O consumo da ayahuasca por mulheres grávidas, em período de amamentação e por crianças é um dos capítulos mais polêmicos do uso da ayahuasca no Brasil. Embora o governo brasileiro tenha reconhecido, na última resolução de 2004, o direito de uso da ayahuasca por menores de idade e grávidas em contexto religioso, o assunto continua despertando controvérsia e permanece muito pouco discutido na literatura.

Na linha do Cefluris/Santo Daime, o Daime é consumido, ao lado de outras ervas medicinais, durante o parto, que é geralmente conduzido por parteiras locais. A criança recebe uma gota simbólica de Daime por ocasião de seu batismo e depois passa a participar de cerimônias especiais voltadas para crianças e, em seguida, para adolescentes, chamadas respectivamente de “trabalho de crianças” e “trabalho de jovens”.

Em linhas gerais, pode-se dizer que o consumo do Daime por menores de idade se dá em conjunção com a criação de uma identidade religiosa, mediada pelo aumento progressivo das doses segundo aspectos individuais (características pessoais do jovem) e determinados valores culturais grupais. Faz-se necessário a realização urgente de pesquisas etnográficas e biomédicas sobre este tema.

Veja abaixo algumas das resoluções oficiais e notícias sobre pesquisas em andamento ou concluídas sobre o consumo da substância por grávidas e menores de idade. Em seguida, leia uma entrevista com a Madrinha Cristina, parteira do Cefluris/Santo Daime, importante liderança daquela comunidade (hoje falecida), onde ela narra a utilização do Daime durante os partos.

A Resolução Nº 4-CONAD, de 4 de novembro de 2004, postula:

“CONSIDERANDO que a participação no uso religioso da ayahuasca, de crianças e mulheres grávidas, deve permanecer como objeto de recomendação aos pais, no adequado exercício do poder familiar (art. 1.634 do Código Civil), e às grávidas, de que serão sempre responsáveis pela medida de tal participação, atendendo, permanentemente, à preservação do desenvolvimento e da estruturação da personalidade do menor e do nascituro;”

O Relatório final do Grupo Multidisciplinar de Trabalho – GMT Ayahuasca – do Conad, apresentado em 23.11.2006, afirma:

“IV.VIII – USO DA AYAHUASCA POR MENORES E GRÁVIDAS.

“GRÁVIDAS
35. Tendo em vista a inexistência de suficientes evidências cientificas e levando em conta a utilização secular da Ayahuasca, que não demonstrou efeitos danosos à saúde, e os termos da Resolução nº 05/04, do CONAD, o uso da Ayahuasca por menores de 18 (dezoito) anos deve permanecer como objeto de deliberação dos pais ou responsáveis, no adequado exercício do poder familiar (art. 1634 do CC); e quanto às grávidas, cabe a elas a responsabilidade pela medida de tal participação, atendendo, permanentemente, a preservação do desenvolvimento e da estruturação da personalidade do menor e do nascituro.”

Não ha notícias de pesquisa sobre o uso da ayahuasca por grávidas e em fetos e crianças. No site da União do Vegetal (UDV), há a seguinte informação sobre uma pesquisa em andamento, entitulada “Efeitos da Hoasca na Gestação”:

“Com o objetivo de investigar os efeitos do chá Hoasca na gestação e no desenvolvimento de crianças nascidas de mães que o utilizaram durante a gravidez, um grupo de profissionais de saúde da UDV ligados ao Demec realizou na cidade de Fortaleza, Ceará, um estudo piloto retrospectivo. Através de entrevistas e aplicação de questionários e testes, procurou-se estabelecer a ocorrência de patologias obstétricas entre aquelas gestantes, além de avaliar o desenvolvimento neuropsicomotor das crianças nascidas dessas gestações. Os resultados obtidos necessitam de avaliação metodológica crítica e tratamento estatístico adequado para serem publicados”. Não foi possível obter maiores informações sobre o andamento desta pesquisa.

Para informações sobre a primeira e única pesquisa realizada sobre o consumo de ayahuasca por adolescentes, clique aqui.

ENTREVISTA COM A PARTEIRA MADRINHA CRISTINA
Curitiba/PR 2004

Por Adelise Noal Monteiro – médica e parteira

(Esta entrevista foi divulgada na lista “Hinos da Semana”, do Cefluris, dia 8 de agosto de 2005. A autora participou do Painel Arte de Partejar apresentado através da Associação C.H.A.V.E. Centro de Harmonia, Amor e Verdade Espiritual, no Fórum Social Mundial de 2005, sediado em Porto Alegre. Adelise ganhou o I Prêmio Nacional Amigas do Parto 2005).

Adelise – Como começou seu trabalho de parteira? Como a senhora
aprendeu?

Madrinha – Rapaz!… o trabalho começou pela intuição, meu padrinho me mandou, pra eu fazer um parto com o Santo Daime e eu fiz. Chego lá, faço as minhas preces a Nossa Senhora do Bom Parto, acendo o ponto da vela junto com o Santo Daime e aí início, rezando a prece. Dou um pouquinho de Santo Daime pra mulher e nós ficamos ali, dando aquela assistência a ela conforme as contrações que ela vai sentindo. Porque às vezes vêm as contrações e não é a hora do parto. Quando dá a primeira dose do Santo Daime ele vem e controla. As vezes passa o dia, quando é no outro é que vai iniciar. As vezes é pra logo e então, em pouco tempo antes de terminar a vela o trabalho tá realizado. Aí eu dou a segunda dose, vem vindo as contrações e eu vou ajudando também. Quando chega a hora, o nenê vem fácil, eu pego. Depois vem a placenta.

Adelise – E os instrumentos?

Madrinha – Os instrumentos, eu mesma faço. Depois que nasce o nenê, eu não corto o cordão em seguida, deixo ele ali. Aí, vou rezando as minhas preces, mexendo na mulher manipulação do abdômen, massagens) pra placenta descer, quando ela desce, aí, eu vou e corto. Corto com tesoura, pinças que me deram. Amarro com um cordão, coloco o Santo Daime com algodão. Faço isso até cair. Todo dia molhar com Santo Daime.

Adelise – Como a Senhora aprendeu o ofício de parteira? Como foi seu primeiro parto? Quem lhe ensinou?

Madrinha – Eu assisti em mim mesma, que a minha sogra fez e eu prestava atenção. Depois eu já era ajudante dela.

Adelise – A sua sogra era uma parteira! Como era o nome dela?

Madrinha – Maria, Maria Francisca das Chagas, já faleceu.

Adelise – Morava no Mapiá?

Madrinha – Era a mãe do meu esposo, aí aprendi com ela. Ela foi ficando velha e passaram pra mim e eu fui fazendo e fui passando pra outras.

Adelise – Pra quem que a senhora passou?

Madrinha – As que estão com a gente. A Maria Brilhante, sua filha Osmarina também. A Dalvina e a Maria Francisca. Elas aprenderam com a mãe delas que também era parteira. A Maria Corrente. A Maria Nogueira a mais antiga, chamada para os partos mais complicados. Ela é rezadeira. A Silvia, minha filha e a Rosa acompanham, dão assistência as parteiras. Assim a gente vai aprendendo umas com as outras. A gente se reúne, aí fica junto (ficar junto com um sentimento de comunhão). E agora apareceu na nossa comunidade uma médica. Então, ela ajuda mais porque é médica.

Adelise – Quando uma mulher entra em trabalho de parto vocês vão juntas?

Madrinha – Não, vai uma ou duas pra auxiliar. Depois a gente vai lá fazer uma visitinha. Porque ninguém quer muita gente, é bom pouquinha gente pra dar assistência ali. A gente sempre se reúne e conversa quando tá junto, passando como é e tal… Aí cada uma tem as suas
entidades que acompanham a gente e que pode ajudar naquele trabalho.

Adelise – Nesse sentido espiritual, quem a senhora buscava quando fazia
os partos?

Madrinha – Rapaz!… Eu sempre busco Deus primeiramente nas alturas e
meu Padrinho foi quem me deu essa virtude aqui na terra.

Adelise – Padrinho Sebastião?

Madrinha – Sim, e também a minha sogra, porque eu aprendi com ela e eu sinto ela ao meu lado. E o meu protetor, que eu também tenho, o meu anjo da minha guarda, meu guia espiritual.

Adelise – Quantos partos a senhora fez?

Madrinha – Uns 50 partos. Aí parei. Quando me chamam eu boto outra, porque peguei esta doença aí. Ela tem DBPOC – doença pulmonar obstrutiva crônica. Pra fazer parto é preciso ser sadio. As vezes o nenê nascia e eu não tinha os aparelhos. Era preciso colocar a boca pra
tirar as secreções do nariz, puxar pra ele respirar. Eu fazia tudo isso porque não tinha os aparelhos.

Adelise – Quando tinha laceração do períneo, como fazia?

Madrinha – Ficava assim mesmo, fazia cozimento de ervas, banho de assento todo dia, de manhã e de tarde. Passava mercúrio e até o Santo Daime no local.

Adelise – Quais as plantas usadas?

Madrinha – Cajueiro, algodoeiro, as folhas. Ia cicatrizando, era assim, tudo naturalmente.

Adelise – A senhora teve algum problema de hemorragia no parto?

Madrinha – Graças a Deus não. Já nasceram dois nenês de bunda.

Adelise – A senhora nem sabia?…

Madrinha – Nem sabia, quando vi fiquei admirada. Mas aí tem que confiar. Botei a mulher num assento, num banquinho. Porque deitada é muito ruim. Ou até de pé mesmo. Seguro… A mulher faz força e mando abaixar… Uma delas, foi a filha do Padrinho e outra senhora lá. Mas
foi rápido, foi saindo, eu fui ajudando com a mão e com o dedo, na força… A gente pega… não é como no hospital… e dá assistência a mulher e o nenê durante 8 dias depois do parto. Fico cuidando do nenê, dando banho, cuidando do nenê até o umbigo cair. Só depois vai. Sendo perto de casa, a gente vai todo dia, até completar 8 dias.

Adelise – E fica durante todo trabalho de parto com a mulher ali?

Madrinha – Todo tempo. Ninguém sai. A gente fica, dá um purgante. Óleo de rícino e chá de laranja.

Adelise – Massagem a senhora faz?

Madrinha – Fazia sim. Apalpava… balanço nas cadeiras na hora da contração… É muito bom! As mulheres dizem:

– Ai Madrinha! Chega aqui!… Passa a mão aqui!… Que alívio!

Adelise – E o Daime, como a senhora avaliava a dose a ser tomada?

Madrinha – As vezes eu dava assim… Primeira dose dois dedos. Na primeira hora, se acelerava, dava mais um dedo. Se a contração aumentava, eu dava mais um pouco, um dedo, de meia em meia hora. As vezes é rápido. E tem vezes que depois da primeira dose, o Daime
acalma. Parece uma força de lua, uma coisa que o nenê tá sentindo. E as vezes passa uma noite e volta no outro dia e recomeça a tomar o Daime, e vem…

Adelise – E o período expulsivo como a senhora conduzia?

Madrinha – A hora que dá vontade de empurrar… Toma o Daime mais um
pouquinho… as vezes fica ali, vai e volta, e com o Daime… Tuft!… E sai mesmo. A placenta se demora, com o Daime sai. Vai balançando o cordão. E ela vem, se puxar… Aí, fica tudo limpinho. Peguei meus netos, todos os bisnetos e outros. Um punhado de gente. Eu sou a mamãe velha!…

Adelise – Quando a senhora fazia os partos, trabalhava com alguém lhe auxiliando?

Madrinha – Com uma filha ou sempre com a assistência daquelas que fazem
parto também, a Dalvina que a mãe dela também foi parteira. Nós duas juntas, era uma beleza! Ela tem a força dela, eu tenho a minha. A gente junta as duas forças. Ela sabe como é. Fica tudo mais fácil.

Adelise – A senhora nunca fez parto sem o Daime?

Madrinha – Nunca fiz. Só os meus, dos primeiros filhos foram sem Daime.

Adelise – Então a sua sogra já era parteira antes do Daime?

Madrinha – Depois que eu passei pro Daime, mudou o ritmo da gente com o Santo Daime. Tinha a bebida e era natural o nascer.

Adelise – Como a senhora combinava para fazer o parto? Acompanhava a gravidez ou era só na hora do parto?

Madrinha – As vezes eu tava em casa quando chegava alguém:

– Madrinha! Mandaram buscar a senhora para fazer um parto. E eu ia. As vezes nem conhecia. Ali no Purus. As vezes no trabalho de Daime começava e eu tinha que sair do trabalho para fazer o parto. Era assim, eu não dei assistência os nove meses. A gente dava umas orientações
quando elas pediam e algumas massagens. Só agora com a Guete, se faz isso. Ela é médica.

Adelise – E o material para fazer o parto?

Madrinha – A gente comprava uma tesourinha… queimava com álcool. O cordão umbilical prendia com cordão

Adelise – Quando aparecia uma mulher com parto complicado ou gravidez de risco, como vocês descobriam o problema?

Madrinha – A gente via e levava pra Boca do Acre. Mas eu, graças a Deus, no tempo que eu pegava menino, nunca tive este problema. Agora tem uma médica lá, que faz o encaminhamento, se precisar. Na floresta a gente tem que se socorrer com o Senhor Divino, com Deus e tomo Daime e expulso tudo. Muita gente sangra muito, toma Daime e fica bom.

Adelise – O que a senhora entende sobre a ação do Daime na hora do parto? Como ele funciona? Ajuda na força da contração, no alívio da dor, na mãe que fica calma?

Madrinha – Ele ajuda, funciona muito bem. A gente reza confiando em Deus, primeiramente, que está nas alturas e naquela bebida que a gente consagra, um Ser divino, na Virgem Mãe Soberana que é nossa guia. Nós chamamos pela Virgem Soberana Mãe e o Nosso Patriarca, e eles vêm nos ajudar. E eu acho que ele dá aquela força muito boa, expulsa muito bem,
cuida muito bem. Porque o invisível é coisa que a gente não vê. Ele chega e faz o trabalho e você fica até admirada! Agora, o invisível é coisa que a gente não pode explicar pra ninguém. A Nossa Santa Maria, a Nossa Santa Mãe de Deus que nos ajuda a dar calma e paciência e é a
Nossa Diretora de todo nosso trabalho, que sem a Mãe nós não somos nada. Só é com o Pai, a Mãe e o Filho e o Espírito Santo que é o Divino e com esses nós estamos aqui. Não posso dizer que não estou com estes seres porque é quem nos acompanha. Consagro no meu coração e serei eternamente filha de Deus.

– Desculpe sou chorona! Me emocionei…

Adelise – Não Madrinha, a senhora é uma flor! É que o parto tem uma intensidade emocional muito grande, então, a senhora, lembrando de tudo…

Madrinha – É coisa muito fina mesmo, a gente ali tá, chega na hora do parto, a responsável por tudo é a gente e na floresta principalmente. Por isso que eu digo, eu confio nos seres que me acompanham. Se eu não confiasse, eu não faria. Por que eu não sei, quem sabe é ele, o Daime. Ele me ensina, e eu faço. E aí, eu apresento o saber que ele me ensina!

Adelise – A senhora chegou a fazer partos em mulheres que não eram do Santo Daime? Ou todas sempre eram da comunidade?

Madrinha – Não, eu fiz sem ser do Santo Daime.

Adelise – Então a senhora levava o Daime pra elas tomarem?

Madrinha – Levava, se ela quisesse com o Daime eu fazia, se não quisesse eu não fazia. Só se o menino estivesse saindo eu pegava, mas dizia também que eu não era responsável.Com o Daime, eu sou. – Quer tomar o Daime? Se ela falava quero… Então, tomou… Aí eu ficava tudo bem, aí muda tudo, Porque a gente tá com o Daime e ele é quem… Mais sem o Daime… Rapaz! Sem o Daime, eu não faço parto não! Se ela diz: –
Eu quero. Aí eu dou.

Adelise – As que não eram da comunidade e tomavam o Daime no trabalho de parto, como reagiram, o que elas disseram?

Madrinha – Muito bem, se sentiram muito bem, carinhosas!… Também eu dou de conformidade porque eu não vou… Eu dou pra ajudar a fazer o parto. Depois, se ela quiser continuar, né… Se não quiser… As vezes continua, as vezes não. Só vem na hora da história mesmo e deixa… Isso é de cada um, mas o meu trabalho, eu só apresento com ele.

Adelise – Quais são as outras coisas que a senhora faz durante o trabalho de parto?

Madrinha – Defumação. Eu faço aquela defumação no quarto. “Defuma esta casa bem defumada, com a cruz de Deus ela vai ser rezada”. Aí a gente defuma todo quarto, defuma a mulher também. Isso é uma ajuda espiritual. Afasta também aqueles espíritos que estão ali nos arrodeando para incorporar naquele ser que vai nascer. A gente fica chamando as coisas boas, cantando hinário, liga o gravador, cantando os nossos hinos, as nossas chamadas. Boto o hinário do Padrinho Sebastião, da Madrinha Rita, bota do Mestre Irineu, do Padrinho Alfredo, aí vem chamando até que chega o nenezinho. Todo mundo feliz, satisfeito. Então esta defumação, são as ervas que nos ajudam a afastar as coisas ruins que nos arrodeiam. A gente só chama coisa boa.

Adelise – A senhora lembra de algum parto que lhe chamou mais atenção e que quisesse contar pra nós?

Madrinha – Só esse mesmo de dois, que precisou ir na maternidade. Lá na Cinco Mil ainda -perto de Rio Branco, no Acre. Porque teve o primeiro, foi normal, mas o segundo quando veio, eu não tinha feito nenhum parto assim de dois. Ele botou só a mão e eu não sabia movimentar nem nada, ainda até levei lá. O médico tinha dito pra mulher que um estava bem e o outro atravessado, que ela fosse ter no hospital, mas ela não queria ir. Aí eu disse, vou pegar o menino, mas se houver um problema na hora eu mando levar e assim a gente fez. Levamos, teve que operar.

Adelise – Deu tempo de salvar o nenê?

Madrinha – Não, quando chegou lá, ele faleceu. Só esse, por aí eu fui ficando meio… Esse negócio de dois eu não quis saber não. Mas já faz anos, foi quando eu comecei. Agora já os meninos, tá tudo grandão, os que eu peguei. Só esse, o resto tudo foi bem.

Adelise – Quanto tempo faz que a senhora parou de fazer parto?

Madrinha – Acho que foi do Artur o último. Faz 7 anos. Lúcia Arruda (acompanhante da Madrinha) – Mais sempre ela dá assistência.

Madrinha – Uma assistenciazinha ali…

Lúcia – O pessoal confia muito.

Madrinha – De eu estar lá.

Lúcia – O pessoal pede, mesmo que a senhora não pegue, esteja perto.
Que ela dá ajuda as parteiras mais novas, então, mesmo que ela não
esforce…

Adelise – Ela dá segurança.

Madrinha – Dou segurança ali.

Lúcia – “Faz isso menina. Manda a mulher pra deitar.” Eu já vi ela fazer esse trabalho, e sei que é muita intuição. Ela tem muito jeito. Pra cada caso… não é uma coisa técnica, igual pra todas. Ela tem aquela sensibilidade para saber o que a mulher precisa. Mulheres mais
agitadas, ela consegue acalmar. Mulheres que são mais moles, ela já agita pra mulher não dormir. Ela tem a sensibilidade pra saber se está perto, se vai demorar, coisas que o olho dela vê. O olho já espiritualizado nesse sentido. As vezes, é engraçado, ela descobre quando a mulher tá grávida e a mulher nem sabe ainda. As próprias mulheres que estão gestantes confiam muito nela, as vezes mais que em médico. Então, isso não deixou que ela deixasse de vez, se aposentasse dessa tarefa. Tem casos que a mulher grávida diz: “Madrinha, eu quero
que a senhora esteja. A senhora tem que estar!” Ultimamente ela não tava nem bem, com falta de ar. Uma mulher foi ter nenê, foi preciso ela ir, foram buscar. Foi ela botar o pé lá. O nenê foi nascendo. Só a presença dela assim dando força, sabendo dar uma dose boa de Daime.
Porque o Daime sabe, na hora da contração. Aí o Daime vai, e dá pra mulher o que ela precisa. A calma ou a força, e a Madrinha tem muito essa sensibilidade intuitiva. Quando começou a chegar a medicina, eu notei que as próprias parteiras ficaram mais inseguras. Quando era só elas na comunidade, não tinha pra onde correr, só elas mesmas. Mas agora como chegou médico, elas já ficam mais inseguras ou as próprias gestantes também ficam mais medrosas. Tudo isso tem. Chegou uma modernidade e as próprias gestantes vão procurar o centro médico, têm medo, vão fazer cesariana essas coisas todas que chegou.

Madrinha – Mas a Guete (médica da comunidade) também é com o Daime. Ela entra com a gente também. Ela dá uma força também. Se precisar cortar ela sabe, pontear também. A gente dá a assistência pras irmãs, mas nenhuma de nós temos documento de ser parteira profissional. Só parteira da nossa comunidade. A gente é chamada pra aqui e acolá, e a
gente vai.

Adelise – A senhora sabe se já tem uma parteira do Daime no Juruá?

Madrinha – Sei não, eu fui lá só uma vez, logo quando começou, quando abriu. Agora nunca mais. Mais elas normalmente andam umas com as outras, as irmãs nossas com as outras caboclas. Tem muita velha, idosa, antiga. Isso tudo é velho e sabido. Lá é que é bom fazer essas coisas com aquelas velhas lá. Ir lá, dá uma viajada lá, É uma beleza assim… De conhecer, vai lá você um dia, mais a turma aí. Pois é, tem que dar uma combinada aí com o Padrinho Alfredo e vai fazer estes trabalhos lá.

Adelise – E a Madrinha Rita tem este ofício?

Madrinha – Não, parteira não. Ela tinha a mãe dela que era minha sogra, mãe do Neo que era parteira.

Lúcia – Já é falecida a Mãinha, mãe da madrinha Rita e do Padrinho Neo. Ela que era a grande parteira da família que ensinou pra Madrinha Cristina.

Adelise – Como era o nome dela?

Madrinha – Maria Francisca das Chagas.

Lúcia – Ela tinha todo material necessário. Uma balancinha.

Madrinha – Quem tinha era a Dona Maria Corrente, mãe da Dalvina. Quando ela faleceu passou pra mim. Ganhei dela. Mas a gente dá pra uma, dá pra outra, e quando vê, perderam. A Dona Maria Corrente tinha a bolsa que ela fez lá em Rio Branco.

Adelise – Ela fez um curso de parteira?

Madrinha – Eu acho que sim, que ganhou a bolsa… Mas tá bom. Depois vocês… Pra frente todos chega… Uma nova documentação…

Adelise – Então, a Maria Francisca da Chagas, mãe da Mad. Rita, Pad. Neo e Mad. Júlia é quem a senhora considera como sendo a primeira parteira, a mais antiga?

Madrinha – Pra mim foi, que eu aprendi com ela. Ela fazia em mim, por mim, eu via ela fazendo em mim.

Adelise – Quantos filhos a senhora teve?

Madrinha – Eu tive 14. E ela foi quem… Só dois que eu não tive com ela. Fui pra maternidade no primeiro e o segundo tive na casa da minha mãe. Aí depois, foi só com ela mesmo. A família foi crescendo e eu não podia mais sair de casa e ela sabia fazer. Eu disse: – É aqui mesmo. O resto todos foi com ela.

Adelise – E quando é que começou a usar o Daime nos seus partos?

Madrinha – Meu mesmo, só tive o último com o Daime. Os outros todos nãousava Daime, ainda.

Adelise – Ela usava alguma erva?

Madrinha – Só usava o purgante de mamona com chá de hortelã, chá de sene…

Adelise – E as ervas pra fazer banho de assento?

Madrinha – E estas ervas que a gente fazia os banhos de assento… Só
isso.

Adelise – A senhora pode repetir pra mim?

Madrinha – Folha de algodão, casca de cajueiro. A gente bota pra cozinhar, faz aquele chá, uma pitada de sal, um óleo de andiroba, copaíba que a gente faz. Tudo isso é cicatrizante. Também as garrafadas de cachaça, tomilho, alfazema que a gente fazia. Outras ervas pra toda hora que tomava banho, tomava um dedinho, pra fazer uma limpeza por dentro. Nesse tempo que a gente não tomava Daime.

Lúcia – Então, está tendo uma transformação. Por exemplo, as mulheres que estão tendo nenê hoje, ficam até sentidas, porque elas não tem mais aquelas parteiras fortes como tinha… A Madrinha Cristina, a Maria Nogueira, parteira que a mulher confiava, sabia que o negócio era
curto. Hoje em dia não está tendo uma formação assim como a Mãinha que passou pra Madrinha Cristina. Não sei a madrinha Cristina já espalhou muito. Mas não sei se despertou uma como ela. As filhas dela são todas muito jeitosas, mas não sei se tem uma que tenha recebido da senhora o bastão, a vocação. Será?

Madrinha – A Sílvia, ela se dedica para as outras mulheres.

Adelise – Mas a Sílvia chega a fazer parto?

Madrinha – Sozinha não.

Lúcia – Sozinha não, mas ela tinha aquela presença, quando ela chega ela sabe administrar um Daime, ela sabe fazer uma massagem na mulher. São presenças, para um parto caseiro, muito importante. Faz uma reza, faz uma corrente, percebe no ambiente se a mulher esta esmorecendo. Parto em casa precisa da corrente das mulheres. Embora, que são partos
muito naturais, muito silenciosos. Tem uma coisa interessante, você só contagia com a presença da criança, diz o sexo, depois que a mulher desocupou. Antes disso o trabalho tá fechado ainda, nenê já nasceu. A madrinha também é muito jeitosa com o nenê. Mesmo que ela não esteja fazendo o parto, o pessoal quer que ela esteja ali pra pegar o nenê.
Parto normal, tudo bem ritualizado.

Adelise – O que é desocupar?

Madrinha – É a saída da placenta. Aí eu rezo uma prece:

“Minha Santa Margarida, não sou prenha

nem parida, me tira essas carne morta, que

eu tenho dentro da minha barriga, que eu

quero passar pelo rol das paridas.”

Aí dá uma cutucadinha na placenta, na barriga…

Lúcia – Se for preciso, mais um Daimezinho.

Madrinha – Mais um Daimezinho… Manda se levantar um pouco, ficar em
pé um pouco também. Aí fico ali, dou um Daimezinho, dou massagem, mando
sentar de novo. A gente bota água quente num vaso, manda sentar em cima
e observar, quando demora… quando não demora. Logo… De repente vem.
Depois de sair, aí fica todo mundo animado. Aí a animação reina na
casa.

Lúcia – Tem um ritual também, quando o nenê tá nascendo a gente canta o
hino do Mestre Irineu.

Madrinha – Sol, Lua, Estrela. Quando ele vem apontando, vem saindo…
Shuuummm! Aí ele sai…

Lúcia – Então eu acho, que é mais uma força espiritual que chega. Na hora, ela tem o dom de curandeira, tem aquele olho bom pra saber o que precisa naquela hora. Que é mais essa sensibilidade… Não é uma coisa técnica.

Madrinha – A intuição é quem manda na hora, né.

Lúcia – A intuição não só pra parto, todo mundo quando tem nenê sente.

Madrinha – Os caboclos, revela tudo. As vezes tem muita gente que atua nos aparelhos, se vê os caboclos atuados, na hora que a gente tá no trabalho espiritual. A gente não sabe nem explicar, mas você, porque toma Daime, também sabe, e faz o parto também, sabe como é… Então, não tem nada pra explicar, já tá tudo dito.

Num outro momento da entrevista Lúcia canta um hino presenteado para a
Madrinha Cristina

Estou aqui, estou aqui,
Porque Deus me determina
Eu estou com a Virgem Mãe,
Meu Padrinho e minha Madrinha

Meu Padrinho e minha Madrinha
Eu quero vos agradecer
Por essas lindas palavras
Que me fez renascer

Na alegria e na esperança
Dentro do meu coração
De receber a vida
Através da respiração

Confia, confia, confia
Nas minhas palavras
Que há muito tempo eu deixei contigo
Através da linda mensagem

Mesmo com todo sofrimento
Não queira esmorecer
Te firma na vida nova
Que a mensagem vem dizer

Madrinha – É este o presente.

Lúcia – Na Nova Jerusalém, o hino que é o presente da madrinha Cristina é a Mensagem que fala da vida nova. Então aí, passado esse tempo… A Nonata, num trabalho forte dela, recebeu esta mensagem diretamente dele, do Padrinho Sebastião, pra entregar pra Madrinha, reforçando a fé, a esperança de uma cura, de uma melhora.

Madrinha – Acho que ele tá por aqui!

Madrinha Cristina contando um pouco da sua história

– A Madrinha Rita casou com o Padrinho Sebastião, ficaram morando lá…
E o Neo veio pra Rio Branco com o pai dele. A D. Maria Francisca das
Chagas e o pai dele, a Júlia, a Tetê e o Neo. Aí vieram morar lá no Rio
Branco, perto da gente. Aí eu conheci eles. E por aí começou tudo! Aí
casei com ele, com o Neo e fui morar na Colônia Cinco Mil. Aí o
Padrinho quis vir aonde estava o seu Idalino com sua família. E veio…
Quando ele chegou na Cinco Mil eu tava morando lá. Já tinha a primeira
filha que é a Sílvia. Foi quando eu conheci os dois, (Padrinho
Sebastião e Madrinha Rita).

Quando ele chegou eu já sofria muito, sofria de muita coisa e ninguém
sabia o que era. No fim, quando ele chegou, ele já trabalhava no
espiritual, sem Daime mesmo. Porque ele começou sem Daime. Com Daime
que ele recebeu mais coisas. Aí foi pra minha casa e lá ele viu e
começou a me tratar. Fazer aqueles trabalhos e tal… Então, eu senti
que fui melhorando daquelas coisas que me perseguiam. A gente quando é
espírita, as vezes nem dá fé, chegam aquelas coisas… leva pancada,
leva dor, e grita, e… As vezes são os espíritos… Daí pra cá ele foi
me desenvolvendo e tal. Aí fui melhorando e me agarrei com ele, segura
mesmo e tô aqui. Sofrendo mais sou feliz. Porque tenho ele no meu
coração, entreguei meu amor a ele. Embaixo de Deus, de Jesus e ele na
terra que me ensinou. Através de Jesus, mandaram tirar eu daquela
escuridão que é coisa ruim. Aí fiquei com ele. Depois ele entrou no
Daime, botou nós e eu tô feliz de tomar este líquido.

“Quem não provou, venha provar,

esta bebida que aqui está.”

Tu conhece o meu hinário?

Adelise – Conheço. O Parto que fiz da Cristal, filha da Elisa e do
Roberto em Dois Irmãos, na primeira fase do trabalho de parto, nós
escutamos o seu hinário.

Madrinha – Ah!… Então, foi bom! É um pouco sofrido meu hinário… que
eu também sofri muito… até ver, sentir… mas tô bem…

Madrinha Cristina contando sobre sua família

– 14 filhos, 36 netos, 9 bisnetos e a vizinhança da comunidade que tem
umas quatrocentas pessoas. Quase todos me consideram como uma madrinha,
uma mãe. Aí, to aí… Nós que leva junto com a Madrinha Rita e o
Padrinho Alfredo. Não é fácil!

Adelise – A senhora chegou a fazer parto com os pais participando junto?

Madrinha – As vezes eles estão em casa, as vezes estão viajando.

Adelise – Quando estavam junto eles ajudavam?

Madrinha – Ajudam. Eu chamo pra segurar a mulher, pra eles ver também.
Pra eles ver o movimento da história como é e, pra sentir um pouco o
que uma mulher passa. Muita coisa, né? Pra dar valor ao nascimento.
Eles ficam contentes, tem deles que choram.

Adelise – A senhora percebeu alguma coisa excepcional que relacionou
com o fato de usar o Daime no parto?

Madrinha – Esse do nenê que nasceu de bunda, porque eu tenho isso como
um milagre. Um milagre que eu vi se realizar assim, de repente. Com isso a gente fica mais contente, né? Todo serviço com o Daime acaba ficando todo mundo bem, não dá hemorragia, a criança nasce bem, fica viva, graças a Deus tudo tem sido bem.

Adelise – Quando a senhora fazia parto, dava Daime para todos os que estavam na casa ou só para a mulher grávida?

Madrinha – Dou para os assistentes todos. Se tem três ou quatro pessoas, todos tomam.

Adelise – Mas não na mesma freqüência que a mulher grávida?

Madrinha – Não, ela é mais, e a gente que tá assistindo ali…É umas duas ou três pessoas no quarto, o restante fica lá fora pra o que a gente precisar, chamar. Mas todos tomam Daime, trabalhando na casa e o hinário rola, a gente bota as fitas pra tocar e então a gente canta. As
vezes tá com disposição e a gente fica cantando, é bom.

Adelise – Então, madrinha obrigada pelo seu tempo, onde a senhora contou um pouco da sua história, seu trabalho de parteira, dessa sua vocação.

Madrinha – Nada, eu é que agradeço de você escutar essas palavras
cansadas. Também que eu me acho um pouco cansada pra explicar, também
não sei conversar muito…

Adelise – Mas o que importa é sua sabedoria…

Madrinha – Mas a sabedoria divina que Deus me dá, eu… não tenho que
negar, não é?

Adelise – Isso mesmo, então, muito obrigada.

Madrinha – De nada querida. Que Deus abençoe você.

1 Comment

  1. lirio jardim says:

    Algo de divino nessas formas ancestrais de se auxiliar mulheres em trabalho de parto. Viva as mulheres e as crianças; a madrinha parteira, vivíssima, show de sensibilidade e exemplar confiança no daime. Que bom que outras madrinhas têm hoje a oportunidade de se formar em medicina: podem unir razão e sensibilidade. E fé.