Por Bia Labate (*)Detail Nucleo Santa Fe

24 de abril de 2016: Fazia uma bela tarde ensolarada em Santa Fé. Naquele dia, o gosto único, tipicamente amargo e desagradável da ayahuasca não pareceu tão ruim à medida que o senti descendo pela garganta. Talvez tenha sido porque o vegetal ou hoasca — o nome da ayahuasca na União do Vegetal (UDV), religião que teve sua origem na Amazônia brasileira nos anos 1960 — não veio da Amazônia, mas sim da nova plantação do cipó Banisteriopsis caapi que a UDV mantém no Havaí. Ou talvez o líquido marrom tivesse um gosto diferente por também eu estar curtindo, junto com os membros da UDV, o agradável gosto de justiça, liberdade e vitória. Celebrava-se a cerimônia de abertura do núcleo Santa Fé, o novo templo da UDV nos Estados Unidos. A ocasião solene contou com a presença dos líderes da religião no Brasil.

Este acontecimento foi o resultado de uma longa e difícil jornada: cinco anos e meio sem poder beber o vegetal legalmente nos EUA; sete anos de luta até o caso chegar à Suprema Corte; quatro anos negociando a regulamentação da administração da hoasca com o DEA (órgão de controle sobre o uso de drogas dos EUA) (depois de o processo ter sido julgado); e nove anos de luta com o condado de Santa Fé para construir o templo.

“Hoje celebramos a realização de um sonho. É a realização da visão do Mestre Gabriel [o humilde seringueiro que fundou a UDV] de que a UDV se espalharia por outros países. A justiça federal determinou que tínhamos o direito de beber nosso sacramento, mas sem um local onde nossa irmandade pudesse se reunir, a ‘liberdade religiosa’ era só um conceito abstrato,” me disse o Mestre Jeffrey Bronfman. Recebendo os agradecimentos calorosos da comunidade durante a sessão, Bronfman foi um dos principais estrategistas do processo legal. Um guerreiro cuja fortuna pessoal também contribuiu para tornar possível esta isenção religiosa para consumir uma “droga” de nível I nos Estados Unidos, matriz da Guerra às Drogas.

Frequento a UDV esporadicamente há 20 anos. Foi nessa vertente que experimentei a ayahuasca pela primeira vez, experiência essa que transformou minha vida para sempre. Sempre tive um fascínio pela combinação que a UDV faz da ayahuasca com uma organização altamente institucionalizada e um ethos conservador. A UDV sempre representou para mim uma espécie de “namoro com a normalidade.” Pensei algumas vezes em me filiar, mas nunca o fiz.

Durante a tarde naquela “colorida paisagem religiosa do alto deserto do Novo México”, nas palavras do antropólogo Michael Brown, eu me encontrava bastante empolgada. A expansão da UDV para os EUA era uma delícia para minha mente antropológica. Um dos Mestres (líder religioso) me falou que eu parecia uma criança em um parque de diversão.

A UDV busca manter sua identidade e estilos caboclos junto com a introdução de uma poderosa estrutura e tecnologia. O ritual foi inteiramente conduzido em português, com ensinamentos feitos pelos tradicionais Mestres da origem (contemporâneos do Mestre Gabriel). Os norte-americanos ouviram suas palavras por meio de um aparelho eletrônico de tradução simultânea (um dos ouvidos escutava a tradução em inglês, enquanto o outro deixava o aparato de lado para ouvir o que estava sendo dito em português!)

Em uma cabine no segundo andar, Renata Cassis Law, uma brasileira que vive nos EUA há 18 anos e é casada com o líder local da igreja, fazia a tradução simultânea. “Quando estou traduzindo, fico mais focada no que o Mestre está falando. Não deixo a mente divagar. Eu me ligo na burracheira [o efeito do vegetal] e traduzo. Sinto que uma linha de transmissão direta é estabelecida. Realmente curto isso. É também um prazer servir os outros” ela me contou, enquanto trabalhava algumas horas extras depois da sessão, ajudando a preparar um gostoso jantar que foi servido a todos.

Ao se expandir nacional e internacionalmente, a UDV tomou algumas decisões estratégicas: funcionar dentro da lei e nunca de maneira clandestina, ser sustentável ecologicamente, e não traduzir seus ensinamentos para outras línguas. As chamadas (músicas) ou histórias (que fazem parte da doutrina religiosa) não são traduzidas, embora outras partes de algumas sessões possam ser realizadas em outras línguas. Os estrangeiros que desejam escalar a hierarquia interna do grupo têm que aprender português. O resultado é uma mescla, uma comunidade fascinante que fala português com diferentes níveis de fluência. Trata-se de uma característica marcante da UDV no crescente processo de diáspora das religiões brasileiras no contexto religioso global.

Nancy Hollander, a aclamada advogada responsável por essa vitória, declarou: “Hoje é o término de 17 anos de trabalho em conjunto com a UDV e é o nascimento desta casa de oração. É um ‘boa noite’ e um ‘bom dia’ ao mesmo tempo”. Nessa mesma linha, Luís Felipe Belmonte reconheceu: “Isto representa uma vitória significativa no reconhecimento do valor do trabalho do Mestre Gabriel e seus discípulos na expansão da UDV pelo mundo”. Advogado brasileiro que vive na Grã-Bretanha, Belmonte tem trabalhado com afinco na legalização da UDV na Itália, Holanda, Espanha, Grã-Bretanha, Suíça e Austrália.

Após a cerimônia, foi exibido um vídeo que mostrava a construção do templo. O sentimento unânime era de felicidade, prazer e alegria. Ao mesmo tempo, havia o triste reconhecimento da enorme quantidade de preconceito e ignorância que envolve a UDV. Reclamações absurdas dos vizinhos envolveram acusações infundadas, inclusive a de que a DMT presente no chá poderia contaminar a água subterrânea e envenenar as crianças. Todo aquele que teve oportunidade de beber o vegetal sabe, e compartilha o entendimento silencioso, que ele nos mantém em boa forma, saúde e disciplina.

Tirei uma foto na cabine de fotos e peguei um souvenir de madeira com a imagem do templo: lembranças da grande inauguração e, para mim, símbolos do incrível desenvolvimento da UDV. Entrei no avião agradecida pelo privilégio de poder viajar para dentro do meu coração e alma, visitar uma terra espiritual encantada e compartilhar esse momento com tantos amigos da UDV.

Parabéns à exemplar perseverança da irmandade; e também aos meus companheiros pesquisadores que têm a curiosidade de estudar a ayahuasca e coisas como o conceito de “concentração mental” da UDV — fato oposto a uma alucinação patológica. Arriscam a carreira para abordar esse tópico tabu, navegando por águas misteriosas com as ferramentas da ciência. Todos os que amam a justiça e a liberdade são parte desta vitória.

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(*) Este texto é uma tradução do original que foi publicado hoje no meu blog no Huffington Post http://www.huffingtonpost.com/bia-labate/the-inauguration-of-the-u_b_9788494.html

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