Está sendo rodado no Brasil o documentário My other me dirigido pela inglesa Amy Lodge (http://myotherme.co.uk/). O filme conta a história de quatro mulheres que viajam ao encontro de sua amiga Luisa, uma inglesa que viajou para o Brasil e acabou se envolvendo com o Santo Daime e com o calendário Maia (sobre o calendário: http://www.experiencefestival.com/the_mayan_calendar).
De acordo com Amy, que conhece Luisa desde o sete anos de idade, “o filme não é sobre o Santo Daime ou o calendário Maia e sim sobre como pessoas seguem caminhos diferentes e se reencontram… sobre a amizade”. Mas para tentar entender o rumo que a vida de Luisa tomou, a equipe retraçou seus passos e interagiu ‘realisticamente’ com os universos que a fascinaram.
Em Florianópolis (SC), o grupo encontrou Luisa (que mora atualmente em Garopaba), entrevistou daimistas e participou de uma cerimônia do Santo Daime.
Dia 15/04 parte da equipe filmou um “trabalho de concentração” na igreja daimista paulista Céu de Maria, comandada pelo cartunista da Folha de São Paulo, Glauco Villas Boas. Nesta ocasião, realizaram também uma entrevista com o Padrinho Alfredo Gregório Mota de Melo, presidente do Cefluris. Atuei como consultora e também intérprete.
A diretora e o produtor e camaramen Ed contaram para o P. Alfredo ter adorado a experiência com a bebida em Florianópolis. Perguntamos como ele via a presença dos gringos no Santo Daime.
Com tom simples e simpático, o líder máximo do Santo Daime relembrou as aventuras dos primeiros mochileiros que chegaram em Rio Branco na década de 70: “Nesta época, papai [P. Sebastião] recebeu o hino “São João na Terra” [cantarola o hino…]… chegou São Pedro com seus dois irmãos… — chegaram três chilenos que se juntaram a nós, né?… Mas eles ficaram sem visto e tiveram que ficar isolados em Cobija… então começamos a nossa batalha… Por isto toda vez que cantamos este hino, é sinal de guerra… em todo lugar! [repetindo outro trecho do mesmo hino]”.
P. Alfredo observou que “já existe gente com mais de vinte anos de casa”. Para ele, “forasteiros de vários países, mesmo sem falar português, conseguem sentir e entender a verdade do Santo Daime, que toca o seu coração”. Muitos estrangeiros moram na comunidade sede do Santo Daime na Amazônia, o Céu do Mapiá; alguns se casaram com amazonenses e têm filhos, alguns dos quais recebem nomes de entidades significativas na mitologia daimista (como acontece com outras famílias de daimistas ao redor do país).
Ainda de acordo com o P. Alfredo, a expansão do Santo Daime tem ocorrido “de forma natural”, desde que “lá por 1982 ou 1984 as primeiras pessoas levaram o daime para fora da Amazônia… foram dois ou cinco litros para Rio de Janeiro e São Paulo (….) Foi o Paulo Roberto [Paulo Roberto Souza e Silva, presidente do Céu do Mar, no Rio de Janeiro-RJ] e o Claudio Naranjo [escritor e terapeuta], se não me engano, que, tempos depois, levaram o Daime para o exterior”. E comentou: “tem irmãos lá fora estudando a Doutrina oito horas diárias!”
P. Alfredo afirmou que existem igrejas do Santo Daime no Japão, na Europa, nos EUA e na América do Sul. Tem visitado estes lugares na medida do possível. No seu entendimento, o Santo Daime no Brasil e no exterior são “a mesma coisa”, pois “o Santo Daime a tudo se soma”. Segundo o líder, a tendência é provavelmente que ramificações do grupo continuem se espalhando “gradualmente”.
“– O mundo seria um lugar melhor se mais pessoas tomassem o Santo Daime?”, Amy queria saber. “– Sim”, respondeu ele.
P. Alfredo afirmou ver este processo de crescimento com bons olhos e citou ainda um trecho de outro hino, doutrinar o mundo inteiro [“Das virtudes”, de Raimundo Irineu Serra, http://www.mestreirineu.org/Santo%20Cruzeiropdf.pdf], dando a entender que a chegada desta religião amazônica além-mar já estava anunciada. Neste e em outros momentos da entrevista, os estrangeiros pareceram figurar como parte integrante original, natural e legítima da instituição.
P. Alfredo, que interrompeu uma viagem que faria ao exterior em função da prisão de daimistas na Itália (http://alto-das-estrelas.blogspot.com/2005/04/daimistas-em-priso-domiciliar-na-itlia.html e http://alto-das-estrelas.blogspot.com/2005/04/informe-sobre-primeira-audincia-dos.html), disse “não entender” porque algumas autoridades estrangeiras têm proibido o consumo da ayahuasca. “Encontram em 40 litros de Daime 0,0000x% de DMT [dimetiltriptamina, princípio ativo presente na folha do arbusto Psychotria viridis Psychotria viridis, que compõe a bebida do daime]… Daime não é DMT!”.
No final, perguntei ao P. Alfredo o que ele, por sua vez, teria recebido dos visitantes que se juntaram a este movimento religioso. Assim respondeu: “Aprendemos a conviver com pessoas de outros países, outros hábitos, a ter tolerância. Os estrangeiros nos ensinaram quem somos… E que somos todos de uma mesma família universal. Foi eles que nos deram o sentido de paz.”
***
Quase não há dados sobre expansão do Santo Daime para o exterior. Há apenas um estudo, realizado por Alberto Groisman: Santo Daime in the Netherlands: An Anthropological Study of a New World Religion in a European Setting. Tese de Doutorado em Antropologia, Universidade de Londres, 2000. Veja um artigo dele sobre os agrupamentos daimistas na Holanda em: http://www.pucsp.br/rever/rv1_2004/t_groisman.htm.
Para uma reflexão sobre questões de legalidade e autenticidade da Igreja Nativa do Peiote nos Estados Unidos, e uma breve comparação com o caso da União do Vegetal neste país, ver um artigo de Matthew Meyer: em: http://www.neip.info/downloads/t_matthew_something.pdf

1 Comment

  1. Anonymous says:

    Otimas informacoes. Gostei bastante da leitura.