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Debate sobre xamanismo enche auditório na Universidade Federal de Santa Catarina

Por Isabel Santana de Rose

O Diálogos Transversais Xamanismos e neo-xamanismos como categorias dialógicas, organizado pela professora Vânia Cardoso e promovido pelo PPGAS/UFSC foi realizado no dia 25 de setembro, na Universidade Federal de Santa Catarina. O evento contou com a participação dos professores Esther Jean Langdon, Marnio Teixeira Pinto e Oscar Calavia Saez e da doutoranda Isabel Santana de Rose.

Jean Langdon discutiu a expansão contemporânea do xamanismo, argumentando que o crescimento dos rituais xamânicos praticados por grupos não indígenas em centros urbanos força a revisão dos modelos analíticos sobre xamãs e xamanismos, termos usados no plural para enfatizar que é impossível essencializar o fenômeno. Para ela, enquanto, ao menos durante certo período, os antropólogos enfatizaram a natureza indígena do xamanismo, implicitamente assumindo que este é um fenômeno que se desenvolveu ao longo do tempo em grupos que podiam ser pensados como cultural, temporal e geograficamente contíguos, o “movimento global heterogêneo” do neo-xamanismo introuduz no xamanismo elementos não indígenas e vindos de diferentes lugares e contextos, mostrando que este não é apenas um fenômeno indígena, devendo ser pensado como uma categoria dialógica que emerge na interação entre diferentes atores, sendo que seus significados são negociados nas fronteiras das sociedades indígenas locais e suas interfaces com as sociedades nacionais e globais.

Isabel de Rose falou sobre sua pesquisa de doutorado em andamento, sugerindo que a interação entre um grupo indígena Guarani do litoral sul de Santa Catarina, o grupo neo-xamânico Fogo Sagrado de Itzachilatlan, mais comumente conhecido como Caminho Vermelho, e a igreja do Santo Daime Céu do Patriarca São José constitui um exemplo da idéia da emergência dialógica do xamanismo proposta por Langdon. As “alianças” entre esses diferentes grupos formam uma estreita rede de relações na qual todos os atores envolvido devem ser vistos como dotados de agência, possuindo discursos e interesses próprios. Estes interesses, assim como o significado atribuído aos diferentes elementos materiais e simbólicos que circulam no âmbito dessa rede, são negociados na interação. Para Rose, casos contemporâneos como esse nos levam a questionar a idéia de culturas homogêneas com fronteiras claras e bem definidas, indicando, como argumenta Langdon, que talvez o xamanismo seja melhor compreendido como um diálogo, um fenômeno constantemente emergente, que se cria e recria a partir dos diálogos entre atores num mundo pós-colonial e pós-moderno.

Marnio e Oscar foram os debatedores dessas duas falas. Marnio colocou duas dimensões do xamanismo: o xamanismo como cosmologia, marcado principalmente pela possibilidade de ver o mundo de outra forma, sendo que esta mudança de percepção geralmente está vinculada à introdução de substâncias no corpo; e o xamanismo como instituição, relacionado à uma “metafísica dos costumes”. Este professor também apontou para a existência de um diálogo entre a busca de “autenticidade” nos povos indígenas por parte dos participantes dos movimentos neo-xamânicos e um processo geral e global de busca de “resgate cultural” por parte dos povos indígenas. Referindo-se especificamente ao caso dos Guarani mencionado acima, ele afirmou que embora, de certa maneira, a apropriação da ayahuasca por este grupo possa ser pensada como uma forma sui generis de neo-colonialismo, de forma alguma os indígenas devem ser vistos como ingênuos neste processo.

Já o professor Oscar questionou a idéia um tanto generaliada de que os povos indígenas brasileiros não teriam parte expressiva na formação da cultura brasileira, sugerindo que a presença indígena aí é oculta. Ele também mencionou a clássica dicotomia entre xamanismo e possessão, perguntando se ela não continuaria vigorando, já que hoje a palavra xamanismo pode ser empregada para “quase qualquer coisa”, exceto para o amplo universo dos cultos mediúnicos. Finalmente, Oscar comentou que a imagem do xamanismo no Brasil está muito ligada à visão, remetendo aqui à discussão sobre o papel da ayahuasca, porém há xamanismos que enfatizam outros aspectos.
Talvez a grande platéia atraída para este evento, assim como o amplo debate que se seguiu às falas comentadas acima, possam ser vistos como mais elementos para os argumentos da professora Jean. Enquanto a renovação do interesse nos estudos do xamanismo que aconteceu na antropologia na década de 70 esteve vinculada a um interesse geral por estados modificados de consciência, atualmente o tema extrapola em muito os limites da antropologia e da própria academia, o que se evidencia em parte pela ampla disseminação dos termos ‘xamã’ e ‘xamanismo’ e os muitos sentidos que hoje são atrubuídos a eles.

Mesa discute Xamanismo e Neo-xamanismo

Vânia Cardoso

Jean Langdon

Oscar Calavia Saez

Marnio Pinto e Isabel Santana de Rose