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Dependentes usam chá do Daime para se livrar de drogas

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd2410201101.htm

Casos ainda estão em estudo pelos médicos, que não sabem qual é o efeito da bebida psicoativa sobre o vício

Usuário de cocaína diz que vontade de se drogar sumiu após o chá; médico alerta para risco de morte
Caio Guatelli/Folhapress
Bebida é preparada em centro em Mogi das Cruzes, SP

CLÁUDIA IZUMI
DE SÃO PAULO

Alcoólatras crônicos e usuários de drogas ilícitas, que se identificavam como “sem solução”, afirmam terem abandonado décadas de vício com o chá ayahuasca, conhecido como Daime.
O tratamento com o chá não é divulgado publicamente. As recomendações correm de boca em boca só entre os membros de grupos religiosos que usam a bebida, como o Santo Daime e a União do Vegetal, além de dissidentes.
Médicos e cientistas ainda estudam os efeitos da bebida para saber a causa da suposta eficácia contra o vício.
Dois ex-dependentes afirmaram à reportagem que tomaram conhecimento do chá por indicação de psiquiatras que frequentavam os rituais (para entrar nas seitas, o novato geralmente é apresentado por um membro).
“Pessoas que ingressaram nos grupos do ‘vegetal’ milagrosamente largaram a bebida depois de 30 a 40 anos de alcoolismo”, diz o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, do Proad (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes), da Unifesp.
O médico, que não indica o chá como tratamento, afirma que o próprio ritual pode ter algo a ver com a recuperação dos dependentes.
“Sabemos que o contexto religioso protege as pessoas das drogas, mas suspeito que não seja somente isso.
Há um efeito químico nisso tudo, que ainda não foi pesquisado”, diz o psiquiatra.
O doutor em farmacologia João Ernesto de Carvalho, coordenador da Divisão de Farmacologia e Toxicologia do CPQBA (Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas), da Unicamp, também não tem explicações para justificar o fim da dependência.
“Sob o ponto de vista farmacológico, a pessoa teria de tomar doses diárias do chá, como se ele fosse um antidepressivo, o que não ocorre.” Os rituais são realizados, em média, duas vezes ao mês. “Não sei explicar como parei”, diz o publicitário Benito Alvarez Rizi, 55, que começou a tomar o chá há cinco anos.
Antes do processo de limpeza, Rizi cheirava cocaína e entornava bebida alcoólica a ponto de ficar cinco dias seguidos acordado. “Desde que comecei a tomar o ‘vegetal’, a vontade de me drogar sumiu da minha cabeça.”
A dúvida é se a ayahuasca pode ter um efeito adverso e criar, por sua vez, uma nova dependência.
“O que pode existir é a dependência psicológica”, diz Xavier. “Não é uma droga do prazer ou que dê ‘barato’ como a cocaína, o álcool ou outra substância. Não é uma experiência agradável que as pessoas queiram repetir.”
Diarreia, vômito, náusea e formigamento estão entre alguns dos efeitos colaterais.

USO INAPROPRIADO
O psiquiatra Arthur Guerra, coordenador do grupo de estudos de álcool e drogas da Faculdade de Medicina da USP, o uso do chá como tratamento para dependência não é apropriado.
“Como uma substância com alucinógena vai tratar dependentes? Em vez de você ajudar a pessoa, você pode matá-la.”
 
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd2410201102.htm
 
DEPOIMENTOS

“Achava que o chá era droga, mas é remédio”

DE SÃO PAULO

Marcelo de Campos Marcello, 38, de Sorocaba, membro da igreja Céu Sagrado há sete anos, afirma que chegou a fumar 380 pedras de crack em menos de uma semana.
“Me internei numa clínica por seis meses. Não resolveu. Clínica só serve para dar tranquilidade aos familiares.” Ele conta que soube do chá por meio de seu psiquiatra. “Naquela época, achava que era uma outra droga, mas é um remédio. Por mais vontade que você tenha de fumar a droga, você não consegue mais usar.”
O segurança Juarez Andrade, 57, conta que esvaziava garrafas de vodca e de uísque diariamente.
Ele acredita que a ayahuasca o ajudou a entender os próprios problemas. “Frequentei o Alcoólicos Anônimos, mas não gostei. Lá você desabafa e ouve o desabafo dos outros. Aqui você encontra sozinho formas de lidar com o vício.”
 
 
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd2410201103.htm
 
MEMÓRIA

Ex-membro de igreja matou cartunista

DE SÃO PAULO

Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, o Cadu, matou o cartunista Glauco Villas Boas, 53, e o filho dele, Raoni, 25, em 12 de março de 2010.
As vítimas receberam quatro tiros cada uma quando estavam no sítio onde moravam, em Osasco (Grande São Paulo).
Cadu frequentou a igreja Céu de Maria, fundada por Glauco nos anos 90 e que segue os rituais do Santo Daime. O assassino, que confessou os crimes, se dizia um profeta e afirmava que sua missão era revelar ao mundo que seu irmão era a reencarnação de Jesus Cristo.
Após um laudo sobre seu estado mental afirmar que ele não tinha condições de responder pelos crimes, a Justiça determinou sua transferência para um hospital psiquiátrico. O episódio levantou a hipótese de que o consumo do chá e de outras drogas pudessem ter tido influência no quadro de esquizofrenia do assassino.