Walter Dias Jr. (*)

Comunicação feita no dia 19 de março de 2005, na mesa redonda: “O uso da ayahuasca no Brasil: vertentes e experiências”. Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo, organização Léo Artése/ Associação Lua Cheia – Pax, São Paulo, 13 a 20 de março de 2005. (**)

1. A BUSCA DE UM CAMINHO

A Vila Céu do Mapiá, uma das principais comunidades daimistas e sede do CEFLURIS (Centro Eclético da Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra) situa-se no que hoje é a “Floresta Nacional do Purus/Igarapé do Mapiá” (Flona Purus-Mapiá) e num certo sentido encontra-se diante de uma encruzilhada. Uma situação de impasse que requer a definição de um rumo, capaz de orientar a tomada de certas decisões estratégicas e a implementação de outras tantas providências de ordem prática, a fim de garantir um futuro sustentável e uma convivência em harmonia com a natureza.

O problema que se coloca é o da possibilidade de compatibilizar as necessidades de desenvolvimento econômico e social dessa comunidade com as exigências de conservação ambiental colocadas pela instituição jurídica das Florestas Nacionais (FLONAS). Pois, neste caso, trata-se da preexistência de uma comunidade religiosa peculiar, localizada em uma área de terras da floresta amazônica, definida posteriormente como FLONA pelo governo federal.

Portanto, o desafio é o de encontrar caminhos que permitam viabilizar a existência dessa comunidade dentro de parâmetros de sustentabilidade, levando-se em consideração tanto suas necessidades de sobrevivência, quanto as necessidades de conservação do meio ambiente.

Devemos esclarecer que não se trata, simplesmente, do estabelecimento de normas e regras de conduta criadas a partir de Brasília, visando garantir essa conservação. Pelo contrário, a adoção unilateral desse tipo de medida, apenas criaria a falsa sensação de que questões sócio-ambientais estariam sanadas, quando sabemos que, na prática, a realidade é bem mais complexa.

A busca de uma solução efetiva para esta situação requer um sólido e permanente trabalho de negociação, articulação política e conscientização junto à comunidade, à população ribeirinha e às “colocações” isoladas e dispersas, localizadas na Flona. A participação de todos os envolvidos nesse processo é fundamental para o reconhecimento e a legitimação de qualquer proposta que se venha a adotar posteriormente.

Na prática, esse envolvimento já começou a ocorrer, com a mobilização da comunidade, estimulada pela presença de diversas ONGs atuantes na área e do próprio IBAMA – órgão do governo federal, responsável pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação – através da criação de um de seus postos permanentes no local.

Essa mobilização ganhou grande impulso a partir dos anos de 2003 e 2004. Nesse período foram promovidas várias reuniões comunitárias, cursos sobre o assunto e assembléias, que resultaram na elaboração de um Plano de Desenvolvimento Comunitário – PDC. Trata-se de um bom ponto de partida para que, na esteira desse trabalho, possa ser deflagrado o debate visando encaminhar o processo de adequação do uso da área às exigências legais, de um modo que seja compatível com as necessidades de sustento da própria comunidade daimista.

Esta proposta tenta conciliar o problema, levando em consideração o fato de que, agindo dessa forma, poderá contar com a adesão das diferentes partes envolvidas. Assim, ao participar da elaboração do Plano de Manejo da Flona, a comunidade daimista coloca-se como aliada em seu processo de implementação, fato que pode ser considerado inovador em termos de políticas públicas no Brasil.

São grandes as chances de sucesso na implementação de um Plano de Manejo na Flona Purus/Mapiá que possa contar com a participação da comunidade envolvida, pois se trata de uma comunidade impar, sob vários aspectos. Sua especificidade reside, sobretudo, no fato de se constituir como centro mundial de uma das maiores igrejas do culto ao Santo Daime.

Entretanto, e pelos mesmos motivos, também é possível vislumbrar a possibilidade de ocorrência de inúmeras dificuldades e conflitos nessa caminhada. São contradições que se fazem presentes, desde as dificuldades de articulação dos interesses concretos de cada um dos grupos envolvidos na comunidade, passando pelas limitações de ordem legal e institucional defendidas pelo IBAMA, até a existência de uma rica diversidade cultural, proporcionada pela coexistência de grupos de diferentes tradições culturais e de múltiplas nacionalidades.

2. ORIGENS CULTURAIS

Antes de prosseguir na análise, é importante que se contextualize o problema, situando as origens culturais e realizando um breve histórico da comunidade religiosa do Céu do Mapiá e de sua situação fundiária. Procuraremos, portanto identificar essa comunidade, localizada às margens do Igarapé do Mapiá, um afluente do Rio Purus e situada no município de Pauini, no Amazonas.

A comunidade daimista Céu do Mapiá estabeleceu-se neste local a partir de 1984. Mas sua origem remonta ao ano de 1974, quando seu líder espiritual – o “padrinho” Sebastião Mota de Melo – fundou a colônia Cinco Mil, em Rio Branco, Acre. Desde sua fundação, ela se organiza em torno de uma proposta de vida comunitária, muito bem documentada no livro de Vera Fróes História do Povo Juramidam: a cultura do Santo Daime (1986).

Por outro lado, as origens desse grupo religioso remontam às tradições da cultura acreana local e, antes até, de diversas culturas indígenas da região amazônica. Vários depoimentos sobre o assunto sugerem que sua possível origem remonta à época do império Inca, embora não existam evidências concretas ou consenso nesse sentido.

O fato é que o culto ao Santo Daime (ou Santas Doutrinas) foi criado por Raimundo Irineu Serra, o Mestre Irineu, e constituiu-se a partir de um vigoroso movimento, relacionado com o avanço do universo mágico-religioso dos povos da floresta em direção às cidades. Sua condição de existência reside, justamente, nessa abertura para a fusão de diferentes e, por vezes, até antagônicas influências, crenças e concepções religiosas.

Trata-se de uma forma de religiosidade com características de “culto periférico” que se expande em direção aos grandes centros urbanos, levando consigo a marca do “diferente”, do “estrangeiro”, do “dominado”, do “aculturado”. Coloca-se como a voz da floresta, capaz de ressacralizar o universo e a própria luta ecológica pela salvação do planeta. Compõe-se de um mosaico de símbolos aparentemente cambiantes, onde a lógica e rigidez doutrinárias são consideradas como relativamente secundárias, uma vez que são as próprias experiências de êxtase divino, vivenciadas diretamente pelos devotos durante os rituais, que assumem a forma de “verdade superior”, de “revelação mística”.

O que se observa é que, ao eixo original das crenças de origem xamânica, aderem diversas concepções doutrinárias e filosóficas. Embora a possibilidade de interpretação das experiências seja necessária para legitimá-las dentro do grupo, o elemento mais importante que emerge desse processo é o próprio êxtase, o contato direto com os “seres divinos” e as revelações e os ensinamentos eventualmente adquiridos através desse contato. Entretanto, sua legitimidade é reconhecida pelo grupo somente quando a experiência vivida coloca-se de acordo com alguns preceitos e concepções básicas, típicos desse modo de pensar, como por exemplo, a crença de pertencer à “Mãe Terra” e de fazer parte do império da “Rainha da Floresta”.

Para os daimistas, participar dos cultos é vivenciar um processo de autoconhecimento. Dentro dessa perspectiva, tomar o Santo Daime é entrar no universo sagrado através de um processo de iniciação, em busca do re-conhecimento de si. Em geral, o perfil do iniciado pode ser caracterizado como o de uma pessoa profundamente empenhada na busca do aperfeiçoamento espiritual, através da compreensão do universo sagrado. Como disse em entrevista o padrinho Sebastião:

“…a doutrina é para quem a busca. Então, (trata-se) de buscar você mesmo lá no Astral para ter consciência aqui na Terra. A doutrina é um aprendizado para nós mesmos. Não é para nossa carne, mas para nosso “Eu Superior”: aquele que habita dentro e fora. A doutrina que conheço é esta: saber quem somos. É procurar ser e não parecer. É poder dizer: eu sou na Terra como no Céu.” E, em outro momento, completa: “…para conhecer a doutrina é preciso tomar o Daime e prestar atenção aos hinos.”

Essa doutrina pode ser vista como um caldeirão onde se fundem influências que abarcam desde o pensamento mágico-religioso indígena, passando pelo catolicismo popular, pelo pensamento esotérico ocidental e o espiritismo (incluindo-se aí desde o Kardecismo até a Umbanda e o Candomblé). Mais recentemente, observa-se também a influência de filosofias religiosas orientais (Budismo, Taoísmo e Hinduísmo), o culto daimista constituindo-se assim de fragmentos de outras crenças e doutrinas religiosas, num movimento de constante codificação e decodificação simbólica. Isto somente se torna possível a partir da abertura fornecida pela experiência extática, que se opõe radicalmente a toda e qualquer estrutura religiosa mais rígida e dogmática.

No princípio de seu processo de assimilação cultural, a bebida sagrada era denominada entre os seringueiros pelo nome indígena Huasca ou, simplesmente, cipó. De acordo com o relato de Maria Garibaldi, uma daimista, ex-residente do Céu do Mapiá, natural de Feijó, Acre, filha de mãe Kaxinawá e pai cearense, o culto do cipó em sua cidade é uma prática antiga e conhecida:
“…eu morava num seringal…Reunia todo aquele mundo de caboclos em feitio (ritual de preparo da bebida)…Todo mundo tomava cipó. Eu tomava também e tinha muitas visões… Eu conheci o Daime desde criancinha… Era (trabalho) de caboclo, mesmo. (Coisa) De índio.”

Em vários artigos, Marlene Dobkin de Rios relata o uso de ayahuasca em práticas xamânicas, na periferia de algumas cidades peruanas. O que há de comum em todos esses relatos coletados é a finalidade com que são utilizadas tais práticas e determinadas concepções anímicas que perpassam e unificam esse tipo de experiência.

São práticas utilizadas sempre em um contexto de ameaça concreta à sobrevivência, quer seja individual, quer seja coletiva. Tradicionalmente, os Huni-Kuin, por exemplo, utilizavam-nas com três finalidades básicas: obter fartura em alimentação (caça), sobrepujar os inimigos (guerra) e vencer as doenças (cura). São questões dessa mesma ordem que levam o seringueiro a adotá-las para si. Tais fatos reforçam a tese de que se trata de uma prática muito difundida, que faz parte da própria cultura regional. Nunes Pereira (1979) também nos dá notícia da existência de um terreiro de Mina-Jêje em Porto Velho, Rondônia, que faz uso de ayahuasca em seus trabalhos.

Quando a ayahuasca começa a penetrar no universo urbano, isto se dá pelas mãos de pessoas com reconhecidos dons espirituais. São ex-pais-de-santo e rezadores que fazem essa primeira fusão. Continuando o seu relato, Maria Garibaldi revela que em Feijó e, mesmo em Rio Branco, no bairro de Vila Ivonete, que é onde o Mestre Irineu começa a organizar o culto do Santo Daime, o sincretismo é realizado com a Umbanda:
“… Tinha muito preto-velho que recebeu a missão, que tomava conta… Eram cearenses que recebiam preto-velho e várias (outras) entidades.(Eles) andam pelo mundo e sabem tudo. Eles conhecem o “padrinho” Sebastião; (conhecem) tudo. Agora, eles falam que este reinado aqui (do “padrinho ” Sebastião) é o maior; que é universal; que é para crescer. Eles lá, não. É só para manter aquilo…

Lá, o ritual é dança, é bailado. Só que é solto, igual ao da Vila Ivonete. Na Vila Ivonete tem um Santo Daime que é assim: é solto. Você baila tudo solto (sem par nem passo demarcados). Agora, na atuação, essas coisas, é tudo igualzinho. Tem separação entre homens e mulheres. E, (quando o comandante) vai falar alguma coisa para você, ele fala cantando. Canta (e) vai lá naquele lugar, mas é tudo cantando… Ele chama a fita do cipó. A gente (fica) em roda quando ele começa a cantar (de improviso) e a gente é que saca, entendeu? Ali, ele está falando, mas não é com todo mundo. Eles também cantam muitos hinos que chamam de ponto. Agora, eles lá, disseram que já estão (até) chamando de Daime. Antes era só cipó….”

3. HISTÓRICO DAS SANTAS DOUTRINAS

É provável que Mestre Irineu tenha conhecido as práticas xamânicas diretamente com os índios da região. Contudo, o fato é que vários informantes apontam Antônio Costa – um conhecido curandeiro branco que, no princípio do século XX, atuava em Brasiléia, cidade de fronteira do Brasil com a Bolívia e o Peru – como aquele que orientou o processo iniciático do Mestre Irineu com a ayahuasca. Segundo Clodomir Monteiro, na década de 1920 Antônio Costa organiza e dirige o Círculo Regeneração e Fé – CRF – em Brasiléia. Quase não há registros de sua existência; mas foi, sem dúvida, dessa fonte que o “mestre fundador” da doutrina do Santo Daime bebeu até o final da década de 1920. Foi durante esse período, também, que ele teve a revelação de sua missão divina, dada em “miração” (termo que se refere às visões místicas provocadas pelo chá) pela Rainha da Floresta ou Nossa Senhora da Conceição.

De 1930 a 1945 Mestre Irineu passou a realizar seus trabalhos espirituais no bairro de Vila Ivonete, na época periferia rural de Rio Branco, obtendo legitimidade e reconhecimento público. Seu prestígio era tamanho que possibilitou a conquista de uma gleba de terras, em 1945, situada onde hoje se localiza o Alto Santo. Nessa gleba de terras cedida pelo então governador do Acre, ele implantou a primeira comunidade do Santo Daime de que se tem notícia. Durante esse período de grande prosperidade, o trabalho agrícola já era baseado no sistema de mutirão.

Após a morte do Mestre Irineu – sua “passagem” como dizem seus seguidores – ocorrida em 1971, o Alto Santo entrará em um período de crise. O comando dos trabalhos fora deixado por Mestre Irineu para Leôncio Gomes, tio de sua mulher, a senhora Peregrina Gomes Serra. Mas, desde o princípio, Leôncio Gomes teve sua legitimidade contestada pelo grupo liderado pelo padrinho Sebastião Mota de Melo. Este entrara para o culto no princípio da década de 1960 e, nesse período, já contava com um grupo de cerca de cem adeptos que o seguiam em função de sua expressiva liderança carismática.

Essa disputa de liderança será acirrada até fins de 1974, quando o padrinho retira-se do Alto Santo, levando consigo um grupo de fiéis para fundar a Colônia “Cinco Mil”, uma comunidade agrícola assentada em uma gleba de terra mais distante da cidade de Rio Branco. Este fato dá início a uma nova etapa na história da doutrina do Santo Daime.

É interessante ressaltar algumas características observadas nesses processos de rompimento que, em diferentes situações, apontam sempre para a forma de liderança carismática como base e fonte de poder. Como existem poucas informações sobre o rompimento do Mestre Irineu com Antônio Costa, pouca coisa pode ser considerada a esse respeito. Entretanto, quanto ao rompimento protagonizado pelo “padrinho” Sebastião com Leôncio Gomes e o Alto Santo (após a morte do Mestre), os dados são maiores e há uma série de detalhes que revelam a complexidade do processo sucessório que, tradicionalmente, ocorrem em situações como estas, quando o líder original não está mais presente.

O carisma do Mestre Irineu fora muito intenso, a ponto de manter a comunidade unida e permitir que ele indicasse seu sucessor, embora não o suficiente para perpetuar essa união por muito tempo após a sua morte. Foram necessários apenas alguns anos para que os descontentes abandonassem o grupo original, passando a constituir outra comunidade daimista. Esse período é, inclusive, registrado em alguns dos hinos “recebidos” pelo padrinho Sebastião. Seus seguidores contestavam a autoridade de Leôncio enquanto os membros do Alto Santo diziam que o “velho Mota” tinha muito pouco tempo de Daime para já querer comandar.

A dissidência do “padrinho” vai crescendo até que numa assembléia do CICLU (Centro de Iluminação Cristã Luz Universal), nome oficial do Alto Santo, realizada em 1974, ele levanta uma “nova bandeira”, rompendo com o grupo original para organizar o Centro Eclético da Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra – CEFLURIS – que ficou mais conhecido como Colônia Cinco Mil. Esse processo deverá se repetir pelo menos por mais uma vez no Alto Santo, após a morte de Leôncio Gomes, ocorrida em 1981. Francisco Fernandes Filho (conhecido pela alcunha de Tetéo) assume seu lugar e, novamente, assiste-se a outra cizânia. A disputa atinge seu clímax em 1983, quando Tetéo, Luiz Mendes, Nica (que era secretário do CICLU) e vários outros adeptos retiram-se do Alto Santo para constituir nova igreja, distante cerca de um quilômetro da primeira.

4. ORIGENS DA COMUNIDADE: utopia do Padrinho?

O CEFLURIS realizou seu primeiro trabalho oficial na colônia Cinco Mil em 24 de junho de 1975 (dia de São João), inaugurando uma nova etapa no processo de crescimento da doutrina daimista. Seu estatuto reafirma que seu trabalho assenta-se sobre os mesmos princípios doutrinários criados por Mestre Irineu, tendo como objetivos básicos declarados: o culto à doutrina do Mestre, a adoração à Deus, a preservação do Santo Daime como sacramento (inclusive de possível profanação ou comercialização), a cura espiritual dos necessitados e o bem-estar de seus membros (valorizando as relações comunitárias e cooperativistas). Segundo Vera Fróes:
“…em 1976 a Colônia Cinco Mil passa a vivenciar uma experiência comunitária, através da união de 25 colônias (situadas) ao (seu) redor, num total de 385 ha., congregando 45 famílias de ex-seringueiros e agricultores… Ao mesmo tempo, um número cada vez maior de pessoas passa a freqüentar a colônia para obter a cura de suas enfermidades, bem como médicos e curiosos interessados em conhecer o Santo Daime…”- (1986, pp. 47-8)

A partir desse momento a popularidade da Colônia Cinco Mil (que recebeu esse nome devido ao valor de cada lote de terras que, na época, era de cinco mil cruzeiros) aumenta, passando a ser conhecida principalmente por místicos, andarilhos e membros da chamada geração “pé-na-estrada”, muitos dos quais, geralmente, chegavam até o Acre após embarcarem no “trem-da-morte” para a Bolívia, passando por Machu-Pichu, no Peru. Em 1976, Paulo Roberto Souza e Silva (futuro comandante da igreja daimista “Céu do Mar”, no Rio de Janeiro) chega em Rio Branco e conhece o “padrinho” Sebastião.

Em 1978 é a vez de outro futuro comandante de igreja daimista do Rio de Janeiro (a “Rainha do Mar”, em Pedra de Guaratiba-R.J.) conhecer a Colônia Cinco Mil: Marco Imperial. Em 1979, Fernando de La Rocque Couto que, posteriormente, organizará a igreja do Céu do Planalto, em Brasília, também conhece a Colônia. Finalmente, em 1980, já no final desse período, é a vez de Alex Polari de Alverga (futuro comandante da igreja “Céu da Montanha”, em Visconde de Mauá) descobrir o Daime. Esse foi um período caracterizado pelo florescimento da Colônia Cinco Mil, quando muitos forasteiros acabaram instalando-se definitivamente no local, trazendo consigo novos hábitos e influências para a doutrina.

No início de 1980, “padrinho” Sebastião anuncia o começo de uma nova fase de peregrinações, em busca de um local para a construção de outra sede para seu grupo: a “Nova Jerusalém na terra”. Ele parte em busca de um local na floresta, capaz de oferecer melhores condições de sobrevivência material para seu grupo, pregando um retorno às origens. Claro que esta sua decisão está de acordo com as instruções “recebidas” do astral, durante a miração. A seguir, ele relata os motivos que o levaram à nova mudança:
“… Daqui vou me mudando, porque já me acho cansado de tanta luta aqui e os pastos já estão tão mal divididos que, se planta uma coisa, não dá mais, não tem aquele rendimento. Os próprios campos já estão acabados com carrapicho, coisa dura. Não se tem dinheiro para se botar um trator e virar a terra e as condições de vida cada vez mais difíceis; o preço das coisas cada vez mais alto. Não dá prá mim não. Vou tratar da seringa, ela já está na mata. Está trancada, mas se tratar de zelar dela, vai dando o que comer. Aqui não dá mais…”

No auge desse período, a Cinco Mil chegou a abrigar cerca de 300 a 400 pessoas, ultrapassando seus limites e suas possibilidades de produção. Como as demandas do grupo continuavam avolumando-se e os recursos locais já não bastavam, a alternativa possível era a migração para o centro da mata.

Esse movimento teve início em 1980 e, com orientação do próprio Instituto de Colonização e Reforma Agrária -INCRA- a comunidade instalou-se no seringal Rio do Ouro, no município de Boca do Acre, Amazonas, situado às margens do Igarapé Rio do Ouro, na altura do quilômetro 53 da rodovia Br-317. Esta que, segundo o INCRA, seria uma gleba de terras devolutas, passou a ser beneficiada pela instalação da comunidade do padrinho, com a implantação de roçados, a abertura de estradas de seringa para a extração de borracha e várias outras benfeitorias. Sobre esse processo, novamente é Vera Fróes quem nos conta:
“…em maio de 1980 iniciou-se o movimento em direção ao seringal Rio do Ouro e no espaço de pouco mais de um ano cerca de 200 pessoas já estavam morando no local, ocupando uma área com cerca de treze mil hectares, explorando vinte colocações de seringa e produzindo 15 toneladas de borracha/ano, residindo em 36 casas, possuindo grandes roçados, criação de patos e galinhas.

Para surpresa de todos, o “padrinho” anunciou em 1981 que aquele ainda não era o local determinado pelo astral e onde se ergueria a Nova Jerusalém. Concomitantemente, surgiram pressões de pessoas interessadas nas terras desbravadas pela comunidade. Pessoas que possuíam um título de propriedade com inúmeras irregularidades, ainda do início do século e que dava a área como propriedade de um fazendeiro sulista. Apesar de ter sido a própria representação do INCRA na região quem deu autorização para a comunidade instalar-se no seringal Rio do Ouro…” (1986, p. 120).

Paralelamente a essa mudança em direção ao centro da floresta, o grupo empreende outro movimento em direção aos grandes centros urbanos do país e para o exterior. Data de 1982 a inauguração da primeira igreja do Santo Daime no Rio de Janeiro, liderada por Paulo Roberto Souza e Silva: o Centro Eclético da Fluente Luz Universal Sebastião Mota Melo – CEFLUSMME – ou simplesmente igreja “Céu do Mar”, como é mais conhecida. Sua instalação foi em 01 de novembro de 1982, localizando-se na Estrada das Canoas, 3036, em São Conrado no Rio de Janeiro.

Depois dela, pelo menos mais nove igrejas foram instaladas fora da região amazônica, no início da década de oitenta. Em Visconde de Mauá, Pedra de Guaratiba e Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro; em Belo Horizonte, Caxambu e Santa Luzia, no Estado de Minas Gerais; em Florianópolis, Estado de Santa Catarina; em Brasília, no Distrito Federal e na capital do Estado de São Paulo. Também há notícias recentes de abertura de pontos de trabalho com Santo Daime em Córdoba, na Argentina; em Boston, nos Estados Unidos, em Genebra, na Suíça e em alguns outros pontos do mundo.

Retomando a saga do grupo vinculado ao “padrinho” Sebastião, depois de dois anos de trabalhos no seringal Rio do Ouro, ele abandona o local, devido à demanda fundiária. Então, em 1982, a comunidade foi obrigada a se retirar, sem receber qualquer indenização pelo seu trabalho. Novamente, o grupo dá início a outro êxodo que, dois anos mais tarde, culminará com a ocupação de uma gleba de terras às margens do igarapé Mapiá.

5. NO CÉU DO MAPIÁ

Foi o próprio INCRA quem informou à comunidade a existência de outra área arrecadada pela União, sem proprietários, para onde poderiam se transferir. Essa nova gleba de terras passou a ser ocupada a partir de 1982, e localizava-se no Igarapé Mapiá, afluente do Rio Purus, no município de Pauini, Amazonas, ficando distante cerca de 150 quilômetros do seringal Rio do Ouro.

Em 1989, o seringal Céu do Mapiá já reunia em torno de 300 pessoas com residência fixa e mais um outro tanto de população flutuante. A comunidade do padrinho vivia da agricultura e da extração de látex e de castanha, embora essa região não seja muito propícia para ambas atividades. Isso porque, durante décadas, o Mapiá já havia sido explorado como seringal e o manejo predatório destruiu a possibilidade de continuação da extração de látex de boa parte das seringueiras.

Essas árvores foram inutilizadas de maneira definitiva devido à utilização de técnicas inadequadas de corte do tronco para a extração do látex. Até hoje, essa região apresenta escassez de peixes, animais e madeiras boas em relação a outras áreas próximas à cabeceira dos igarapés da região, provavelmente também em função da forma de exploração predatória ocorrida desde o início do século vinte.

Talvez em função dessa realidade, durante o período inicial de assentamento já existam planos elaborados pela comunidade, prevendo a necessidade de um novo deslocamento de parte dos moradores da Vila Mapiá para a cabeceira do Igarapé Inauiní, com a finalidade de instalar uma reserva extrativista de látex e castanha: o Trono do Sol. Por enquanto, deve-se ressaltar apenas o fato de que essa proposta revela a necessidade de uma nova retirada do grupo (após a morte do padrinho Sebastião, ocorrida em 26 de janeiro de 1990), agora sob a liderança de Alfredo Gregório de Melo, filho do padrinho.

Segundo dados obtidos junto à Associação de Moradores da Vila Céu do Mapiá, em janeiro de 1989 a comunidade era formada por cerca 304 moradores fixos, constituindo cerca de 51 famílias. Durante os sete anos iniciais de assentamento, a comunidade edificou setenta habitações, uma igreja, uma escola, uma casa de curas, um posto médico-odontológico, uma creche, dois armazéns, duas casas de farinha, uma ponte, um escritório, áreas para cultivo (agricultura de subsistência), campos para a criação de gado (50 cabeças), sessenta estradas de seringa, apresentando um incipiente processo de urbanização.

Hoje, o Céu do Mapiá coloca-se como polo assistencial para boa parte dos ribeirinhos da região média do Rio Purus, próximo ao igarapé do Mapiá. São mais de duzentas famílias que, sistematicamente, buscam o apoio da comunidade daimista para auxiliar em sua sobrevivência.

A comunidade do Céu do Mapiá possui algumas características peculiares, que a diferenciam, em certos aspectos, dos demais grupos que professam a doutrina do Mestre Irineu. Ela foi a única a retomar a proposta original de comunidade rural praticada pelo Mestre e abandonada no Alto Santo, após seu falecimento. Foi também a única que empreendeu o movimento de expansão do culto em direção a outras regiões do país e do exterior, criando uma igreja sede com estrutura nacional e várias outras a ela filiadas.

Todos esses fatos ocorreram simultaneamente a intenso processo de mudanças sociais, econômicas e culturais por que passou todo o Estado do Acre desde a década de 1970. Nesse período, por exemplo, Rio Branco viveu um processo de expansão que, em dez anos, fez com que a população da cidade fosse duplicada. No bojo desse movimento, a comunidade do “padrinho” Sebastião absorveu com grande intensidade o fluxo de jovens de classe média e de origem urbana de outras regiões e países, que migraram para lá, provavelmente em busca de uma relação mais ecológica e mística com a natureza.

O perfil do “daimista” (como é chamado o adepto da doutrina) da comunidade fundada pelo padrinho Sebastião modificou-se gradativamente a partir de então, deixando de ser constituído exclusivamente por seringueiros e caboclos. Gradativamente, passa a assumir uma nova face, mais cosmopolita, ao integrar esses novos personagens, com suas crenças e hábitos urbano-industriais.

Entretanto, a comunidade procura manter-se fiel às origens doutrinárias, buscando assimilar as novas influências e adequá-las às tradições xamânicas. Essas tradições assentam-se em algumas crenças anímicas que conferem aos objetos, substâncias e símbolos, determinados atributos essencialmente sagrados. Sobre a doutrina do Santo Daime e suas crenças, “padrinho” Sebastião é esclarecedor:
“…A doutrina não existe, mas se fala. Ninguém doutrina ninguém. Cada um é seu próprio doutrinador. A mãe em sua bondade nos acolhe a todos. Nós usamos as plantas santas sim. Qual é o pecado? Qual é o crime de usar aquilo que brota na terra que é nossa mãe? Tem uma ligação divina nessas plantas que une o reino da Terra com o reino do Céu. A gente seria muito bobo se não usasse elas para descobrir o lado espiritual das coisas. Deus nos manda a sua verdade através da sua obra. Só agora é que vão chegar as pessoas que foram convocadas para dar o testemunho de que essas ervas nos levam aos espíritos. A gente tem que se preparar para ser um povo santo… Temos que nos ajuntar e mostrar o que estamos aprendendo com amor, boas palavras, mansidão. Até encontrar com o Eu Superior. Nisso aqui é que está nossa doutrina… A doutrina somos todos nós, é apresentar uma coisa divina, nós não devemos ter medo, somos um grupo que procuramos o espiritual…” (Alverga,1984, pp. 308-309).

Justamente por estar impregnada pelo sagrado é que se torna possível a inversão dos sinais, que em nossa cultura adquirem sempre significados negativos e, nessa concepção, são colocadas como experiências positivas de encontro, de união com os poderes divinos do universo. Aí, essas “plantas de poder” estão colocadas a serviço da comunidade, não possuindo o caráter anti-social estigmatizado por nossa própria cultura. Elas representam, virtualmente, um elo entre o universo profano e o sagrado. É através delas que esses homens penetram no mundo dos espíritos, no conhecimento esotérico.

É importante ressaltar, ainda, que a atual retomada do projeto de organização do Mapiá em comunidade, bem como seu processo de expansão em direção aos grandes centros urbanos e ao exterior, simultaneamente ao processo de abertura interna para a adoção de novas práticas rituais e valores religiosos, são características específicas do CEFLURIS. Entretanto, somente esse fator não parece explicar satisfatoriamente o fenômeno, o que nos leva a buscar nos elementos de positividade, internos ao próprio grupo, as pistas necessárias à compreensão desse processo.

6. UMA BABEL DA NOVA ERA?

Atualmente, passados quinze anos da fase heróica de sua implantação, a realidade da comunidade criada pelo padrinho é bem diferente. São inúmeros os conflitos e contradições vividos pelos moradores do vilarejo em que se transformou a comunidade original. Agora, é possível chegar ao Mapiá de voadeira (embarcação de alumínio com motor de popa à gasolina) em menos de seis horas de viagem, escolher, dentre as lanchonetes existentes, a mais adequada para realizar as refeições e pernoitar em uma das várias pousadas. Todo esse comércio é realizado através da iniciativa privada de alguns moradores. Com isso, a proposta de vida comunitária passa por uma situação de crise, com o abastecimento da “cozinha geral” e o sistema de mutirões enfraquecidos e desacreditados.

Esse processo intensificou-se com a chegada dos estrangeiros e a transformação do Mapiá em um centro mundial de peregrinação, trazendo consigo um maior “progresso” econômico para a vila. Com ele, as mazelas típicas do processo de segmentação social vivido pelo grupo: a exploração, a pobreza e a exclusão. Atualmente, até os rituais de “feitio” do Daime sofreram mudanças, com a profissionalização dos “feitores” do sacramento e com uma recente experiência de mecanização do processo, em função do aumento global de sua demanda.

O aumento da demanda pelo sacramento do Santo Daime tem por base a expansão da doutrina, com a abertura de novas igrejas nas cinco regiões do país e em diversos países das Américas, Europa, Oriente Médio e Ásia. Em 2002, por exemplo, ocorreu o terceiro encontro das igrejas da Europa. Realizado em Nunspeet, Holanda, contou com a participação de representantes de igrejas de diversos países, como: Espanha, França, Itália, Holanda, etc.

Em Junho de 2003, durante Assembléia Geral no Encontro Nacional das Igrejas do CEFLURIS, realizado no Céu do Mapiá, um dos pontos de destaque foi a discussão para aprovação do Plano de Desenvolvimento de Comunidade – PDC–, cuja elaboração se iniciou em janeiro de 2003 sob orientação de técnicos integrantes de ONGs como WWF e NAWA . Inicialmente foram constituídas equipes de trabalho compostas por membros da própria comunidade daimista agrupados por áreas de atuação – Saúde, Educação, Comunicação, etc.

O objetivo inicial foi o de se fazer um diagnóstico de cada uma das áreas levantando-se as dificuldades e sugestões de soluções definidas pelos integrantes de cada uma das equipes a partir de suas experiências nas respectivas áreas. Esse foi um processo muito mobilizador da comunidade, durante o qual as contradições e dificuldades objetivas e subjetivas puderam ser identificadas e discutidas.

Os técnicos externos à comunidade do Mapiá, que participaram desse processo de discussões e diagnósticos, tiveram funções de mediadores e até mesmo de catalisadores no decorrer do trabalho, que durou cerca de seis meses. Em junho, época do encontro, foram apresentados, em assembléias, os resultados obtidos e o diagnóstico final de cada área feitos pelos membros da comunidade e integrantes das equipes. Esse foi um processo muito motivador na comunidade, que se mostrava entusiasmada com a oportunidade de discutir coletivamente problemas e contradições históricos vividos por todos. Evidenciou-se, também, empenho na busca e apresentação de propostas de soluções criativas e dinâmicas. Houve inovação e criatividade até mesmo nas formas de apresentação dos resultados, com a utilização de dinâmicas de grupo envolventes, divertidas e artísticas.

Um dos aspectos muito positivos desse trabalho foi a maior aproximação entre os membros da comunidade em torno da busca conjunta de soluções para problemas coletivos. O entusiasmo com as atividades do PDC era evidente e assunto nas rodas de conversas em vários contextos. O relacionamento com os técnicos estreitou-se, na medida em que os membros da Vila Mapiá foram se sentindo respaldados, apoiados e orientados a respeito de novas formas de se trabalhar os problemas comunitários. Os técnicos, por sua vez, também se mostravam animados com os resultados obtidos, além de enriquecidos pela insólita experiência profissional vivida numa comunidade religiosa. Sua contribuição foi expressiva na mediação entre as lideranças do Mapiá e os outros membros da comunidade.

Exemplos como esse são encorajadores e promissores no que se refere à possibilidade de se estabelecer uma relação dinâmica entre os ensinamentos espirituais adquiridos pela experiência mística na escola espiritual do Santo Daime e a sua tradução em mudanças concretas nas maneiras de se viver e conviver. Talvez, nesse sentido, a comunidade do Santo Daime do Céu do Mapiá seja pioneira no que diz respeito à experimentação de novas formas de sobrevivência auto-sustentável, em convivência comunitária e numa vida em harmonia com a natureza à luz dos ensinamentos espirituais. Talvez seja essa a Nova Jerusalém anunciada, onde o velho e o novo se fundem produzindo um novo diverso e abrangente.

Cada vez mais são objetivos inadiáveis a busca de soluções e alternativas para a experiência de vida comunitária, em que o senso de coletivo seja vivido efetivamente e se manifeste nas várias formas de organização do grupo, com sustentabilidade e responsabilidade sendo referências para uma nova ordem objetiva e subjetiva.

É incontestável que a Nova Jerusalém, a Nova Era anunciada e profetizada por mestres, sábios e líderes de várias doutrinas religiosas, filosofias, movimentos e culturas diversas se erigirá como um movimento evolutivo sobre os escombros de mentalidades superadas por não mais responderem a muitas das necessidades e anseios do homem desses novos tempos.

A mentalidade necessária à Nova Era aponta na direção de uma consciência global, planetária, cósmica e unitária. A reunião e reintegração da matéria e do espírito – duas dimensões do homem numa unidade cósmica que transcende dualidades – representa o resgate da humanidade do homem.

E, nessa perspectiva, ganham destaque na edificação desse novo tempo e sistema, a subjetividade e a interioridade. Somente novos sujeitos poderão construir um novo mundo, novas relações com o outro, com a natureza, com o planeta e com o cosmo.

No plano subjetivo a busca de auto-realização é um valor fundamental e estimulante que embasa a construção de outro modus vivendi e modus operandi. Os essênios – antiga e tradicional comunidade religiosa judaica – entre os quais, especula-se, podem ter vivido João Batista e Jesus, talvez tenham sido os precursores desses “novos” valores de vida e convivência.
A possibilidade de uma nova vida demanda a existência de homens “mutantes”, nos quais se opera uma “mutação” espiritual através de uma “revolução silenciosa”, forjando uma nova consciência tanto no plano da subjetividade como no que se refere ao mundo objetivo. Essa “mutação”, que se irradia de dentro para fora, vai se refletindo no ambiente externo num movimento constante que, através da ecologia interior e da ecologia do ambiente vai redesenhando nosso ser e estar, nossas ações e relações, transformando o parecer em ser, como dizia, aliás, o próprio padrinho Sebastião: “o ser e não o parecer”.

Sem a integração das dimensões pessoal e transpessoal na vida cotidiana tendemos a uma nova Babel, simbolismo oposto àquilo que preconizam a Nova Jerusalém e a Nova Era.

Muitas das questões objetivas, que resultam também de subjetividades insatisfeitas, pouco esclarecidas, dificuldades nas relações que se transformam em lutas, agressões, atos de violência, não podem ser banalizados e desconsiderados, bem como não podem ser ‘tratados’ com moralismos, autoritarismos, intolerância e discriminação.

Essa é uma fonte de confusão entre poder e posse, de luta entre homens e mulheres, pais e filhos, homem e meio ambiente, enfim, uma fonte de desvios patológicos, histéricos e sadomasoquistas, intolerância entre eu e o outro, onde não há lugar para o diferente, para a diversidade.

Uma vida plena exige realização plena, ou seja, realizações que expressem criatividade e aprimoramento tanto material quanto espiritualmente. O coletivo incentiva, apoia e referencia a criatividade dos sujeitos e esses, respaldam e constróem, juntos, um coletivo satisfatório para todos. Simbolicamente é juntar o céu e a terra nas experiências cotidianas, é a reunião das experiências celestes, espirituais, às outras, terrenas, materiais, como indissociáveis.

Para tanto, são necessárias novas ações educacionais voltadas ao desenvolvimento não só pessoal, social, profissional, mas também transpessoal e espiritual. A escola espiritual do Santo Daime, do CEFLURIS, possui as bases para essa realização educacional. Os pilares dessa edificação – Harmonia, Amor, Verdade e Justiça – estão evidenciados nos ensinamentos do hinário “Justiceiro”, do Padrinho Sebastião.

A educação sustentada sobre esses quatro pilares pode ser traduzida como uma Educação pela e para a Paz, em que a auto-expressão e a auto-realização criativas sejam as sementes das quais germinarão a auto-sustentabilidade responsável, com relações harmoniosas dos homens entre si e com a natureza, cumprindo-se as profecias da Nova Jerusalém e Nova Era.

7. CONCLUSÃO/PROPOSTAS

Em Janeiro de 2005 foram realizadas reuniões na comunidade Céu do Mapiá, coordenadas pela Diretoria Nacional do IDA/CEFLURIS, com a participação de Diretorias e representantes de igrejas afiliadas, nacionais e internacionais, representantes dos vários setores de atividades existentes no Céu do Mapiá e demais membros desta comunidade. Também participaram representantes de organismos institucionais como:
· Coordenadoria de Planejamento de Florestas Nacionais – IBAMA/BSB – Adalberto Iannuzzi Alves;
· Coordenadoria do Núcleo de Unidades de Conservação da Gerência Executiva do IBAMA no Acre – Sebastião Santos da Silva;
· Chefia da Flona Mapiá/Inauini – IBAMA/AM.

Esses técnicos, durante três dias, foram os responsáveis pela realização de seminários e cursos relacionados ao manejo sustentável da floresta.

Desde a realização do Plano de Desenvolvimento da Comunidade – PDC – em 2003, com um conjunto de ações já descritas nesse trabalho, a Vila Céu do Mapiá vem, gradativamente, se mobilizando e focalizando a reorganização coletiva da vida comunitária, através do estudo, diagnóstico e levantamento de sugestões para viabilizar o manejo ecológico e auto-sustentável do grupo.

Nesse trabalho de mobilização e conscientização tem sido significativo o papel das ONGs internacionais, através de seus técnicos, bem como dos representantes institucionais nacionais acima mencionados. Sobretudo deve-se destacar o trabalho de esclarecimento e orientação feito por esses organismos e instituições, que vem possibilitando a participação consciente e o engajamento dos moradores da Vila Mapiá na discussão de ações concretas direcionadas à busca de soluções para questões como: saneamento básico, lixo, manejo ecológico e sustentável da floresta, poluição das águas e lençóis freáticos, desmatamento, etc. Procura-se fortalecer as soluções que conciliem a necessidade de proteção ecológica com as necessidades de desenvolvimento econômico numa perspectiva de auto-sustentabilidade.

Não são suficientes, apenas, programas, planos e projetos, mas eles devem se originar de uma mentalidade e de uma ação “ecologizada”, que levem em consideração a ligação entre todos os sistemas vivos, o humano, o social, o ambiental e o espiritual. Trata-se, sobretudo, da restauração de elos perdidos, rompidos e degradados com a “Mãe Terra”, para que possamos habitá-la sem danos – a ela e a nós. Como disse Edgar Morin:
“…A Pátria é um termo masculino/feminino que unifica em si o materno e o paterno. O componente matri-patriótico confere valor materno à mãe-pátria, terra-mãe, para a qual se dirige naturalmente o amor, e confere poder paterno ao Estado ao qual se deve obediência incondicional. A pertença a uma pátria efetua a comunhão fraterna dos “ filhos da pátria”. Essa fraternidade mitológica é capaz de congregar milhões de indivíduos que não têm nenhum vínculo consangüíneo. E assim a nação restaura em sua dimensão moderna o calor do vínculo da família, do clã ou da tribo, perdido exatamente por causa da civilização moderna que tende a atomizar os indivíduos. Ela restaura no adulto a relação infantil no seio do lar protetor”. (Morin, E. e Kern 1995, p. 76).

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(*) Walter Dias Jr. nasceu em São Paulo, em 1954. Formou-se em Ciências Sociais pela PUC-SP, em 1984. Iniciou o curso de pós-graduação e suas atividades de docência em 1986, na mesma universidade, obtendo o título de Mestre em Antropologia Social no ano de 1992. Participou de mesas em diversos congressos, simpósios e seminários promovidos por instituições, tais como: a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Instituto de Medicina Social e Criminologia (IMESC) e o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas do Rio de Janeiro (NEPAD/UERJ). Foi assessor técnico da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE) e assistente de uma pesquisa realizada em Rio de Contas (Bahia) sobre categorias de Cor/Raça e Preconceito/Discriminação Racial no Brasil, trabalho desenvolvido sob a orientação do Dr. Marvin Harris, do Department of Anthropology – University of Florida (Gainesville). Também foi membro da Diretoria do Centro de Estudos da Religião (CER) – Duglas Teixeira Monteiro, associação sediada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), no período de 1992/93. Possui artigos publicados sobre os Apurinã de Boca do Acre (“A Questão da Terra”, in: Cadernos da Comissão Pró-Indio/SP n.º 2, ed. Global, S. Paulo, 1981) e sobre o culto ao Santo Daime (A Igreja Católica diante do pluralismo religioso no Brasil – III, Col. Estudos da CNBB – vol. 71, ed. Paulus, 1994; O Uso Ritual da Ayahuasca, Campinas, Mercado das Letras, 2002). Continua exercendo atividades de docência em Antropologia Social em diversos cursos de várias universidades do Vale do Paraíba, realizando constantes viagens de estudo e pesquisas sobre o uso ritual e medicinal de plantas de poder. Atualmente, é dirigente do Centro Eclético de Fluente Luz Universal Pastor do Oriente – CEFLUPO, igreja do Santo Daime/CEFLURIS, localizada em Pindamonhangaba (SP).
wdbuana@bol.com.br
http://www.ceudovale.hpg.ig.com.br/

Este texto foi revisado por Sandra Lucia Goulart, estudiosa das religiões ayahuasqueiras e autora de duas teses sobre o tema. É Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Mestre em Antropologia Social pela USP, além de pesquisadora do NEIP (Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos).
sgoular@uol.com.br
http://www.neip.info/

(**) A mesa redonda foi idealizada e organizada pela antropóloga Bia Labate, que prestou consultoria ao Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo. Foi composta por:
1 – Bia Labate – coordenadora e debatedora
2 – Débora Carvalho: O ritual daimista no Alto Santo e suas atualizações contemporâneas
Professora universitária e dirigente feminina do Centro de Iluminação Cristão Luz Universal de Minas Gerais, em Santa Luzia (MG).
3 – Walter Dias Jr: Céu do Mapiá: uma comunidade planetária ou uma Babel da Nova Era?
Mestre em Antropologia Social, professor universitário e dirigente da Igreja do Santo Daime Céu do Vale, em Pindamonhangaba (SP).
4 – Lucia Gentil: O uso da Ayahuasca no Centro Espírita Beneficente União do Vegetal
Antropóloga, geógrafa e Conselheira do Núcleo Lupunamanta, do Centro Espírita Beneficiente União do Vegetal, em Campinas (SP).
5 – Leopardo Sales Yawabané Huni-Kuin (Kawinawá): A força da jibóia. A tradição Huni-Kuin do Nishi-pae (ayahuasca)
Estudante para ser tornar pajé; lidera cerimônias de nishi-pae (ayahuasca) em São Paulo. É representante do povo Huni-Kuin do Rio Jordão, e vice-presidente do Instituto das Tradições Indígenas (IDETI).

6 – Yoshihiro Odo: O uso da ayahuasca no Brasil e os pajés brasileiros
Acupuntor da escola japonesa. Vem participando de sessões de nishi-pae (ayahuasca) com Leopardo Sales Yawabané Huni-Kuin (Kaxinawá) há um ano e oito meses, em São Paulo.
7- Elza Carolina Piacentini: A hoasca e o autoconhecimento: uma abordagem holística
Terapeuta transpessoal, dirigente do espaço Sollua e Mestre Dirigente do grupo hoasqueiro Luz do Vegetal, em Araçariguama (SP).
8 – Sthan Xanniã: Cerimônia da Bebida Sagrada
Mestre Xamã e terapeuta, lidera cerimônias de plantas sagradas, tenda do suor, busca da visão, danças de cura e canções de poder. É dirigente do espaço Filhos da Terra. Núcleo de Estudos e Terapia, em São Paulo (SP).

Cada representante cantou um canto da sua tradição, a exceção de Lucia Gentil (União do Vegetal), que afirmou que “na UDV não trazemos [entoamos] as chamadas [cânticos inspirados pela ayahuasca] fora do salão do vegetal [sessões com a hoasca]”. Outros convidados da platéia fizeram cantos, como Vera Fróes (Autora de História do Povo Juramidam, Suframa, 1983, e Madrinha do Luz da Metrópole, linha daimista do Padrinho Sebastião – Teresópolis, RJ) e Guilherme Gomes de Andrade (corpo instrutivo da Associação Beneficente Luz do Vegetal, liderada por Wilson Gonzaga – São Paulo, SP).

1 Comment

  1. luis eduardo pomar says:

    Muito bom pensar a comunidade! Parabéns!!!!