Segunda-feira, 14/03/2005

19:00hs – 22:00 hs, salão A

Mesa Redonda: Xamanismo, xamanismo urbano, xamanismo universal, xamanismo crístico, neoxamanismo: afinal o que é isto?

Temas da mesa:

  • Como definir o “xamanismo”?
  • Qual seria o melhor termo para classificar as práticas contemporâneas?
  • Quais são critérios que permitem classificar quais atividades são ou não “xamânicas”?
  • Quais são as fronteiras e limites entre o xamanismo “tradicional” e o “contemporâneo”?
  • Como lideranças ou xamãs indígenas vêem os xamãs brancos?
  • Como os xamãs urbanos compreendem o discurso acadêmico que critica o “neoxamanismo”?
  • Como separar “verdadeiros” e “falsos” xamãs?
  • Que princípios éticos norteiam ou deveriam nortear as práticas xamânicas?

Coordenador: Léo Artése

Carminha Levy (Paz Géia): A universalidade e a expansão do xamanismo

De acordo com Mircea Eliade, em “Xamanismo – Técnicas Arcaicas do Extâse”, o xamã é um Ser que faz a ligação entre os dois mundo – o real e o espiritual (re-ligare). Assim sendo, toda e qualquer forma de Xamanismo que parta por esta definição, é legítimo, seja urbano, neo-xamânico, nativo, etc…, como também o grande re-ligare que pioneiramente realizei no Brasil – xamanismo e psicologia, a árvore plantada há 24 anos e que deu origem aos frutos que colhemos neste encontro.

Stan Xanniã (Filhos da Terra) – Nativo ou nathus? O saber nativo

O ser humano em sua eterna fase de transformação e sede de se entender melhor, tem buscado mais e mais um entendimento de quem ele é, e qual seu propósito de vida. Os povos Nativos em sua forma de viver e conviver com a vida e seus fluxo emanados pela eterna emanação de saber do planeta onde vivemos conjugados com a energia do universo, muito tem nos ensinados.

Quando falo dos povos nativos não só me refiro aos povos vermelhos (índios) mais também aos povos da raça Negra ,Amarela e Branca, todos que vivem de forma harmônica com todas as manifestações de saber que nos circundam constantemente. Estes povos continuam a nos ensinar.

Cyro Leãoo (Filhos da Terra): O xamã urbano e o retorno ao sagrado

Clêudio Bueno (Pax): O xamanismo do século XXI/ O xamanismo crístico

Tatiana Menkaiká (Comunidad Tawantisuyu/ Terra Mística)- Xamanismo e espiritualidade nativa (texto lido por Bia Labate)

O termo “xamã” começou a ser utilizado por viajantes do século XVI que estiveram em contato com os tungu da Sibéria. Posteriormente, derivado de “xamã” (saman), veio “xamanismo” utilizado no meio acadêmico para designar o conjunto de práticas de expansão de consciência, do transe e das experiências extáticas encontradas em comum em vários povos, embora sua cosmologia e estética cultural apresentem-se de forma diferente. Estas práticas têm várias funções como buscar conhecimento, cura, contatar espíritos e forças. Associamos as culturas nativas ao Xamanismo, porque nelas estão presentes, até hoje, algumas práticas de alteração da consciência, porém a espiritualidade indígena não é xamanismo. Esta associação entre xamanismo e espiritualidade indígena se deu por vários fatores a partir dos anos 50, quando movimentos sociais e culturais começaram a agregar outros significados e funções ao Xamanismo, impregnando-o de novos valores éticos, ecológicos, visões de mundo, alegorias e simbolismos. Atualmente, no meio urbano, muitas destas práticas foram inspiradas nessas culturas e incorporadas a tratamentos e caminhos de auto-conhecimento e cura. O Xamanismo, seja o clássico ou o urbano, inspira, sim, a religiosidade pelo seu contato com o interior, com o mundo do invisível e energias da Natureza, porém não é religião e não pode ser confundido com uma representação fiel da espiritualidade de um determinado povo.

Fabiano Maia Sales Yawabané Huni Kuin (estudante da pajelança Kaxinawá): Huni Mukaiá – Os pajés Huni Kuin

Wiannã (Kariri Xocó/ Filhos da Terra): Existem falsos xamãs?

Sexta-feira, 18/03/2005

18:00hs – 19:00hs

Palestra – Jurema: planta, divindade, mãe…

Clarice Novaes da Mota

Professora Adjunta da Universidade Federal de Alagoas. Ex-presidente da Associação Nação de Jurema

Em termos dos grupos nativos brasileiros, especialmente no nordeste, a planta conhecida como  jurema ocupa um lugar especial. Nesta apresentação, procurarei explicar a importância da Jurema para algumas comunidades indígenas, enquanto divindade criadora e como símbolo focal da identidade indígena

Sábado, 19/03/2005

10:00 – 12:00hs

Mesa Redonda – Xamanismo e neo xamanismo: continuidades e descontinuidades

Bia Labate (Debatedora)

Renato Stuztman: Xamanismo: ciência e política

Doutorando em Antropologia Social pela USP

Como a ciência moderna, o xamanismo indígena apresenta-se como uma reflexão sobre as causas dos fenômenos, como mudanças ambientais, doenças, mortes etc. À diferença da ciência moderna, no entanto, o xamanismo indígena está ancorado no pressuposto de que por trás dessas causas residem sempre sujeitos intencionais, muitas vezes designados como humanos. Nesse sentido, o acaso não constitui uma explicação suficiente nessas sociedades. Nesse mundo onde tudo é animado, um outro tipo de política desponta, pois xamãs são aqueles que podem não apenas explicar a realidade, mas agir sobre ela, eles podem estar na origem de um acontecimento inexplicado. Por intermédio de espíritos auxiliares, eles podem provocar mudanças ambientais, doenças, mortes etc. Muitas vezes, suas ações ocorrem como retaliação à ação de outros xamãs, o que revela uma espécie de guerra invisível. Em suma, o xamanismo é um modo tanto de conhecer o mundo, como de agir sobre ele, e essa ação é sempre política – ou cosmopolítica – porque envolve a constante negociação entre xamãs e seres sobrenaturais, bem como dos xamãs entre si.

Leila Amaral: Xamanismo: tecnologia e arte

Professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência das Religiões da Universidade Federal de Juiz de Fora

Wesley Aragão de Moraes: Convergências e divergências entre o xamanismo urbano e o xamanismo de povos tradicionais
Dr. em Antropologia, médico, etnobotânico, diretor cultural do GAIA-RJ

Obs: o palestrante não esteve presente fisicamente, enviou um texto

No xamanismo urbano, ou neo-xamanismo, ocorre a construção de um conjunto de práticas ritualizadas e de uma cosmologia que transporta categorias de sociedades tradicionais para um contexto moderno-contemporâneo associando-as, através de uma bricolage, a algumas categorias da psicologia ocidental, da física, da biologia, da arqueologia. Apresenta-se, neste contexto assim produzido, representações peculiares à modernidade ocidental, tais como o feminismo, o ecologismo (que pressupõe uma noção de natureza objetivada, evolucionista e,a o mesmo tempo, animada) e o individualismo moderno-ocidental – o culto ao Self. Este conjunto todo difere acentuadamente das práticas xamânicas tradicionais, onde não existe a noção de natureza objetivada (mas sim o animismo tradicional), onde não existe a ideologia do individualismo (o Self interior, mas sim uma noção relacional de sujeitos), onde não existe o ecologismo (mas sim a predação). Por outro lado, este conjunto de práticas urbanas constrói também uma imagem do bom selvagem e reveste de um certo prestígio a figura idealizada de povos antes dominados e constrangidos pelo sociedade ocidental, além de produzir uma revisão dos valores do ocidente moderno e demonstrar a viabilidade e o vigor do pensamento selvagem dentro do contexto da vida urbana moderna.

José Guilherme Magnani: Perspectivas e impasses do xamanismo urbano

Professor de Antropologia da FFLCH-USP

O neo-xamanismo ou, numa outra denominação, o xamanismo urbano, apresenta-se no atual cenário da religiosidade contemporânea como um conjunto de práticas de cura, autoconhecimento e contato com planos não ordinários de consciência, resultado de uma articulação entre rituais e cosmologias de povos e culturas tradicionais, principalmente indígenas e camponesas, e técnicas e saberes desenvolvidos em algumas áreas do conhecimento do mundo ocidental. Esta relação entre o que se considera uma sabedoria ancestral, acumulada ao longo de gerações em contato com a natureza e determinados elementos da ciência de ponta, faz desse fenômeno um experimento que vai ao encontro de novas necessidades e demandas de espiritualidade nos grandes centros urbanos mas, ao mesmo tempo, abre um campo para especulações, modismos e manipulações; daí a necessidade de se refletir sobre suas alternativas e impasses.

13:00h – 14:00hs

Palestra – O Xamanismo Guarani

Timóteo Verá Popygua

Cacique da aldeia Guarani Tenonde Porã (Barragem, Parelheiros – São Paulo)

O conhecimento tradicional, a sabedoria e a religião Guarani;

A resistência Guarani;

O uso do tabaco pelos pajés;

O conhecimento “artificial”;

Apresentação de slides e de CD de música Guarani.

14:00hs – 16:00hs

Mesa redonda –  O uso da ayahuasca no Brasil: vertentes e experiências
Bia Labate – Debatedora

Débora Carvalho: O ritual daimista no Alto Santo e suas atualizações contemporâneas

Professora universitária e dirigente feminina do Centro de Iluminação Cristão Luz Universal de Minas Gerais, em Santa Luzia (MG).

O trabalho oculto e exotérico de Raimundo Irineu Serra;

O ritual do Alto Santo (exibição de material audiovisual);

A experiência de adequação do ritual do Alto Santo no Ciclumig – Minas Gerais.

Walter Dias Jr: Céu do Mapiá: uma comunidade planetária ou uma Babel da Nova Era?

Mestre em Antropologia Social, professor universitário e dirigente da Igreja do Santo Daime Céu do Vale, em Pindamonhangaba (SP).

A comunicação procura caracterizar os valores, a visão de mundo e a concepção de saúde-doença presentes de maneira subjacente nos projetos de desenvolvimento e nos planos adotados pela comunidade religiosa do Céu do Mapiá (Amazonas), no contexto de expansão internacional da doutrina do Santo Daime.

Lucia Gentil: O uso da Ayahuasca no Centro Espírita Beneficente União do Vegetal

Antropóloga, geógrafa e Conselheira do Núcleo Lupunamanta, do Centro Espírita Beneficiente União do Vegetal, em Campinas (SP).

A comunicação objetiva relatar a fundação e a expansão do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (UDV). A UDV foi “recriada” num seringal da Amazônia pelo baiano José Gabriel da Costa em 1961. Possui uma doutrina cuja base é o cristianismo, mas trabalha também com elementos das culturas africanas e indígenas e aproxima-se de outras seitas espíritas por ter a reencarnação como um dos seus pilares. Há uma hierarquia religiosa interna de quatro segmentos. A expansão da UDV ao meio urbano iniciou-se na década de 60 e acentuou-se na década de 80. Atualmente, a Sede Geral localiza-se em Brasília e a instituição conta com cerca de 110 unidades administrativas no Brasil, Espanha, Inglaterra e Estados Unidos – onde obteve recentemente uma importante vitória judicial. A UDV admite o uso do chá apenas para fins religiosos e tem um cuidado especial com saúde mental e consumo da hoasca por menores de idade.

Leopardo Sales Yawabané Huni Kuin (Kawinawá): A força da jibóia. A tradição Huni Kuin do Nixi-pae (ayahuasca)

Estudante para ser tornar pajé; lidera cerimônias de nixi-pae (ayahuasca) em São Paulo. É Diretor da Associação dos Seringueiros Kaxinawás do Rio Jordão (ASKARJ) e sócio-diretor do Instituto de Desenvolvimento das Tradições Indígenas (IDETI).

Yoshihiro Odo: Os pajés brasileiros

Acupuntor da escola japonesa, e representante da Associação dos Seringueiros Kaxinawás do Rio Jordão (ASKARJ) em São Paulo

Elza Carolina Piacentini: A hoasca e o autoconhecimento: uma abordagem holística

Terapeuta transpessoal, dirigente do espaço Sollua e Mestre Dirigente do grupo hoasqueiro Luz do Vegetal, em Araçariguama (SP).

O início da União do Vegetal (UDV) em São Paulo;

O aparecimento do Osho e suas influências;

A importância do Mestre encarnado;

Gurdjieff e o “trabalho” no Ashram do Osho;

O Centro de Desenvolvimento Integrado Luz do Vegetal – integração das áreas – corporal, artística, terapêutica, espiritual.

Sthan Xannia:Cerimônia da Bebida Sagrada

Mestre Xamã e terapeuta,lidera cerimônias de plantas sagradas, tenda do suor, busca da visão, danças de cura e canções de poder. É dirigente do espaço Filhos da Terra. Núcleo de Estudos e Terapia, em São Paulo (SP).