Ana Vitória Vieira Monteiro (*)

Palestra apresentada dia 17 de março de 2005. Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo. Organização Léo Artése/ Associação Lua Cheia – Pax, São Paulo, 13 a 20 de março de 2005 (**).

Para quem não me conhece, meu nome é Ana Vitória Vieira Monteiro, sou dramaturga e dirijo a Porta do Sol, Centro de Estudos Xamânicos da Expansão da Consciência, que está em atividade há oito anos em São Paulo.

Vamos “refletir” esta tarde sobre a arte e a ayahuasca. O trabalho de estudo e pesquisa envolvendo a ayahuasca é recente, no entanto a arte do conhecimento transcendental, ou seja, a “arte do êxtase”, é antiga.

Atualmente, temos ouvido muito sobre xamanismo, mas o que de fato sabemos sobre xamanismo, pajelança, artes arcaicas do êxtase é ainda pouco. Resgatar a nossa história nativa e suas influências sobre os nossos costumes urbanos atuais é uma tarefa muito grande.

O xamanismo baseado na ayahuasca é um fenômeno indígena e pertence às tribos indígenas da Amazônia Ocidental que guardam as chaves de um caminho para um conhecimento que vêm sendo praticado, sem interrupção, pelo menos ao longo de 5000 anos. Já no meio urbano o interesse por esse tipo de saber é recente, manifestando-se, creio, apenas a cerca de um século.

No entanto, nos últimos tempos tem surgido uma curiosidade cada vez mais crescente sobre os segredos nativos da cura do corpo e do espírito, além do legítimo direito que temos de saber quem somos e qual é a nossa raiz.

O brasileiro está tendo uma formidável mudança de comportamento. Ao mesmo tempo em que estuda sobre os filósofos e pensadores europeus começa a se voltar para o saber ancestral dos nativos da floresta, surgindo um novo fenômeno, sem precedentes na história, que é justamente o xamanismo urbano, com ou sem Plantas de Poder.

Creio que concordamos que vivemos um momento de transição, onde a velha era morre e a nova ainda está surgindo. Tudo a nossa volta prova isto: mudamos os costumes na educação, religião, tecnologia e em quase todos os outros aspectos da vida moderna.

O mundo mudou, aliás, neste ano de 2005, mudou até mesmo na sua forma. Assim, os cientistas Benjamin Fong Chao e Richard Gross, da Nasa, usaram dados de um centro de pesquisa da Universidade de Harvard e concluíram que o achatamento da Terra diminuiu uma parte em 10 bilhões. A rotação do planeta foi afetada, os dias ficaram menores e o Pólo Norte mudou de lugar por 2,5 centímetros na direção 145 graus leste.Os dias, segundo os cientistas, ficaram 2,68 microssegundos mais curtos.

A rotação do planeta foi sendo afetada. Nós também somos afetados. Vivemos momentos especiais e únicos na história do mundo. Num mundo tão diversificado como o nosso, em que tudo acontece ao mesmo tempo e em todos os lugares, assistimos qualquer guerra pela televisão em tempo real. Falamos com qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, em tempo real.

Vivemos num mundo de mil oportunidades e estamos na primavera de uma “busca espiritual” que toma, de momento, o aspecto de uma gigantesca efervescência, arrastando as jovens gerações numa espécie de “corrida à mutação”, corrida, por vezes, um pouco febril e que testemunha, em todos os espíritos, uma consciência aguda de que “já não há tempo a perder” se quisermos evitar, individual ou coletivamente, sermos apanhados na “armadilha” de valores materiais liquescentes.

Os seres humanos estão cada vez mais comprometidos com uma busca interior e sentem, confusamente, que já não é tempo de hesitar, mas, ao contrário, que devemos todos tomar partido, porque a nossa própria evolução pessoal condicionará a evolução deste planeta, uma estando intrinsecamente ligada à outra. Daí o caráter de urgência emanado da efervescência atual. Trata-se de uma espécie de sensação generalizada de que se está aqui para se preparar algo. Mas o quê exatamente seria esse algo?

A situação presente desemboca numa encruzilhada, oferecendo toda uma gama de pistas possíveis no sentido de um mesmo, mas longínquo destino. É o labirinto das múltiplas práticas e doutrinas de “evolução” que pululam nas nossas praças públicas, cheias de “spas” espirituais.

Para superar e sintetizar a multiplicidade é necessário conhecê-la bem. A arte do êxtase nos leva à expansão da consciência, quando a nossa mente transcende os limites do espaço, do tempo e da causalidade linear. Expandir a consciência é, pelos seus objetivos e resultados, uma expressão muito ampla, pois não há perda da consciência nem descontrole, mas, ao contrário, há um aumento de percepção dos sentidos, provocando a ativação da cadeia de neurônios.

A consciência que o ser humano tem de si mesmo apenas se expande, se alarga, abrangendo outras dimensões, enquanto consciência individual e coletiva. Sem perda da identidade própria, a pessoa sente que é, simultaneamente, alguém ou algo mais e que está em outro lugar, pois é a consciência que transcende os limites do espaço, do tempo e da causalidade linear. De uma certa maneira, estando à consciência em expansão, o ser humano, durante um período, transcende o tempo linear, mergulhando num universo governado pela harmonia. Nesse instante ele vive experiências que desafiam o paradigma científico existente e o chamado “bom senso” defendido pela nossa mente racional.

No nosso centro, Porta do Sol, a expansão da consciência ocorre em conseqüência de uma decisão consciente de cada participante. Ela seguramente leva a uma evolução espiritual e a um despertar dos potenciais inconscientes, tais como habilidades, conhecimentos e sabedoria que toda pessoa possui. Os princípios que norteiam a “inteligência” deste vegetal (i.e, a ayahuasca) estão fundamentados na crença de que há um conhecimento que ultrapassa todo o saber humano comum e é inacessível às pessoas em geral, mas que existe em algum lugar de nosso ser. Buscamos na arte do êxtase a experiência do encontro com o inconsciente transcendental, para alcançar o estado elevado de união das mil camadas da consciência, onde a religiosidade está presente. Assim, acabamos aceitando de forma indiscutível que existe uma vida depois da vida, e que Deus é Um e que Tempo é Arte.

Ayahuasca é uma palavra de origem quíchua, que provém da época Incaica, e alguns dos seus possíveis significados são “vinho dos espíritos”, “vinho da morte”, “vinho da alma” ou “chicote de Deus”. Um antigo objeto relacionado ao uso da ayahuasca é uma taça cerimonial esculpida em pedra, com ornamentação gravada, originária do sítio arqueológico da Cultura de Pastaza da Amazônia Equatoriana — que floresceu entre 500 a.C. e 50 d.C—pertencente à coleção do Museu Etnológico da Universidade Central de Quito. Portanto, temos aqui um indício de que a ayahuasca era conhecida há pelo menos 2.500 anos atrás. Já sua antiguidade na região da Baixa Amazônia é provavelmente muito maior.

De certo modo, também, a ayahuasca está ligada aos primórdios da história do Brasil e de sua descoberta pelos europeus. Assim, o padre José de Anchieta, fundador da Cidade de São Paulo, já citava a ayahuasca como uma planta usada pelos nativos da terra e, em 1616, a Santa Inquisição condenou seu uso formalmente. Aliás, a história do Brasil está cheia de relatos e estudos sobre esse assunto desde o século XVI.

Em 1931, a Dimetiltriptamina (DMT) é sintetizada e identificada como um dos principais alcalóides da bebida ayahuasca. Podemos dizer que a ayahuasca, no século XXI, consiste no mais avançado e democrático sistema de autoconhecimento capaz de possibilitar o acesso às verdades mais secretas. É por isso, aliás, que ela persiste nas mais ocultas das sociedades secretas de todos os tempos. Porém, devemos lembrar sempre que os nativos da floresta amazônica usam a ayahuasca ou yajé — ou qualquer um dos outros nomes que esta planta já tenha recebido — e a cultuam muito antes que a civilização européia viesse a ser o que é hoje.

Em 1918, Raimundo Irineu Serra, que ficou conhecido como o Mestre Irineu, iniciava uma NOVA ERA para a ayahuasca, mudando seu nome para “Daime Santo”. O Mestre Irineu, entre outras coisas, quebrou a tradição machista de uso da ayahuasca, abrindo o rito para as mulheres e até para os loucos, e organizando um hinário (i.e um conjunto de hinos musicais recebidos sob inspiração divina e influenciados pelo consumo do próprio chá) em português, com ensinamentos acessíveis a todos. Posteriormente, surgem outras organizações, que floresceram e se espalharam pelo mundo iniciando o povo brasileiro ma arte do êxtase. A iniciação pode ser considerada um novo começo, a transformação para uma nova forma de ser.

Todos que participaram do Encontro de Xamanismo se interessam pelas coisas do espírito, e acredito que já tiveram suas experiências transcendentais. O transe altera a nossa percepção da realidade comum, passamos a observar, estando no mesmo lugar, mais coisas que estão contidas neste mesmo lugar e as coisas relacionadas com elas, que se multiplicam em forma de rede, desdobrando-se em inúmeras dimensões, até focarem em algum fator determinado. Sem sair do lugar transforma-se em ir a algum lugar que não é um lugar visível e eterno.

É uma busca, que pode ser “controlada” ou seja, direcionada, ou não, ao contrário, pois se deixarmos acontecer o nosso coração vai sempre nos levar para o lugar onde as nossas necessidades serão satisfeitas. O artista difere do comum porque foca, direciona, determina o que deseja e, ao voltar ao seu lugar comum, consegue transformar em algum tipo de arte o universo que se descortinou diante de seus olhos, além de repetir várias vezes o seu primeiro feito artístico, ou seja, ele consegue reter a energia inspiradora, materializá-la e apresentá-la ao público. O homem comum não consegue fazer isto.

O sentido da arte designada para o conhecimento oculto nos primórdios dos tempos é típico destes, quando sacerdotes “recebiam” seus cantos e poemas, que seriam as primeiras letras escritas, as mandalas, signos desenhados do zodíaco, leis que iriam inspirar o mundo. Os iniciados pintaram imagens de SHIVA, do TAO, dos ORIXÁS, dos DEVAS e NINFAS, de CRISTO, do céu e do inferno; os bailarinos sagrados, os desenhos, pinturas e esculturas dos templos de todas as religiões domesticando, assim, os ímpetos primitivos do bárbaro, humanizando–os. Tudo isso hoje faz parte de nosso imaginário. É oportuno, também, mencionar os escribas, que redigiram pacientemente os livros sagrados, e os famosos narradores de histórias de todas as tradições orais. Atualmente, graças a eles, ainda estamos coletando o saber. Tudo é arte. A arte que designa um saber, que se opõe à rotina. A arte na qual repousam as experiências, a intuição. A arte gerada no enigma da criatividade que fascina a humanidade alargando nossos horizontes.

Porque uma idéia salta do inconsciente num determinado momento? Por que? Primeiro a arte “pede” liberdade. Além da liberdade precisamos nos libertar, transcender a realidade conhecida, isto é, o passado e os seus valores e crenças. Ter liberdade mental, liberdade de espírito, estarmos dispostos a entrar em crise de identidade cíclica ou perpétua, ver balançar os valores que garantem a sobrevivência, a autoconfiança do saber que sabe e, simultaneamente, se libertar do conhecido e enfrentar o desconhecido sem nenhuma garantia de nada. Liberdade para poder, por si mesmo, descobrir o que precisa ser dito aos outros. É isto que a ayahuasca faculta, o saber e a convicção do que se sabe, ou seja, tornar o ser humano auto-orientado, automotivado, indo além de cada situação apresentada, tendo fluência de idéias, flexibilidade de pensamento, originalidade e capacidade de inovar e criar.

Nós desejamos nos autoconhecer porque não queremos mais estar inconscientes diante de nossas vidas externas e internas, pois queremos descobrir o significado da vida e do universo, ou a “realidade última” que não é exprimível por palavras e sim por símbolos, tais como Nirvana e outros similares, os quais até os iluminados se recusam a definir, insistindo que todos deveriam passar, por si mesmos, por essa experiência. Assim, o significado de nossa existência e do universo não se encontra em nenhum lugar fora de nós mesmos e sim no fundo da nossa própria consciência.

Ao consumirmos uma Planta de Poder que é de uso religioso de longa e ininterrupta data, e que pajés, xamãs e sacerdotes utilizam com o propósito de provocar transe, objetivando a revelação e informação – isto é, a ayahuasca como sacramento – estamos trabalhando para nosso próprio autoconhecimento. Estamos trabalhando para que o Reino do Saber esteja ao alcance de Todos os Seres. Não estamos apenas preocupados com a nossa própria salvação, mas com Todos, coletivamente, superando Todas as estreitas limitações individuais e reconhecendo Todas as realidades supra-individuais dentro de nossa própria mente, o que requer uma atitude bastante “universal”, pois não é possível deixar de “influenciar”, por meio da vibração silenciosa, o universo em que vivemos.

Descortinando o passado e o futuro, a infinidade do Tempo torna-se presente imediato, através do sentido de Unidade interna e Unidade externa, da transcendência do Tempo e do Espaço, da Alegria, da Bem-aventurança e da Paz, da Objetividade e da Realidade do insight, num nível intuitivo e não-racional obtido pela experiência direta que provoca mudanças Positivas na Atitude e no Comportamento.

Tudo isto sem se perder, sem se apegar a idéias ou valores de outras pessoas, o que simplesmente significa uma consciência que possui a capacidade de Saber que é autoconsciente e, de um ponto de vista metafísico, a essência da consciência, definida pela consciência limitada da forma humana. Muito embora o desafio seja para o individuo definir as suas próprias Leis, crenças, valores e identidade, a reação mais comum é a definição de si mesmo, a auto-experimentação, refletir a natureza da época em que se está vivendo.

E o que estamos vivendo, que época é esta? O que como artistas estamos projetando no Mundo? Que realidade nossas mentes criativas estão efetuando com a Arte? Transcenderemos nossos próprios limites na nossa vida? Venceremos o medo indefinido de perder o Controle, da dissolução egocêntrica, de ser consumido pelos pensamentos ou imagens, que surgem aparentemente de nossas próprias consciências? A sensação de “ficar pirado” favorece ou não?

O inconsciente apresenta duas dimensões em todos nós, a coletiva e a individual. Abalar e alterar radicalmente os processos de pensamento, trazer novas idéias e apresentá-las ao mundo como uma poesia, uma música, uma nova descoberta cientifica ou não, seja o que for, é Arte. Tanto o cientista, quanto o pensador, o músico, o pintor, o poeta tiveram que mexer com seus medos, precisaram transcender seus limites e vencer a si mesmos.

Senhores e senhoras, agradeço a oportunidade de poder estar aqui com vocês, “pensando” sobre este importante tema que é “A ARTE e a AYAHUASCA” ou a “AYAHUASCA e a ARTE”, a ordem não altera o resultado. Venho me envolvendo com a Arte há muito tempo e o mesmo se pode dizer de meus envolvimentos com a Ayahuasca.

Depois deste breve relato sobre o processo de expansão da Consciência, estamos todos chegando à conclusão de que alguém que toma este Chá torna-se automaticamente mais inteligente, pois os neurônios são ativados etc… certo? CERTO!

Isto é bom? É e não é. Por que? Porque mais e mais pessoas estão ampliando seus horizontes, e a sociedade não está preparada para estes novos seres humanos, mais sensíveis, telepatas e criativos, sem que este Saber tenha que passar pelo crivo de mérito e demérito de qualquer pessoa, sem Julgamento.

Não basta aproveitar ao máximo a habilidade superior específica, mas é preciso ainda desenvolver, nos indivíduos que a possuem, traços desejáveis de personalidade e ética, espíritos de civilidade e de liderança. É desta maneira que este Saber Livre vira religião, e no momento em que este mesmo Saber começa a se enquadrar nos princípios filosóficos de qualquer Saber anteriormente determinado, ou seja, quando temos as Iniciações doutrinárias, o Saber Livre passa a se transformar numa Força Política, no sentido de que todo ser humano é um ser socialmente político. É por isso que em qualquer regime político de repressão os primeiros a serem perseguidos são os sacerdotes e os artistas, que influenciam e são formadores de opinião pública. É assim, por exemplo, que na Idade Média este tipo de conhecimento se tornou secreto, justamente para ser preservado. Como os alquimistas fizeram isto?

Transformaram palavras em desenhos, em Arte e em arquitetura e nos tempos modernos em literatura de ficção, em histórias contadas no cinema, que relatam tão bem o que está por vir. Julio Verne descreveu o submarino antes mesmo de ele existir, e ele era o quê? Um Artista!

A realização deste Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo é uma prova mais do que cabal desta afirmação. Quando xamãs, ou seja, pensadores se reúnem para trocar idéias e se organizarem, estão trazendo a semente de um pensamento novo, para uma Nova Era que se inicia. As Artes tem sido a ponta de lança de todos os movimentos do Novo em todas as épocas, seja a dança, a pintura ou o canto, e são estas justamente as Artes praticadas no xamanismo mundial, com ou sem a presença de uma Planta de Poder — como é o caso da ayahuasca, que além de ser uma Planta de Poder é uma Planta Mestra. Mestra porque, além de inspirar, ela ensina e orienta.

O potencial que brota de dentro de todos aqueles que passam por esta experiência é algo notável, fazendo com que possamos nos tornar fonte de muitos conhecimentos e uma referência aos que estão a nossa volta. Isto exige uma nova postura na educação, voltada para o desenvolvimento do que existe de melhor. O ser humano tem demonstrado uma sede quase insaciável de novidade nas Artes, ciências e, conseqüentemente, tem encorajado e celebrizado os mais Criativos. Por outro lado, ele tem manifestado um desejo tenaz de permanecer culturalmente conservador, olhando o outro que tem Idéias com desconfiança e desprezo. Diante disto, não podemos negligenciar a educação, e não falo somente da educação escolar e acadêmica, mas da educação espiritual. Pois, a negligência, neste caso, impediria que toda uma população de homens e mulheres (desde crianças até os mais avançados em idade), enfim, todos aqueles que estão dedicando suas vidas ao movimento de ampliar suas mentes, essa parcela da humanidade que ainda é minoritária, pudesse contribuir para o bem de toda a coletividade.

Dito de outro modo, devemos evitar que essa parcela da humanidade tenha um papel marginal. Não podemos deixar que as pressões afetivas, ou de outros tipos, venham tolher a realização Criativa da Arte, ou seja, dos Artistas, sejam eles artistas voltados para o sagrado ou para o mundano, já que, na verdade, tudo é mundano, pois este planeta é um planeta de transitoriedade, de passagem, onde tudo é uma ilusão e a Morte é certa a Todos.

O que fica depois que o Corpo se acaba? Esta é uma importante reflexão para a Vida que é feita de Vida, pois tudo é vida, e mesmo quando pensamos não termos mais vidas estamos ainda Vivendo, aqui ou em outra dimensão. Assim, o que se amplia, neste momento histórico da humanidade, é a consciência da definição do que seja a Vida. Estamos ultrapassando e indo além das definições antes conhecidas e estabelecidas.

Juntemos a todo este quadro as para-normalidades e as mediunidades que agora atingem a todos. Percebemos, então, que se trata realmente de um mundo novo, que se descortina exigindo de nós maior entendimento. Trata-se de uma Verdadeira Auto-iniciação. “Uma iniciação é como uma seqüência progressiva de impactos direcionados de energia”. Do ponto de vista esotérico, a iniciação implica uma transformação permanente nos campos de energia dos corpos sutis. É importante entender que a iniciação não envolve aprendizado intelectual, é uma mudança permanente de estrutura e, portanto, no ser, com um todo. Do ponto de vista esotérico, cada um de nós está envolvido por uma seqüência de campos de energia alinhados. Quando se usa a ayahuasca estas palavras são verdadeiras, e não apenas uma promessa. O que era privilégio de poucos está agora à disposição de Todos, ou ao menos de todos aqueles que engrossam as fileiras de milhares de pessoas automotivadas no mundo inteiro.

Porém, voltemos à questão do “porque uma idéia salta do inconsciente num determinado momento? A idéia é uma mensagem que implica e simboliza o futuro que está por vir, será manifestação das próprias dimensões inconscientes individuais. Manifestações destas dimensões inconscientes e individualizadas, as mensagens, idéias, passarão do lado direito do cérebro para o esquerdo. Portanto, sobre essas mensagens, idéias, ou sinais que parecem se manifestar por vontade própria não temos controle algum e se não registrarmos a idéia ou mensagem vamos perdê-la, e nunca mais iremos saber exatamente que idéia realmente veio à nossa mente. Os poetas, os compositores ou atores aqui presentes podem confirmar o que eu digo.

Eu mesma, ao escrever o texto sobre Chico Mendes e o Encantado, tive uma experiência incrível. Depois de ficar pesquisando meses sobre o nosso notável herói nacional, comecei finalmente a escrever. Terminado o texto, um amigo me pediu para lê-lo, e quando fui ao computador notei que este estava apagado, simplesmente nada havia. Claro que me desesperei e não tive dúvidas, abri um novo arquivo e comecei a escrever tudo de novo. No fim de algumas horas, tinha uma nova peça, mas bastante diferente da anterior, pronta, perfeita, sem retoques, com magia. É isto que nós chamamos de inspiração, são os segredos ocultos, agora revelados, que não acontecem sem que nada ocorra antes. São todos frutos de uma experiência comum: o afloramento de idéias novas vindas das profundezas do nosso íntimo, da consciência, que longe de ser invalidada com o uso de uma Planta de Poder (como se pensava antes), se torna altamente produtiva e certa. É o encontro do indivíduo intensamente consciente com o Seu Mundo. Assim, temos o Artista que eleva seus pensamentos através do desejo de fazer uma Obra.

Aqui, cabe ressaltar a diferença entre uma Planta Mestra — a ayahuasca — de qualquer outra droga alucinógena, pois a ayahuasca não produz qualquer tipo de alucinação, não cria dependência, nem tão pouco vicia. É verdade que a palavra droga foi usada pelos botânicos nos primeiros anos do descobrimento do Brasil para se referirem às plantas encontradas na Floresta Amazônica – eram as drogas do Amazonas. Com o tempo, principalmente devido à transformação em produto químico da folha da coca, o termo “droga” passou a ter uma conotação mais pejorativa, deixando de lado o seu sentido anterior.

Todo este raciocínio sobre o mundo, todo o tempo que estamos usando para pensar sobre as verdades transcendentais, sobre a salvação, sobre técnicas avançadas para curar doenças, é importante. É necessário para o mundo o esforço que está sendo despendido de tantas mentes bem intencionadas. É maravilhoso saber que o velho Saber não foi e nunca será esquecido. Mas isto tudo será pouco se o espírito da alegria não estiver presente.

É fundamental não perdermos o nosso senso de humor, a capacidade de rirmos de nós mesmos, seja morando nas cavernas, ou seja viajando em naves espaciais de última geração.

A vida por mais que se prolongue é breve, a juventude é breve, a nossa vida útil no planeta é breve, o que vai ficar para cada um de nós, no fim de tudo, quando estivermos nos últimos minutos de nossa transição definitiva, eu digo o que é. É o que vai ficar na nossa memória e nas nossas saudades, é a alegria com que vivemos e a nossa capacidade para ser feliz que vai contar.

Por isto, meus amigos, o que importa é a nossa felicidade e que o mundo almeje ser feliz, alegre e risonho.

Obrigada a todos por terem me ouvido e me proporcionado estes momentos de convivência tão feliz.

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(*) Ana Vitória Vieira Monteiro, em 1982, fundou e dirigiu Centro de Estudos Vitalista Paracelso (CEVIP), que funcionou até o ano de 1996. Em 1997, ela fundou o centro Porta do Sol – Centro de Estudos Xamânicos de Expansão da Consciência, o qual dirige até hoje. Poetisa e dramaturga, Ana Vitória encenou vários textos teatrais e ministra “O Caminho das Pedras” em oficinas de teatro.
maraka@terra.com.br
http://www.portadosol.org.br/

Este texto foi revisado por Sandra Lucia Goulart, estudiosa das religiões ayahuasqueiras e autora de duas teses sobre o tema. É Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Mestre em Antropologia Social pela USP, além de pesquisadora do NEIP (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos).
sgoular@uol.com.br
http://www.neip.info/

(**) A antropóloga Bia Labate realizou uma consultoria para o evento.

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