Elza Carolina Piacentini (*)

Comunicação feita no dia 19 de março de 2005, na mesa redonda: “O uso da ayahuasca no Brasil: vertentes e experiências”. Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo, organização Léo Artése/ Associação Lua Cheia – Pax, São Paulo, 13 a 20 de março de 2005. (**)

Em 1972, um pequeno grupo de teatro (Jovelty Archângelo, Nilda Maria, Helena Villar e Kito Junqueira) foi convidado pelo então promotor de eventos Nielson Menão para apresentar a peça “Como Somos, Cromossomos”, no Teatro Municipal de Manaus.

O grupo aceitou o convite. Numa das noites, foi assistir à peça um mestre do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (Mestre Cruzeiro) que, após a apresentação, convidou-os para participarem de uma sessão de novatos para beber a hoasca. Todos ficaram muito entusiasmados com a experiência e, quando voltaram para São Paulo, ganharam um garrafão de presente com 5 litros do chá, com a promessa de não distribuírem para outras pessoas.

Nielson e sua esposa Ivone voltaram para São Paulo junto com o grupo. Aqui, continuaram a se reunir para beber o chá e comentaram com outras pessoas o que estava acontecendo. Uma delas, Marinho Piacentini, resolveu ir até Manaus experimentar o chá.

Gostou tanto que procurou um meio de poder receber o chá em São Paulo regularmente. Entrou em contato com a direção da União do Vegetal e, depois de pouco tempo, o então presidente da entidade, Mestre Hilton, aceitou o convite para vir de Porto Velho, onde era a sede central da UDV, para São Paulo. Depois de algumas sessões fundou nesse mesmo ano, no dia 10 de setembro de 1972, o terceiro núcleo da União do Vegetal (o primeiro era em Porto Velho e, o segundo, em Manaus) com o nome de Samaúma.

O Samaúma rapidamente começou a crescer, sendo sempre visitado pelos mestres de Porto Velho e Manaus. Infelizmente, nesta época, o Mestre Gabriel – criador, fundador e orientador espiritual da seita – já havia morrido (em 24 de setembro de 1971), mas a sua presença continuava bem forte na memória dos mestres formados por ele. Assim, o núcleo começou a agregar um grande número de pessoas. Foi uma fase muito próspera, onde a integração e a amizade entre os participantes contagiavam os que chegavam.

Em 1976, chegou a São Paulo, depois de uma viagem à Europa e à Índia, Peter Rácz, que era o único do nosso grupo que havia conhecido pessoalmente o Mestre Gabriel numa viagem que fizera a Porto Velho muitos anos antes.

Ele nos contou que havia conhecido na Índia um Iluminado, diante do qual sentira o mesmo que sentira diante do Mestre Gabriel, isto é, totalmente amado e aceito.

Achamos estranho o modo como ele voltara se vestindo (todo de laranja) e usando um colar (mala) com a foto do Mestre indiano. Mas o Marinho, meu irmão, que na época era o responsável pelo núcleo, ouviu a gravação de uma palestra do Mestre Bhagwan Shree Rajneesh (Osho) e resolveu traduzir a fita e colocá-la numa sessão do vegetal. O impacto foi grandioso e daí por diante as pessoas do núcleo se reuniam uma vez por semana para ouvir as outras gravações, agora sem o vegetal.

Pensando que os mestres da UDV também gostariam de ouvir essas palestras, ele enviou algumas fitas para Manaus. A reação foi de repúdio. Concluíram que o núcleo de São Paulo estava desprezando os ensinamentos do Mestre Gabriel. Assim, após uma sessão dos Mestres antigos (os da época do Mestre Gabriel), em Porto Velho, e outra sessão do Corpo do Conselho em São Paulo, o Mestre Braga puniu o Marinho. Como as pessoas do núcleo não concordaram com a punição, o núcleo inteiro foi punido.

Marinho foi até a Índia e voltou de lá com a autorização para abrir em São Paulo um Centro de Meditação com as técnicas de Rajneesh. E logo um novo movimento foi iniciado com a maior parte dos antigos sócios do Samaúma e outros que começaram a chegar. Eles fizeram meditações ativas, grupos de crescimento aprendidos nas viagens de vários participantes à Índia, e continuavam a ouvir as palestras. Alguns livros foram traduzidos e um jornal começou a ser editado com palestras e notícias do movimento.

Entretanto, algumas pessoas continuaram a beber o chá aqui, liderados por um dos sócios (Hélio Rodrigues Ferrari), com a restrição de não distribuir o vegetal para novos sócios. Depois de algum tempo, o Centro Espírita UDV enviou um dos mestres de Porto Velho, Mestre Paixão, para liderar os trabalhos com o chá em São Paulo e o Samaúma continuou seu desenvolvimento.

Tendo participado de todo o processo, sentia-me atraída tanto pelos ensinamentos do Bhagwan quanto pelos do Mestre Gabriel. Fui até a Índia conhecer pessoalmente o Mestre Rajeesh e participar dos trabalhos de auto-conhecimento que eram desenvolvidos lá. Tive a oportunidade de conhecê-lo numa época em que era possível receber instruções pessoais diretamente dele. Foi um dos momentos mais ricos da minha vida em termos de auto-percepção, um grande mergulho no desconhecido interior.

No entanto, minha ligação com o chá e o Mestre Gabriel continuava também intacta e, assim, continuei bebendo o chá – até que a sensação de fogo cruzado entre as pessoas que bebiam o chá e as que participavam do centro de meditação começou a me desequilibrar de tal forma que nos momentos em que estava sob o efeito do vegetal, sentia-me aturdida. Optei, então, em 1983, por me afastar da comunhão do chá.

O Centro de Meditação do Osho cresceu bastante, chegando a ter uma comunidade num sítio com mais de cem participantes. Mas com a ida do Osho para os Estados Unidos, em 1981, onde ficou por um tempo em silêncio, outros rumos surgiram na direção dos trabalhos e tanto o centro como a comunidade deixou de existir.

Passei, então, um tempo sem me dedicar a qualquer grupo religioso, mas tive a oportunidade de traduzir nessa época vários livros de outros mestres para uma editora especializada nesses temas (Editora Pensamento), o que me trouxe uma visão mais eclética dos movimentos religiosos.

Em 1991, estando trabalhando como terapeuta, recebi o convite de um cliente (Luciano Levinzon), que freqüentava o Daime, para beber o chá em Machupichu. Não aceitei o convite, mas depois de muita insistência por parte dele, que dizia ter tido uma miração comigo ao visitar o Mapiá, resolvi beber o chá com ele.

Foi uma experiência tão forte tudo o que vi, ouvi e senti internamente que decidi iniciar um novo trabalho com o chá, procurando transmitir todo o meu aprendizado.

E assim surgiu o Centro de Desenvolvimento Integrado Luz do Vegetal, o qual dirijo há quatorze anos. O ritual é igual ao do Centro Espírita União do Vegetal, mas, durante as sessões, são ministrados ensinamentos de outros Mestres, além do Mestre Gabriel, dependendo das questões levantadas pelos participantes. Isto não traz controvérsias uma vez que, a meu ver, todos os Mestres apontam numa só direção.

Obrigada.

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(*) Elza Carolina Piacentini nasceu em setembro de 1946 em São Paulo. Como formação acadêmica, formou-se música e letras e estudou sociologia, antropologia, história e política na USP. Começou a beber a hoasca em 1973, no primeiro núcleo da UDV em São Paulo. Em 1977 foi pela primeira vez para a Índia, onde aprendeu várias técnicas de autoconhecimento no Ashram do Osho, tendo sido sua tradutora oficial por vários anos. Estudou psicologia, principalmente a transpessoal, e liderou o departamento de terapias na Comunidade do Osho no Brasil. Hoje, dirige o Espaço Sollua, um espaço de terapias transpessoais e meditações do Osho, onde trabalha como terapeuta. É Mestre Dirigente do Centro de Desenvolvimento Integrado Luz do Vegetal, um grupo hoasqueiro localizado em Araçariguama (SP).
espaco_sollua@ig.com.br
www.espacosollua.com.br

(**) A mesa redonda foi idealizada e organizada pela antropóloga Bia Labate, que prestou consultoria ao Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo. Foi composta por:
1 – Bia Labate – coordenadora e debatedora
2 – Débora Carvalho: O ritual daimista no Alto Santo e suas atualizações contemporâneas
Professora universitária e dirigente feminina do Centro de Iluminação Cristão Luz Universal de Minas Gerais, em Santa Luzia (MG).
3 – Walter Dias Jr: Céu do Mapiá: uma comunidade planetária ou uma Babel da Nova Era?
Mestre em Antropologia Social, professor universitário e dirigente da Igreja do Santo Daime Céu do Vale, em Pindamonhangaba (SP).
4 – Lucia Gentil: O uso da Ayahuasca no Centro Espírita Beneficente União do Vegetal
Antropóloga, geógrafa e Conselheira do Núcleo Lupunamanta, do Centro Espírita Beneficiente União do Vegetal, em Campinas (SP).
5 – Leopardo Sales Yawabané Huni-Kuin (Kawinawá): A força da jibóia. A tradição Huni-Kuin do Nishi-pae (ayahuasca)
Estudante para ser tornar pajé; lidera cerimônias de nishi-pae (ayahuasca) em São Paulo. É representante do povo Huni kuin do Rio Jordão, e sócio-diretor do Instituto das Tradições Indígenas (IDETI).
6 – Yoshihiro Odo: O uso da ayahuasca no Brasil e os pajés brasileiros
Acupuntor da escola japonesa. Vem participando de sessões de nishi-pae (ayahuasca) com Leopardo Sales Yawabané Huni-Kuin (Kaxinawá) há um ano e oito meses, em São Paulo.
7- Elza Carolina Piacentini: A hoasca e o autoconhecimento: uma abordagem holística
Terapeuta transpessoal, dirigente do espaço Sollua e Mestre Dirigente do grupo hoasqueiro Luz do Vegetal, em Araçariguama (SP).
8 – Sthan Xanniã: Cerimônia da Bebida Sagrada
Mestre Xamã e terapeuta, lidera cerimônias de plantas sagradas, tenda do suor, busca da visão, danças de cura e canções de poder. É dirigente do espaço Filhos da Terra. Núcleo de Estudos e Terapia, em São Paulo (SP).

Cada representante cantou um canto da sua tradição, a exceção de Lucia Gentil (União do Vegetal), que afirmou que “na UDV não trazemos [entoamos] as chamadas [cânticos inspirados pela ayahuasca] fora do salão do vegetal [sessões com a hoasca]”. Outros convidados da platéia fizeram cantos, como Vera Fróes (Autora de História do Povo Juramidam, Suframa, 1983, e Madrinha do Luz da Metrópole, linha daimista do Padrinho Sebastião – Teresópolis, RJ) e Guilherme Gomes de Andrade (corpo instrutivo da Associação Beneficente Luz do Vegetal, liderada por Wilson Gonzaga – São Paulo, SP).

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