Leia a apresentação da Mesa Redonda que ocorreu em Florianópolis dia 29 de abril de 2008 (para saber mais sobre o evento, clique aqui. Há informações interessantes sobre a história do campo de estudos da ayahuasca e afins no Brasil.

(Em breve este blog publicará fotos do evento).

Por Isabel Santana de Rose

– Agradecemos às pessoas que colaboraram com a realização deste evento. À Bia Labate pela idealização e iniciativa da mesa redonda, e aos palestrantes, especialmente Luiz Fernando Milanez, que veio de Campinas. Ao Programa de Pós Graduação em Antropologia e especialmente à professora Esther Jean Langdon, que infelizmente não pode estar presente, pela colaboração na organização do evento. À Editora Mercado de Letras pelo apoio e à Livros e Livros pela realização do lançamento. Ao PRPG pelo apoio para a realização da mesa redonda. Ao NAVI pela filmagem da mesa redonda. Ao NEIP e Alto das Estrelas pelo apoio ao livro e ao evento.

– A UFSC tem um papel especialmente importante neste campo de pesquisas. Jean Langdon foi uma das pioneiras na área na década de 70, com suas pesquisas sobre o uso da ayahuasca entre o povo indígena Siona na Colômbia. Desde sua entrada na UFSC em 1983, esta professora vem orientando trabalhos de alunos que pesquisam esta questão e temas relacionados. Em 1984, Jean organizou um grupo de estudos sobre xamanismo no departamento de antropologia; este teve reuniões regulares durante cerca de três anos, tendo contado com a participação dos antropólogos Luis Eduardo Luna, Elsje Lagrou, Alberto Groisman e do psiquiatra Ari Sell, entre outros. Dois resultados importantes deste grupo foram a organização de um GT sobre xamanismo na reunião da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) de 1990, realizada em Florianópolis, e a publicação em 1996 do livro organizado por Jean Langdon “Xamanismo no Brasil: novas perspectivas” (posteriormente, este grupo tornou-se o Grupo de Estudos sobre Saúde Indígena e, finalmente, o NESSI: Núcleo de Estudos em Saúde e Saberes Indígenas). Nesta época, os estudos sobre xamanismo ainda não tinham o destaque que tem hoje, o que aponta para o papel do departamento de antropologia da UFSC em chamar a atenção para a relevância desta temática (posteriormente o tema adquiriu grande visibilidade na antropologia brasileira, principalmente a partir das discussões de Eduardo Viveiros de Castro e outros sobre o perspectivismo ameríndio).

Ainda na década de 90, Luis Eduardo Luna, pesquisador de destaque na área que trabalhou principalmente com os vegetalistas peruanos, ensinou na UFSC como professor visitante. O etnólogo Oscar Calavia Saez, que pesquisou outro povo indígena que faz uso da ayahuasca, os Yaminawa do Acre ingressou no departamento em 1996, enquanto Alberto Groisman, pioneiro no campo de estudos sobre as religiões ayahuasqueiras tornou-se professor neste mesmo período. Ambos estão presentes hoje aqui nesta mesa redonda. Além disso, passaram pela universidade muitos alunos que realizaram dissertações de mestrado e mesmo pesquisas de doutorado e pós doutorado ligadas ao tema, tais como Maria Cristina Pelaez, Elsje Maria Lagrou, Laura Perez Gil e Marcelo Mercante.

– Esta região também possui grande riqueza do ponto de vista empírico. Na ilha de Florianópolis há duas igrejas do Santo Daime, o Céu do Patriarca Valdede Mota de Melo, fundado em 1987, dirigido por Ênio Staub e localizado na Vargem Grande, e a Casa de Oração Maria Marques, dirigida por Vera Gall e Ledemar e localizada no Santinho. No estado de Santa Catarina existem 3 nucleos da UDV, localizados em Joaçaba (1989), Florianópolis (2005) e Criciúma (1997), totalizando 351 sócios. Somado a isso, temos workshops de Luis Eduardo Luna com estrangeiros no Wasiwaska (Wasiwaska – Research Centre for the Study of Psychointegrator Plants, Visionary Arts, and Consciousness. Wasiwaska – the House of the Vine), grupos ligados ao Fogo Sagrado de Itzachilatlan, comumente conhecido como Caminho Vermelho, cuja sede nacional está localizada no estado de Santa Catarnina, na região de Urubici, indígenas Guarani que atualmente vêm realizando cerimônias com ayahuasca, etc.

– O objetivo desta mesa é promover o lançamento do livro “Religiões Ayahuasqueiras: um balanço bibliográfico. Este livro tem como objetivo fazer um balanço deste campo de estudos; a mesa segue este mesmo espírito, procurando abordar
a) uso da ayahuasca entre povos indígenas (ausente no livro)
b) uso nas cidades (religiões ayahuasqueiras)
c) expansão do Daime e da UDV para o exterior

– Mesa optou por enfocar humanidades, deixando de fora pesquisas farmacológica, psiquiátrica e psicológica sobre as religiões ayahuasqueiras;

– Dentro das humanidades, claro que muitos aspectos ficaram de fora também, não pretendemos fazer um balanço extensivo. Um exemplo é a incorporação da ayahuasca pelos indígenas Guarani, tema da minha pesquisa de doutorado em andamento. A inserção da ayahuasca na aldeia Yynn Morothi Wherá, localizada no município de Biguaçu, litoral de Santa Catarina, está ligada à criação de uma rede de relações entre diferentes grupos que fazem uso desta bebida e também de outras plantas, com destaque para os próprios Guaranis, o Fogo Sagrado de Itzachilatlan ou Caminho Vermelho e a igreja daimista Céu do Patriarca. Através desse movimento, chamado de “aliança das medicinas” passa a haver uma intensa circulação de pessoas, saberes, práticas e substâncias no âmbito dessa rede. Este não é um caso isolado, devendo ser compreendido como estando inserido em um contexto mais amplo, relacionado à expansão das religiões ayahuasqueiras e à diversificação das formas de consumo da ayahuasca na contemporaneidade. O que está em jogo aqui diz respeito à migração de símbolos e sujeitos em escala local e global, ao trânsito entre práticas religiosas diversas, e à construção de religiosidades e identidades híbridas em um contexto pós-colonial. Desta maneira, a discussão sobre a apropriação da ayahuasca pelos Guarani pode ser relacionada com questões e temas fundamentais tanto para a etnologia sul-americana recente quanto para a antropologia contemporânea em geral.

– Esta mesa busca um diálogo entre o ponto de vista “acadêmico” ou “científico” e a perspectiva “nativa”, procurando apontar para a importância desta interlocução e mesmo para a importância da dissolução desta dicotomia. Foi neste sentido que convidamos Luiz Fernando Milanez da UDV e também Ênio Staub, dirigente da igreja daimista Céu do Patriarca de Florianópolis e secretário do Cefluris, que, infelizmente, não pode estar presente. Cabe destacar a relevância da Comissão Científica da UDV representada por Milanez, pois esta foi criada como uma espécie de ‘reação’ de um grupo religioso frente ao interesse crescente da academia com relação a ele;

– Tanto o livro quanto a realização da mesa tem como base uma busca de interação entre pesquisadores, de criação de redes, de promoção de comunicação e intercâmbio. Neste sentido, é interessante destacar que temos aqui várias fases das pesquisas sobre este tema – ie Alberto é um dos pioneiros e foi meu orientador no mestrado, Bia foi minha professora na graduação, agora estou no doutorado: trocas no tempo (gerações) e no espaço (universidades diferentes).

– Como procuramos mostrar no livro, parece haver uma efeverscência deste campo de estudos, uma expansão das pesquisas a nível nacional e internacional. Esta mesa procura analisar este processo, ao mesmo tempo em que é um reflexo dele.

Sobre os participantes:

Alberto Groisman é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina, concluiu o mestrado em Antropologia Social em 1991, com trabalho fundamentado em pesquisa de campo nos estados do Amazonas e Acre, onde visitou e residiu em comunidades associadas aos movimentos religiosos usuários da ayahuasca, particularmente o Santo Daime. PhD em Antropologia pelo Goldsmiths College, Universidade de Londres, em 2000, com tese que abordou a presença de grupos do Santo Daime na Europa, e particularmente na Holanda. Tem livro e artigos publicados sobre temas associados ao uso ritual de substâncias e plantas psicoativas. Atualmente é professor do Departamento de Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSC, tendo concluído recentemente período pós-doutoral nos Estados Unidos.

Beatriz Caiuby Labate formou-se em Ciências Sociais pela Unicamp em 1996. Em 2000, obteve o título de Mestre em Antropologia Social pela mesma universidade. Sua dissertação recebeu o Prêmio de Melhor Tese de Mestrado em Ciências Sociais do Brasil em 2000, da ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais). É Doutoranda em Antropologia Social pela Unicamp, onde pesquisa a internacionalização do vegetalismo ayahuasqueiro peruano. É co-organizadora dos livros O uso ritual da ayahuasca (Mercado de Letras 2004) e O uso ritual das plantas de poder (Mercado de Letras, 2005) e autora do livro A reinvenção do uso da ayahuasca nos centros urbanos (Mercado de Letras, 2004). É uma das pesquisadoras fundadoras do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP) e editora de seu site (www.neip.info) desde setembro de 2004. Em fevereiro de 2005, fundou o Alto das Estrelas (alto-das-estrelas.blogspot.com), um instituto privado localizado na Pedra Branca, Caldas (MG), que promove pesquisa antropológica, intercâmbio entre pesquisadores, palestras, congressos e eventos, além de pesquisar o cultivo e o preparo de espécies vegetais.

Luis Fernando Milanez é professor titular da Universidade Estadual de Campinas desde 1990, onde iniciou como docente em 1974, lecionando na Engenharia Mecânica e Coordenador da Comissão Científica do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal.

Oscar Calavia Saez possui graduação em Geografía e Historia pela Universidad Complutense de Madrid (1986), mestrado em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (1991), doutorado em Ciência Social (Antropologia Social) pela Universidade de São Paulo (1995) e pós-doutorado pela Centre National de la Recherche Scientifique (Centro Nacional de Pesquisa Científica) (França) (2003) . Atualmente é Professor Adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina. É autor de cinco livros, entre eles “O nome e o tempo dos Yaminawa. Etnologia e história dos Yaminawa do Alto Acre”, publicado pela editora da USP (2006) e “Las formas locales de la vida religiosa. Antropología e historia de los santuarios de La Rioja”, publicado em Madri (2002) e organizador de três obras. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Etnologia Indígena, atuando principalmente nos seguintes temas: Etnohistoria, Pano, Yaminawa.

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