Anuncio que meu colega, o pesquisador Afrânio Patrocínio de Andrade “recebeu a estrela”, quer dizer, se tornou Mestre do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (UDV), em 27 de janeiro de 2010, no Núcleo Caminho do Mestre, em Porto Velho.

Afrânio é autor dos seguintes textos, entre outros:

ANDRADE, Afrânio Patrocínio de. “A União do Vegetal no Astral Superior”. Comunicações do ISER, ano 7, nº 30, 1988. Disponível em: http://www.neip.info/html/objects/_downloadblob.php?cod_blob=506

ANDRADE, Afrânio Patrocínio de. O Fenômeno do Chá e a Religiosidade Cabocla. Dissertação de Mestrado em Ciências das Religiões. Instituto Metodista de Ensino Superior, 1995. Disponível em: http://www.neip.info/html/objects/_downloadblob.php?cod_blob=350

ANDRADE, Afrânio Patrocínio de.  Contribuições e limites da União do Vegetal para a nova consciência religiosa. In: Labate, B. C. & Araújo, W (orgs). O uso ritual da ayahuasca. Campinas, Mercado de Letras, 2004 (2a ed.), pp. 589-613. (a primeira edição é de 2002).

ANDRADE, Afrânio Patrocínio de. “Curas e milagres: o reconhecimento de José Gabriel da Costa como Mestre Superior”. Publicado no site do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP), em: http://www.neip.info/html/objects/_downloadblob.php?cod_blob=351, 2008.

Afrânio tem uma trajetória digna de comentário. Ele recebeu a estrela 24 anos desde que participou de seu primeiro ritual na UDV, em 20 de fevereiro de 1986. Associou-se originalmente  no Núcleo Mestre Ramos, em Ariquemes, onde permaneceu até maio de 1987. Daí voltou para a Faculdade de Teologia  em Sao Leopoldo (RS) e, enquanto estudava, frequentava o Núcleo Cosme e Damião, em Curitiba, para onde viajava a cada 15 dias.

Frequentou esse Núcleo de junho de 1987 a março de 1988. Naquela ocasião começou seu interesse em trazer a UDV para a academia, numa época em que havia ainda raros textos acadêmicos sobre as religiões ayahuasquiras brasileiras. Com efeito, Afrânio escreveu alguns primeiros textos existentes sobre a UDV (cf. Andrade 1988).
Daí passou a frequentar o grupo em Porto Alegre, onde acompanhou o mestre Augusto Freire, na então Distribuição Autorizada de Porto Alegre, que posteriormente se tornou o Núcleo Jardim das Flores.
 
No início de 1989, transferiu-se para o Núcleo Samaúma, em São Paulo, onde permaneceu até dezembro de 1990, enquanto estudava Direito. Mudou-se para Porto Velho e passou a frequentar o Núcleo Estrela do Norte, em 1991, quando foi convocado para o quadro instrutivo da UDV (segunda categoria hierárquica interna, depois dos simples associados). 
 
Retornou a São Paulo em 1992, para cursar o mestrado e o doutorado em Ciências da Religião na Universidade Metodista de São Paulo, aí permanecendo até 1997. Em 1995, defendeu sua dissertação de mestrado sobre a UDV (Andrade 1995). Durante este período, concluiu o Curso de Direito, enquanto frequentava, como sócio, o Núcleo São João Batista. Neste mesmo período, iniciou seu doutoramento em Direito.
 
Em março de 1998, concluído seu doutorado em Ciências da Religião, foi contratado pela Universidade Luterana do Brasil, para lecionar no Curso de Direito em Ji-Paraná, passando a frequentar o Núcleo Estrela Guia. Em maio de 2000, assumiu a Coordenação do Curso de Direito da Faculdade FARO, em Porto Velho, retornando ao Núcleo Estrela do Norte, onde foi conocado para o Corpo do Conselho em 2001. Neste peíodo, concluiu seu doutoramento em Direito.
Em 2002, publicou o artigo “Contribuições e limites da União do Vegetal para a nova consciência religiosa” no livro O uso ritual da ayahuasca, do qual sou co-organizadora (republicado na segunda edição do livro, em 2004), em que fazia uma análise da categoria “Mestres da Curiosidade” presente no mito fundante da UDV, a História da Hoasca, e uma crítica ao etnocentrismo da UDV em relação aos demais grupos ayahuasqueiros. Segundo a linha de interpretação hegemônica no grupo, argumentava ele, a UDV se consideraria como sendo a própria “origem” da ayahuasca, e os demais usos seriam vistos “desvios” desta esta genealogia primordial – daí sua superiodidade. Ou, noutros termos,  o mito fundante seria lido ao pé da letra como fato histórico. Para além da análise sociológica, o artigo continha também evidentes traços de mágoas com relação a instituição. (A propósito, vale notar que a coletânea tinha como objetivo também explicitar as múltiplas vozes e conflitos existentes no campo ayahuasqueiro; outros artigos, analogamente, expressavam opiniões pessoais ou determinadas visões ideológicas – um deles, por exemplo, advogadava que apenas os índios seriam legítimos detentores dos saberes e práticas ayahuasqueiras). O texto gerou polêmica e um protesto judicial da instituição contra ele.
Em 2002, Afrânio pediu afastamento e, depois, foi afastado da UDV, permanecendo até setembro de 2006 fora do grupo.
Finalmente, retornou a UDV, e juntamente com o mestre Carmiro, filho do Mestre Gabriel, deu início aos trabalhos de fundação do hoje Pré-Núcleo Caminho do Mestre, em Porto Velho. Chegou ao Corpo do Conselho, mas foi afastado pela Direção da UDV pelo mesmo motivo de ter publicado o artigo em 2002.
Em 2008, publicou um novo artigo sobre a UDV (Andrade 2008), em que sugeria que o Mestre Gabriel teria realizado várias curas, sendo uma espécie de curador popular. O artigo, de certa forma, explicita sua nova fase com relação ao grupo, onde parece haver uma reaproximação. 
Afrânio insistiu em seu objetivo e retornou ao convívio da UDV, sempre no mesmo Pré-Núcleo. Vencidas todas as dificuldades, tornou-se mestre agora, no aniversário do Pré-Núcleo Caminho do Mestre. Trata-se de uma estrela conseguida pela insistência de um objetivo, e por uma relação de profunda fé e adesão aos ensinamentos do Mestre Gabriel.
Afrânio é uma espécie de dicionário ambulante sobre a UDV, tem uma enorme coleção de dados, informações e vivências, sendo uma das pessoas que eu conheço que mais sabe sobre a UDV. Além disto, sua ampla e eclética formação profissional são um fato em extinção no mundo acadêmico atual. 
Sua trajetória é um bom exemplo da mistura entre pesquisa, ciência e espiritualidade que parece vigorar no campo de estudos sobre as religiões ayahuasqueiras no Brasil, e exemplar para pensarmos as nossas múltiplas relações de estranhamento e reencantamento na vida, mostrando como essa pode ser longa, bela e dinâmica. Sem dúvida vários dos personagens desta história se transformaram e amadurecem nestes anos.
Afrânio, aqui minha homenagem e admiração. Parabéns!
 

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