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Carta para o Encontro da Diversidade Cultural Ayahuasqueira – Alex Polari – ICEFLU

Pretendemos, através deste texto que estamos enviando ao Encontro da Diversidade Cultural Ayahuasqueira, reiterar o apoio oficial da ICEFLU sobre o pedido de tombamento da Ayahuasca/Santo Daime nos termos do que foi disposto pelo Decreto 3551 de 4/08/2000 e também para nos posicionarmos sobre a atual etapa deste processo.

Como todos sabem, este pedido foi feito de forma quase simultânea no Acre pelo Alto Santo, Barquinhas e UDV e por nós, no Estado do Amazonas.

Em carta encaminhada ao Seminário de Ayahuasca e Políticas Públicas realizado o ano passado em Rio Branco, manifestamos nossa opinião de que o pedido encaminhado pelo estado do Acre apresentava duas lacunas básicas:

1) a de não ter incluído os representantes das nações indígenas, detentoras ancestrais deste patrimônio;

2) no que se refere ao segmento das religiões ayahuasqueiras, excluir outras vertentes relevantes e tradicionais deste segmento (inclusive a nossa), de qualquer tipo de consulta ou debate prévio sobre o pedido.

O argumento apresentado pelas entidades proponentes em Rio Branco para justificar a exclusão das demais, se basearia no fato de que elas se consideram as únicas “tradicionais”(mais preciso seria dizer “tradicionalistas”).

Nesta medida tem-se especulado sobre uma solução intermediária para sanar este impasse, do ponto de vista metodológico, remetendo nossa tradição religiosa do Santo Daime, linha do padrinho Sebastião, para um “campo eclético”, que se confundiria ou seria percursor de um outro, “neoayahusqueiro”.

Poderíamos até entender nossa presença dentro de um “campo tradicional/eclético”, na medida que temos como fundamento a doutrina, hinário, ritualística e simbologia do Mestre Irineu, acrescida de alguns desdobramentos como o trabalho mediúnico, o ecumenismo universalista, o enfoque ambientalista e comunitário e as alianças com as demais medicinas sagradas.

Não seria satisfatório para nós a classificação de “neo ayahuasqueiro”, na medida que esta definição contém um espectro bastante amplo de tendências. E que apesar do nosso respeito, apreço e diálogo com muitas delas, a inclusão neste grupo, nos afastaria do conteúdo do nosso corpo doutrinário.

É bom lembrar que a nossa tradição espiritual do Santo Daime, iniciada pelo Padrinho Sebastião, já foi reconhecida pelo Estado Brasileiro como uma das quatro principais tradições ayahuasqueiras que tiveram assento no GMT/CONAD para elaboração dos princípios deontológicos do uso religioso da ayahuasca.

E que além disto, ela tem raízes profundas nas populações tradicionais e nos povos da floresta, tanto na sua origem no Acre quanto no seu desenvolvimento no Amazonas, como atesta o trabalho social e ambiental desenvolvido por nossas comunidades no igarapé Mapiá e nas calhas do rio Purus e Juruá.

Porém não estamos aqui nem reivindicando o título de tradicional, nem negando o de ecléticos. Pois isto já seria desviar o objetivo deste debate do seu verdadeiro eixo.

Entendemos que algumas variações de ponto de vista entre as diversas correntes

ayahuasqueiras acerca do pedido de tombamento (da forma como foi proposto) como um processo natural.

Uma abordagem mais aprofundada deste fenômeno não caberia agora e será objeto de um outro texto. Apenas sugerimos aqui que, ao nosso ver, a tentativa de construir uma “teoria dos 3campos” (originário, tradicional e eclético) representa mais a tentativa de uma saída politica, do que propriamente alçar um rigor metodológico capaz de enfrentar a difícil questão da diversidade ayahuasqueira.

Poderíamos até deixar exclusivamente para os antropólogos e cientistas sociais o trabalho de referendar ou de revisar estes conceitos e classificações. Existem excelentes contribuições de alguns deles para este debate. Mas na verdade, para as igrejas e grupos, o tema extrapola o mero academicismo e implica na construção de suas identidades doutrinária e teológica.

Não vemos nada de errado na bem sucedida interlocução social e política das entidades tradicionalistas do Acre ao nível regional. Pelo contrário, reconhecemos a legitimidade deste tipo de articulação e o mérito do trabalho desenvolvido por elas ao nível regional e mesmo nacional (como é o caso da UDV). Mas esperamos que isto não venha a se tornar uma postura com pretensões hegemônicas e consequentemente com consequências negativas para todo o processo.

Por isto estamos apoiando o presente Encontro da Diversidade Cultural Ayahuasqueira. Considerando-o não como um contraponto mas como um complemento ao trabalho que vem sendo desenvolvido pelas entidades religiosas do Acre.

O nosso grande desafio é justamente transcender qualquer apego aos rótulos, origens e classificações e definirmos os nosso interesse comuns. Pois certamente todos nós desejamos ver o nosso sacramento e os diversos elementos culturais e artísticos dos nossos rituais objeto de proteção do Estado. Conforme foi citado num congresso sobre este tema, não cabe ao Estado propriamente “tombar” nada, mas sim “nutrir” as genuínas manifestações dos grupos sociais envolvidos neste processo.

Outra questão que a proposta de tombamento nos traz e que parece ser também um

consenso entre todos, é uma vinculação mais estreita de nossas tradições espirituais e religiosas aos segmentos de cultura e educação do Estado ao invés dos de Justiça e segurança institucional.

Entendemos que esta proteção cultural do Estado deveria começar por inventariar a

origem ancestral indígena e pan amazônica da ayahuasca, seus conhecimentos imemoriais enquanto medicina sagrada e seu papel relevante na cosmogênese e nos saberes de inúmeras etnias indígenas nativas da Amazônia Ocidental.

Depois disto ela passaria pelos diversos curanderismos e pajelanças xamânicas (não tão fortes aqui como em outros países) e daí para os desdobramentos contemporâneos, abrangendo tanto os elementos tradicionalistas quanto os ecléticos, contidos no fenômeno religioso urbano e genuinamente brasileiro das religiões cristãs daimistas.

Ao nosso ver, consideramos a própria bebida sacramental o fato instaurador da cultura ayahuasqueira. Juntamente com seu feitio ritualizado, autêntica alquimia sagrada, com um elaborado sistema de prescrições simbólicas e a beleza do seu cerimonial, como o cerne do “tombamento”.

Na mesma medida de importância estão os hinários, as coletâneas de músicas e cânticos devocionais “recebidos” por uma via de inspiração “mediúnica” e que servem como principal forma de codificação dos ensinos espirituais, notadamente das linhas espirituais daimistas.

E finalmente os diversos desenhos rituais tais como a dança e o bailado que conferem uma enorme beleza plástica e densidade espiritual aos “trabalhos” das diversas linhas, assim como outros rituais com formatos mais específicos.

Seguindo esta linha do tempo e tendo como premissa que a espiritualidade é uma fonte que nunca cessa de brotar e que a cultura é um todo vivo e dinâmico, temos que levar em conta também o broto mais recente desta raiz ayahuasqueira que são as recombinações e reconfigurações destes elementos doutrinários e ritualísticos por grupos mais recentes de característica mais independentes em relação aos sistemas tradicionais.

Acho que estes são aspectos centrais que devem clarear o objeto do nosso pedido.

Poderíamos incluir também a avaliação de temas secundários mas igualmente significativos, tais como: a riqueza da construção simbólica dos mitos fundadores das comunidades envolvidas; sua história oral; o choque e a síntese cultural levada a cabo com a expansão das doutrinas; a difusão da língua portuguesa e dos valores ‘caboclos’ em todo o mundo a partir da globalização da ayahuasca, etc.

Estamos aptos e interessados em sistematizar nosso rico acervo e contribuir para o

inventário do IPHAN e outros procedimentos que visem dar subsídios para a proteção por parte do Estado da cultura da ayahuasca em toda sua diversidade de manifestações.

E estaremos também sempre abertos para o diálogo, cultivando a tolerância na busca de obtermos um resultado positivo no reconhecimento da ayahuasca como um bem cultural da floresta a ser preservado para o futuro.

Esperamos que este processo seja para todos nós uma grande oportunidade de união e de diálogo, assim como de realização da unidade dentro da diversidade. Pois agindo de conformidade com esta compreensão, estaremos honrando a memória dos guardiões ancestrais deste tesouro cultural e espiritual da ayahuasca. E também estaremos interpretando de forma correta os preceitos e ensinamentos dos mestres fundadores e inspiradores das nossas tradições.

Alex Polari de Alverga

Membro do Conselho Superior Doutrinário do ICEFLU

Assessor de relações institucionais e comunicação

 

Fonte: http://www.idacefluris.org.br/sistema/imagem/noticia/a946__Carta_EncDivAhuaVersfinal.pdf