Els Lagrou é professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia, (PPGSA), IFCS, UFRJ; Doutora pela University of St. Andrews e USP. Publicou artigos em revistas e livros nacionais e no exterior sobre temas relacionados à antropologia da arte, das imagens, das emoções, do xamanismo, e das filosofias sociais ameríndias, repensando conceitos e temas clássicos da antropologia a partir das questões teóricas colocadas pela etnologia ameríndia. Publicou em 2006/2007 o livro A Fluidez da Forma, Arte, Alteridade e Agência em uma Sociedade Amazônica (Kaxinawa), pela Topbooks. Desenvolve pesquisa de campo entre os Kaxinawa (Acre) desde 1989.

Contra capa
Apresentar um livro tão extraordinário e tão fascinante quanto este, fácil não é. Com excepcional habilidade etnográfica e insight teórico, Els Lagrou oferece a descrição de uma ontologia estética amazônica em que a arte humana e a arte dos yuxin se enfrentam e se comunicam segundo uma complexa relação de reversibilidade entre figura e fundo.

O mundo dos sentidos, das formas transientes, das metamorfoses, isto é, o mundo do poder e da relacionalidade, em suma, o mundo da agência das imagens flutuantes geradas por yuxin que a isso se entregam sem cessar, é contra esse mundo que se destaca o corpo pensante ou a pessoa kaxinawa, dotada, ela sim, de uma forma estável e palpável. A arte feminina dos desenhos geométricos e a arte visionária dos homens são as mediações privilegiadas que permitem aos Kaxinawa uma vitória relativa sobre os yuxin: ser um corpo pensante!

O desenho da cobra (a jibóia-sucuri) contém o mundo, disse um homem kaxinawa a Els Lagrou. O yuxin do olho, disse-lhe um outro, é o pensamento. O desenho é a fala dos yuxin — disse-lhe uma mulher. Escrever uma etnografia em que reflexões como essas aparecem como pura verdade é prova de agência estética.

Viva a publicação d’A Fluidez da Forma! Viva a nova antropologia da arte!

Tânia Stolze Lima

Orelha

A rica incursão etnográfica de Els Lagrou na arte, estética, gosto, estilo, poética, ontologia e fenomenologia do povo kaxinawa, falantes da língua pano que habitam a região ocidental da Amazônia brasileira, é refrescante, belamente escrita e notavelmente produtiva. Como tal representa um marco criativo e brilhante para a etnografia amazônica e para a antropologia como disciplina.

Nos últimos anos, a estética, ao lado da antropologia do corpo e dos sentidos, recebeu atenção significativa na etnografia amazônica. Este livro oferece um impressionante modelo para este gênero de investigação. Evitando a metodologia das grandes narrativas ocidentais do social, a autora argumenta igualmente contra uma antropologia da arte que seja praticada como uma abordagem especializada, com o foco direcionado somente na estética, especialmente nos artefatos, nas coisas produzidas. No lugar desta abordagem, Els Lagrou propõe de modo convincente o desenvolvimento de uma etnoestética, uma abordagem mais englobante que seja produtivamente receptiva aos modos de pensar, perceber e fazer dos povos amazônicos. O livro propõe uma nova abordagem da arte a partir de ‘etnografia fina’ que revela o papel do discurso nativo e sua importância na ‘autopoiesis’, ou seja, o processo insistente da produção de novos sentidos.

Sua tarefa é, portanto, o de produzir uma etnografia que seja estruturada pelos conceitos e reflexões dos próprios Kaxinawa, cuja identidade é a de um ‘povo com desenho’. Na vida cotidiana, mulheres tecem desenhos, homens tomam ayahuasca e têm visões. Deste modo, estilos produtivos têm gênero: mulheres mantêm o segredo do desenho, enquanto homens possuem o conhecimento de produzir visões. Desenho, no entanto, não é senão um só aspecto de um todo muito maior. O controle do desenho está intimamente ligado ao poder gerativo e é a agência da cobra jibóia primordial que contempla os humanos com as capacidades para a geração do desenho.

Temos também o valor, expresso em termos poéticos, do entretecer de todos os corpos e substâncias. O desenho e estilo gráfico kaxinawa demonstram uma dinâmica cinética, cuja lógica é crucialmente sintética, perspectivista – e não essencialista ou classificatória. Desenho é sobre o estar relacionado, sempre aludindo a relações e caminhos que ligam mundos diferentes e distintos gêneros de pessoas. Comunica uma percepção fluida, mas sintética da simultaneidade de realidades distintas.

Alteridade é essencial à constituição do eu, uma vez que a separação entre o eu e o outro permanece sempre móvel. Desenho também fixa e estrutura a fluidez de imagens e formas (isto é corpos kaxinawa) que habitam o mundo desencorporado e fluido dos yuxin, a força que anima e permeia o universo kaxinawa. Desenho é ‘a linguagem dos yuxin’: expõe a importância dos caminhos cósmicos e proporciona agência para agir sobre o mundo. É importante mencionar que a arte é encorporada e objetos são extensões agenciais do corpo. É o corpo kaxinawa que pensa e produz conhecimento.

Os Kaxinawa possuem igualmente uma praxis de julgamento estético que é intrinsecamente ligada a certos problemas ontológicos que ocupam a reflexão indígena como, por exemplo, a natureza do poder enquanto simultaneamente criativo e canibalístico. A arte mantém uma relação construtiva e não destrutiva com a existência em comunidade. Sua estética liga claramente desenho não somente à ontologia, mas igualmente a uma filosofia de vida – e a regra social ao gosto estético. Els Lagrou enfatiza a necessidade do entendimento, pelo antropólogo, dos conhecimentos indígenas através de uma leitura mais literal e polissêmica dos conteúdos complexos de suas afirmações. “Precisamos”, afirma, “do pesadelo de encarar a incomensurabilidade”!

Do princípio ao fim deste processo de desdobramento da estética do universo kaxinawa, e de sua interelação com outras áreas da vida, Els Lagrou dialoga, de forma produtiva, com a filosofia, a semiótica, e com vários problemas teóricos debatidos pela Antropologia contemporânea. Particularmente interessante é sua importante contribuição ao presente debate sobre ‘perspectivismo’ amazônico e ao ‘problema’ da alteridade. A autora entende o perspectivismo amazônico como focando sobre as implicações morais, psicológicas e filosóficas de uma predação cuidadosamente controlada, necessária para viver uma forma humana de existência igualitária. Trata-se de um perspectivismo que se alimenta do paradoxo insolúvel: as fronteiras entre eu e outro permanecem simultaneamente fluidas e relacionais. De fato, a força vital do eu é criada através de relações com o outro desejado – e vice versa. Alteridade não significa uma falta de humanidade, mas de inteligibilidade, um modo diferente de ver as coisas. Deste modo, a oposição entre eu e outro não remete a posições reversíveis de sujeito e objeto, mas a uma problemática intersubjetividade, em que cada posição possui simultaneamente agência e subjetividade. O eu, como o outro, pode ser um predador poderoso e também uma vitima humanizada. O segredo é o de apaziguar a alteridade através de cuidadosamente aproximá-la, tornando-a familiar através da sedução, mimese, transformação e predação. Este jogo com as possibilidades da alteridade engendra vida, e no fim – morte. Um modo muito amazônico de pensar que Els Lagrou captura bem.

Joanna Overing
Professor Emeritus
University of St Andrews

Para entrar em contato com Els: elagrou@terra.com.br

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