Folha de São Paulo – The New York Times

São Paulo, segunda-feira, 26 de abril de 2010

CIÊNCIA & TECNOLOGIA

Droga ilumina a consciência e pode aliviar a depressão

Por JOHN TIERNEY
Como psicólogo clínico aposentado, Clark Martin estava familiarizado com os tratamentos tradicionais para a depressão, mas, no caso dele, a doença parecia impossível de combater, em meio à quimioterapia e a outros árduos tratamentos contra um câncer de rim. Terapia lhe parecia fútil. E os medicamentos antidepressivos tampouco o satisfizeram.
Nada teve efeito duradouro até que, aos 65 anos de idade, ele teve sua primeira experiência psicodélica. Martin viajou de sua casa, em Vancouver, Estado de Washington, para participar de uma experiência na escola de medicina da Universidade Johns Hopkins do uso de psilocibina, ingrediente psicoativo presente em alguns cogumelos.
Os cientistas estão uma vez mais estudando os alucinógenos, que se tornaram tabu entre as autoridades regulatórias depois que entusiastas como Timothy Leary promoveram seu uso, na década de 60, com o slogan “turn on, tune in, drop out” (se ligue, sintonize e pule fora). Agora, usando protocolos e salvaguardas rigorosos, os cientistas voltaram a obter permissão para estudar o potencial dessas drogas no tratamento de problemas mentais e para aprender mais sobre a natureza da consciência.
Depois de tomar o alucinógeno, Martin colocou uma venda e fones de ouvido e se acomodou em um sofá para ouvir música clássica e contemplar o universo. “Subitamente, todo o conhecido começou a evaporar”, recorda. “Imagine que você caia de um barco em pleno oceano e que, quando você olhe, o barco tenha desaparecido. E depois a água. E depois você mesmo.”
Agora, passado mais de um ano, Martin atribui àquela experiência de seis horas parte do crédito por ter superado a depressão e mudado seu relacionamento com sua filha e amigos. Ele a classifica como um dos mais significativos eventos de sua vida, o que o torna um membro de um clube crescente de participantes dessas experiências.
Pesquisadores de todo o mundo se reuniram recentemente na Califórnia para a maior conferência sobre ciência psicodélica realizada nos EUA nos últimos 40 anos. Eles discutiram estudos sobre agentes psicodélicos no tratamento da depressão de pacientes de câncer, distúrbio obsessivo-compulsivo, distúrbio de estresse pós-traumático e vício em álcool ou drogas.
Os resultados até o momento vêm sendo encorajadores, mas também provisórios, e os pesquisadores acautelam contra atribuir importância excessiva a estudos em pequena escala como esses. Eles não desejam repetir os erros dos anos 60, quando alguns cientistas se tornaram defensores ferrenhos do uso desse tipo de droga e exageraram seu entendimento quanto aos riscos de seu uso.
Como as reações aos alucinógenos podem variar muito, os pesquisadores e os conselhos de revisão científica desenvolveram diretrizes para criar um ambiente confortável e oferecem monitores especializados para lidar com reações adversas. Estabeleceram protocolos padronizados para que o efeito das drogas possa ser avaliado de forma mais precisa.
Os cientistas estão especialmente intrigados pelas semelhanças entre as experiências alucinógenas e as revelações reportadas por místicos religiosos e praticantes da meditação ao longo da história. Essas semelhanças foram identificadas em estudos de pesquisadores suíços e em experiências comandadas por Roland Griffiths, professor de biologia comportamental na Johns Hopkins, em Maryland.
A experiência de Martin é típica, segundo Griffiths: uma perspectiva melhor sobre a vida depois de uma experiência na qual os limites entre o eu pessoal e os outros desaparecem. Em entrevistas, Martin e outros participantes descreveram que seus egos e corpos desapareceram e que eles passaram a se sentir parte de um estado de consciência mais amplo.
“Foi uma completa mudança de personalidade”, disse Martin. “Eu já não estava preso ao meu desempenho e tampouco tentava controlar as coisas. Podia ver que as coisas realmente boas da vida acontecerão se você simplesmente estiver presente e compartilhar com os outros de seus entusiasmos naturais.”
Os relatos dos participantes eram tão parecidos com relatos de experiências religiosas místicas, disse Griffiths, que é provável que o cérebro humano esteja programado para passar por essas experiências “reunitivas”, talvez porque elas confiram vantagem evolutiva. “A sensação de que estamos todos no mesmo barco pode ter beneficiado comunidades ao estimular a generosidade recíproca”, disse o professor. “Por outro lado, o amor universal nem sempre é conducente a adaptação, tampouco.”

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