O Uso Ritual das Plantas de Poder [The Ritual use of plants of power], by Beatriz Caiuby Labate and Sandra Lucia Goulart (eds).

Organizadores: Beatriz Caiuby Labate, doutoranda em Ciências Sociais pela UNICAMP, Mestre em Antropologia pela Unicamp (prêmio de melhor tese em Ciências Sociais da ANPOCS, 2000), Pesquisadora do NEIP (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos) e Sandra Lucia Goulart, Doutora em Ciências Sociais pela Unicamp, Mestre em Antropologia Social pela USP, Pesquisadora do NEIP (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos).
Editora Mercado de Letras, Campinas/SP
Tel: (19) 3241 7514
(Apoio FAPESP)
Formato: 16 x 23 cm, ilustrado – 520 pp.
Preço: R$ 82,00

Anthony Henman

Como se controla, do ponto de vista social, o uso de plantas e seus derivados psicoativos sem recorrer à simples repressão? A pergunta está mal colocada, diria um xamã. Melhor seria: como se aprende a escutar a voz de espécies não-humanas, inteligências milenares que compartem o planeta com o arrogante Homo sapiens? As respostas a estas duas interrogações vão no mesmo sentido, unindo concentração com comunicação, a exploração interna com a vontade de criar novas formas de ação em grupo.

Uma vez superada a Prohibition – nefasta, infrutífera proposta do século XX, inimigia do prazer, da ciência, e da iluminação – as sociedades se verão na necessidade de retomar o rumo ensinado pelos mais autênticos e dignos usuários destas plantas. Eis um caminho marcado pela curiosidade, pelo auto-conhecimento, e por uma sabedoria acumulada ao longo de várias experiências históricas. O uso ritual de que fala este livro cobre muitas variantes do que viria a ser uma forma de disciplina coletiva, tanto mais efetiva por se tratar de um processo dinâmico, que se adapta às mudanças culturais. Desde as sociedades indígenas aos modernos cultos religiosos, desde a prática de curas mágicas até a trascendência pessoal, o uso das plantas denominadas de poder busca encontrar um elo entre a autonomia individual e o espaço dos outros – outras pessoas, outras espécies.

Em termos concretos, pode-se dizer que o uso destas plantas permite não só uma alteração sensorial, mas propriamente um deslocamento da percepção para fora de si. A idéia de que as plantas encerram mestres, que seriam a manifestação de potencialidades cognitivas que nos levam a perceber a lógica de um universo em que somos apenas parte, é profundamente subversiva do materialismo utilitário do Ocidente. Nestes termos, a absurda guerra de erradicação, hoje dedicada a cada vez mais plantas denominadas ilícitas, se revela não só como uma ofensa às melhores tradições metafísicas, mas ainda como uma campanha mesquinha, obscurantista, contra um potencial do ser humano que não se encaixa no modelo do mercado.

Por isso mesmo, é uma alegria e uma inspiração dar-se conta da diversidade e da qualidade dos trabalhos dedicados à difusão do conhecimento das plantas de poder. Em defesa do saber, e unidos com as potencialidades da biosfera mais ampla, nos salvaremos da War on Drugs e dos seus tristes efeitos colaterais.