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A entrevista que vamos publicar nesta edição com o Mestre Augusto Jerônimo da Silva popularmente conhecido como Augusto Queixada, foi gravada no dia 30 de outubro, com o objetivo de sabermos sobre a história da toada de boi bumbá em Porto Velho, uma vez, que juntamente com os amos Carlos Mariano, Aluízio Guedes e Silvio Santos, Augusto havia sido convidado pela coordenação do III NEER para participar da “Meia Lua de Boi” que aconteceu no Mercado Cultural no dia 4 de novembro. Durante a entrevista na redação do Diário da Amazônia, Augusto cantou uma série de toadas de sua autoria e de outros Amos que brincaram boi em Porto Velho nas décadas de 1940/50 e 1960 como Cabo Fumaça, Galego, Luiz Amaral, Sipitiba, Zé Luiz e outros.
Acontece, que durante nossa conversa, procuramos saber de uma outra atividade vivida pelo Augusto que é a sua história enquanto Mestre da União do Vegetal.
Por sugestão do nosso editor Guarim Liberato Jr., editamos a parte da entrevista, na qual Augusto fala sobre a história do seu encontro com o Mestre Gabriel e de como ele também se tornou Mestre da União do Vegetal criando seu próprio núcleo ou associação. “Tenho muita consideração ao Mestre Gabriel pois foi ele que me ensinou os preceitos da União do Vegetal”. Aos 76 anos de idade pai (segundo ele), de 62 filhos, Augusto cumpre pena em prisão domiciliar por um fato acontecido há alguns anos. “Só agora após 17 anos fui levado a júri e estou pagando pelo que fiz”.
Questionado sobre o apelido Queixada, explica: “Queixada na realidade, era o apelido do meu irmão Joaquim que quando era guarda territorial participou de uma caçada e matou um bocado de Porco Queixada e então o pessoal botou o apelido de Joaquim das Queixadas. Quando eu ia atrás dele na guarda, sempre diziam: “É o Augusto irmão do Queixada, com o tempo, ficou Augusto Queixada”. Cearense filho de pai e mãe curandeiros “Meu pai e minha mãe eram rezadores e faziam garrafadas”. Augusto diz que cura qualquer doença através de garrafadas. “Desde que a pessoa tenha fé em Deus”. Quanto a Hoasca fomos pesquisar no site da União do Vegetal criada pelo Mestre Gabriel e encontramos o seguinte:
“O chá Hoasca (Ayahuasca, “vinho da alma” em quéchua), que também chamamos de Vegetal, é resultado da decocção de duas plantas: um cipó, o Mariri (Banisteriopsis caapi) e as folhas de um arbusto, a Chacrona (Psychotria viridis), largamente utilizado há muitos séculos pelas comunidades amazônicas e povos andinos em rituais religiosos e de cura. O Mestre Gabriel já afirmava nos primeiros documentos do Centro assinados por ele que o “Vegetal que chamamos de Hoasca” é “comprovadamente inofensivo à saúde”, consciente de que a comunhão desse chá era benéfica à transformação da consciência humana, quando bem orientada”.
Vamos às historias do Mestre Augusto Jerônimo da Silva o Augusto Queixada

ENTREVISTA

Zk – Sabemos que o senhor é considerado Mestre da União do Vegetal. Na realidade quando foi o seu primeiro contato com Ayahuasca ou Vegetal como é mais conhecido o chá feito com a folha da Chacrona e do cipó Mariri?
Augusto Jerônimo – Acharia bom que você tirasse uma hora para a gente falar sobre esse assunto. No momento não estou preparado para falar sobre essa história, mas, eu conto todinha. Vamos marcar um dia para gente conversar sobre a história do Vegetal!

Zk – Como foi que o senhor conheceu o Mestre Gabriel?
Augusto Jerônimo – Foi o seguinte: Conheci o Mestre Gabriel durante nossa viagem do nordeste para a Amazônia no navio chamado Para isso em 1943. O Mestre Gabriel vinha da Bahia e em Fortaleza Ceará minha família, meu pai minha mãe, meus irmãos embarcou já que estávamos alistados como soldado da Borracha. Naquela época eu estava com 11 anos e o Mestre Gabriel que ainda não era Mestre tinha 22 anos.

Zk – Como foi que um menino conseguiu manter contato com uma pessoa mais velha que nem conhecia?
Augusto Jerônimo – Durante a viagem, eu era menino travesso mesmo, subi pela beirada do navio e fui bater lá no toldo, o dia vinha amanhecendo. Quando cheguei no toldo vi aquele homem sentado em cima de uma Jangada.

Zk – Jangada?
Augusto Jerônimo – É! Em cima do navio tinha uma jangada para socorrer os passageiros caso o navio afundasse. Bem! Lá estava aquele senhor sentado e eu dei bom dia e como não sabia seu nome chamei de Mestre. Bom dia Mestre! Ele olhou pra mim e mandou eu sentar. Durante nossa conversa ele perguntou quem era meu pai e minha mãe. Respondi que eles estavam no compartimento de baixo perto do porão do navio. Ele pediu para conhecê-los e eu o levei até lá. Isso na viagem de Fortaleza pro Maranhão.

Zk – É verdade que Gabriel gostava de Umbanda?
Augusto Jerônimo – Pois então, ele ficou conversando com minha mãe e na conversa disse que gostava de trabalhar na macumba na Bahia.

Zk – E a amizade entre vocês?
Augusto Jerônimo – Acontece que quando o navio chegou ao Maranhão passou 11 dias na boca da barra esperando a maré subir o suficiente para poder navegar. Quando chegamos a Belém (PA) tinha uma pousada chamada São Geraldo que era onde ficavam os arigós que vinham do nordeste como soldado da Borracha. Então o Mestre Gabriel soube de um terreiro de Umbanda que ficava na Pedreira e pediu da minha mãe que deixasse eu ir com ele. Vale salientar que sabia bater tambor. No batuque da Pedreira comecei a bater tambor pra ele. Foi assim que nasceu nossa amizade.

Zk – E em Porto Velho?
Augusto Jerônimo – Em Porto Velho ele foi pra Guarda Territorial, trabalhou como enfermeiro no Hospital São José e depois foi pro seringal em Jacy Paraná e nesse seringal eu também fui trabalhar. O gerente do seringal era o João de Sá Nobre. Minha mãe foi dono do Hotel em Jacy. Foi justamente nesse seringal que ele começou a procurar o cipó Mariri.

Zk – E o senhor entra como nessa história do cipó?
Augusto Jerônimo – Acontece que ele chegou comigo e disse: “Qualquer cipó que você encontrar na mata traga pra mim”. Assim eu fazia, ele morava a duas horas e meia da nossa colocação.

Zk – A sua colocação tinha nome?
Augusto Jerônimo – A nossa colocação se chamava Abismo e a dele Mina de Ouro. Depois de muito procurar o cipó e não encontrar, ele me chamou e disse agora você procura uma planta parecida com Café. Certo dia eu na curiosidade para saber o que ele queria com uma planta parecida com café e um cipó, fui e fiz a seguinte pergunta: Mestre Gabriel o senhor sabe que planta é essa. O senhor conhece a planta?

Zk – E ele?
Augusto Jerônimo – Ele respondeu, não conheço, mas, se pegar na minha mão vou saber que é ela. Um dia ele resolveu voltar para Porto Velho e me disse, se eu encontrar o cipó e a planta que estou procurando trago pra você conhecer.

Zk – Ele chegou a falar onde iria procurar a planta?
Augusto Jerônimo – Ele me disse que ia pra Bolívia.

Zk – E quando o senhor veio também para Porto Velho, foi fazer o que?
Augusto Jerônimo – Entre tantas coisas, batia tambor no batuque de Santa Bárbara da Mãe Esperança e no batuque “Samburucu” da Mãe Chica Macaxeira. Aliás, a Mãe Esperança e a Chica Macaxeira estavam entre as primeiras pessoas que beberam o Chá em Porto Velho quando ninguém nem sabia o que era.

Zk – E o Mestre Gabriel?
Augusto Jerônimo – Ele foi embora no rumo da Bolívia e demorou uns 10 anos para a gente se encontrar de novo. Nessas alturas, em 1958, virei artista de circo.

Zk – Qual era o circo?
Augusto Jerônimo – Fui dono do circo Twist Circo Show e trabalhei também no Roque Circo e no Circo Panamericano.

Zk – Andou por aonde trabalhando em circo?
Augusto Jerônimo – Saí por esse mundo afora, pulando que nem macaco no trapézio, corda bamba, fui palhaço e também motoqueiro do globo da morte. Foi justamente por causa do globo da morte que voltei a encontrar com o Mestre Gabriel depois de muitos anos.

Zk – O senhor tava dentro do globo na hora que o bicho quebrou?
Augusto Jerônimo – Não! Mas, durante uma apresentação em Brasiléia no Acre caí e quebrei a cabeça e foi também em Brasiléia que o globo quebrou.

Zk – E o que o globo da morte tem a ver com seu reencontro com o Mestre Gabriel?
Augusto Jerônimo – Fui a Rio Branco comprar a peça do globo que havia quebrado. Fazia 10 anos que eu não via o Mestre Gabriel. Fiquei hospedado no melhor hotel de Rio Branco, afinal de contas, era um empresário dono de circo. Foi então que vi andando pelos corredores do hotel aquele homem, cheguei e disse: Bom dia Mestre o que o senhor está fazendo aqui? Ele me respondeu: “To esperando você” – Como esperando, se faz 10 anos que a gente não se vê.

Zk – Como foi a conversa entre vocês durante esse reencontro?
Augusto Jerônimo – Eu sabia que você vinha encontrar comigo aqui disse ele. E prosseguindo ele disse, – Nós vamos pra Porto Velho agora. – Não Mestre, tenho que levar a peça do globo da morte do meu circo que está armado lá em Brasiléia. Ele falou – Lembra que eu disse pra você que quando encontrasse a planta e o cipó para fazer o chá eu iria contar pra você? – Lembro – Pois estou levando 10 litros aí pra nós – Se é uma ordem sua!

Zk – E ao desembarcar no aeroporto do Caiari já em Porto Velho?
Augusto Jerônimo – Ele me disse: Vá e convoque todos os macumbeiros de Porto Velho para beber o “Vegetal”.

Zk – Aonde foi que beberam o Vegetal pela primeira vez em Porto Velho?
Augusto Jerônimo – O Cláudio Carvalho que era homem forte dentro do governo do Território cedeu uma fazenda que ele tinha ali perto onde está o prédio do Fórum Cívil na rua Lauro Sodré que naquele tempo a gente chamava de Estrada dos Tanques.

Zk – O senhor lembra quem estava na reunião?
Augusto Jerônimo – Lá estava a Chica Macaxeira, Mãe Esperança, Paixão, Eu, finado Hilton, Luiz Lopes, a Margarida e o marido dela e outros que não lembro o nome agora. Sei que juntou umas quarenta pessoas.

Zk – E a chamada borracheira?
Augusto Jerônimo – Ninguém sabia qual o efeito que o Vegetal iria provocar a não ser o Mestre Gabriel os demais eram todos marinheiros de primeira viagem. Só que na minha borracheira eu tive uma recordação de uma encarnação minha.

Zk – Nessa encarnação o senhor era o que?
Augusto Jerônimo – Eu era toureiro na Espanha e fui morto durante uma tourada, o chifre do boi pegou na minha barriga que varou do outro lado e então veio uma música naquele momento cuja letra é: “Foi numa tourada, lá na Espanha, um toureiro de valor, que triste hora, depois da hora marcada, que atrapalhada o toureiro não chegou, me apontaram como seu substituto, fui aplaudido pela aquela multidão, e o touro com sua ponta afiada, senti uma pancada dentro do meu coração, saltei de banda cai dentro do poleiro, eu mato o cabra que disse que sou toureiro. Eu morri naquela hora. A história tem mais fundamento, é porque tô contando ela pela metade. Depois ainda bebemos outras vezes e fomos embora pro Acre.

Zk – E daí pra frente ficaram juntos?
Augusto Jerônimo – Quando chegamos em Rio Branco ele embarcou para Vila Plácido de Castro e eu para Brasiléia onde estava meu circo esperando pela peça dó globo da morte. Na despedida ele disse:

Zk – O que?
Augusto Jerônimo – Vou instalar junto com você uma sociedade em Porto Velho e eu respondi: Sim Senhor!

Zk – Quer dizer que o senhor junto com o Mestre Gabriel criou a União do Vegetal em Porto Velho?
Augusto Jerônimo – Não! Vou contar a verdade! Vendi o Circo e já estava em outras atividades em Porto Velho, isso em 1960/1961 foi quando o Mestre veio criar a União do Vegetal aqui eu estava cumprindo pena na Colônia Penal de um caso que aconteceu comigo que não gosto de lembrar. Ele foi lá na Penal comigo e disse que ia montar a União do Vegetal. Eu não participei da criação da Associação. Em junho de 1961 fui absolvido e então fui para União, bebo o chá desde 1958 até hoje.

Zk – É verdade que o senhor também sabe a maneira de curar uma série de doenças?
Augusto Jerônimo – Eu curo qualquer doença desde que a pessoa tenha confiança em Deus. Trabalho com garrafa, sei rezar pra quebranto, espinhela caída e tantos outros males.

Zk – Aprendeu a fazer garrafada com quem?
Augusto Jerônimo – Aprendi tudo isso trabalhando na macumba. Aliás, na macumba eu era da “pesada” mesmo, da chamada magia negra. Quando entrei para União do Vegetal parei com a macumba, mas tem o seguinte, não mexa comigo que sei mexer com os pauzinhos também. (sorrindo).

Zk – O senhor ainda tem aquela casa aonde as pessoas iam em busca da cura do câncer. O Vegetal cura câncer?
Augusto Jerônimo – O Vegetal cura qualquer doença que você sentir no seu corpo desde que a pessoa tenha confiança em Deus. Agora, tem umas coisas que a gente precisa conversar muito a respeito.

Zk – Da para adiantar alguma coisa a respeito desse assunto?
Augusto Jerônimo – Acontece que o pessoal fala muito em Deus, mas, Deus não é do jeito que o pessoal fala não, é muito diferente! Eu fui crente, adventista do sétimo dia, pentecostal, fui da Assembléia de Deus, fundei igreja de crente, feiticeiro da magia negra, rosa cruz, isoterista e de todas elas, se a União do Vegetal não existisse eu seria Isoterista, foi a única na qual encontrei alguma coisa boa. Se eu fosse um dia ser evangélico seria Maranata.

Zk – Por que Maranata?
Augusto Jerônimo – Porque a pessoa que fundou essa igreja bebeu Vegetal durante 35 anos e o lema dela é a mesma coisa da União do Vegetal.

Zk – Qual a diferença da União do Vegetal para o Daime?
Augusto Jerônimo – O Daime foi implantado pelo senhor Irineu e o Vegetal pelo Mestre Gabriel. O Daime mistura alguma coisa dentro da bebida e o Vegetal é só as duas plantas.

Zk – O que quer dizer Mariri e Chacrona?
Augusto Jerônimo – Mariri (cipó) significa Marechal a Chacrona (folha) significa Rainha.

Zk – O que o Rei Salomão tem a ver com a União do Vegetal?
Augusto Jerônimo – Justamente, Salomão pelo seu conhecimento e sabedoria foi quem criou a União do Vegetal. No tempo do Rei Carlos Magno o nome era “Balsamo da Vida”, tudo indica que Jesus bebeu o Vegetal. Essa história vem do Império Inca, mas, não é o Império Inca do peru não. Aí a pessoa pergunta assim pra mim: Mestre Augusto como é que o senhor sabe dessa história toda?

Zk – Sim, por que?
Augusto Jerônimo – Sou fruto de 33 reencarnações. Sei quem eu era nas encarnações passadas.
Zk – Aonde o senhor reúne os seguidores para beber o chá?
Augusto Jerônimo – A sede geral é lá perto do hospital João Paulo II no bairro Nova Floresta, porém temos cinco núcleos em funcionamento onde sempre estou ministrando os ensinamentos; O núcleo para iniciantes funciona no bairro Mariana. Tem o Hospital Rosa Luz onde já tratei mais de 600 pessoas do vicio da maconha, cocaína do álcool e outras drogas, ta fechado agora por falta de apoio dos governantes.

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