre os atos tidos como mais vis e instabilizadores, nossa sociedade elegeu as excursões psíquicas, as experiências lisérgicas, as sensações quimicamente induzidas.

Não importa a meta visada: os usos de psicoativos com fins religiosos, de auto-conhecimento ou de prazer hedonista têm, para o Estado e para a “sociedade” por ele representada, a mesma importância e a mesma ameaça. São todos esses caminhos perigosos, anormais. E, hoje, mais do que perigosos e anormais, são ilegais ou em constante ameaça de proibição. A condenação moral ganhou status de condenação legal o que poder resultar na captura e incriminação de pessoas interessadas em dispor de seus corpos e de suas mentes.

Uma categoria específica de drogas – que se distingue dos inebriantes (como o álcool), dos excitantes (como o café e a cocaína), ou dos sedativos (como o ópio) –, conhecida como “alucinógenos”, “enteógenos” ou “psicodélicos” (como o LSD, o peiote, os cogumelos, a iboga e a ayahuasca) tem sido especialmente perseguida. Seus efeitos, chamados por Ludwig Lewin, de “fantásticos”, muitas vezes relacionados ao fenômeno religioso e à experiência mística, problematizam as fronteiras entre realidade, ilusão, razão, imaginação, loucura, vigília, sonho, vida e morte. O imenso arsenal que a farmacoquímica coloca ao alcance da humanidade abre espaço para um novo campo epistemológico.

O objetivo central da Proibição às drogas é bani-las para sempre do convívio humano. Sabemos, no entanto, que os homens relacionam-se com substâncias alteradoras de consciência há milênios, encontrando em todos os casos modos para gerenciar usos e abusos. Apenas há um século busca-se a “destruição definitiva” desses hábitos. Busca que consegue somente potencializar usos nocivos, além de literalmente produzir um enorme e possante mercado ilícito: o narcotráfico. Os anseios individuais e as manifestações culturais relacionadas ao uso de psicoativos caem, desse modo, na vala comum dos “atos espúrios” que devem ser perseguidos por um Estado que se arvora ser o defensor da sociedade.

O intolerável dessa situação é o denominador comum que sustenta o NEIP, Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos, grupo de pesquisas e de intervenção política e intelectual que congrega estudiosos da questão das drogas no mundo contemporâneo provenientes das mais diversas perspectivas. Os olhares da antropologia, história, direito, sociologia e ciência política têm um solo compartilhado: a crítica feroz ao proibicionismo e a defesa ética das experiências individuais e coletivas com psicoativos, entendidas como atitudes humanas e sociais legítimas. O alvo do NEIP é a Proibição e sua missão é problematizar o tema da ilegalidade das drogas, chamando a atenção para os efeitos políticos e sociais do combate a tais substâncias que é, de fato, um combate direcionado a grupos sociais, hábitos individuais, práticas seculares. Desse ataque nasce a posição da defesa de que homens e mulheres possam eleger suas pautas de utilização de psicoativos conforme suas necessidades existenciais.

O NEIP divulga suas posições e resultados de pesquisa por meio da produção de seus membros e, também, pela realização de seminários e atividades como o curso de extensão “Drogas: perspectivas em ciências humanas”, apresentado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP no segundo semestre de 2003. O Núcleo mantém um site no endereço www.neip.hpg.com.br no qual encontram-se artigos, resenhas, entrevistas e anotações de seus pesquisadores; esta página está aberta a receber colaborações de investigadores do tema que estejam afinados aos pressupostos gerais do grupo. Aberto, também, está o próprio NEIP no sentido de encontrar novos parceiros e interlocutores dispostos a adentrar nessa guerra permanente que nos instiga, mobiliza e seduz: uma guerra travada em torno da urgência em sublevar-se ética e esteticamente, abrindo espaços de liberdade e tomando para si as rédeas de nossa existência.