publicado no Jornal Folha de SP, São Paulo, segunda-feira, 15 de maio de 2006

Antropóloga afirma que ações dos grupos em SP são mais organizadas e que têm retórica política

Crime organizado paulista é mais centralizado, vê estudiosa

SERGIO TORRES
DA SUCURSAL DO RIO

Uma das mais experientes estudiosas da violência urbana do país, a antropóloga Alba Zaluar afirma que o ataque do PCC (Primeiro Comando da Capital) revela uma faceta até então oculta do crime organizado em São Paulo. “É muito mais centralizado, muito melhor coordenado e tem uma retórica política por trás”, afirmou em entrevista à Folha.

A antropóloga detecta semelhanças perigosas no discurso de líderes do crime organizado com grupos extremistas de esquerda em atuação na América Latina. “A retórica política de grupos de extrema esquerda da Colômbia, da Bolívia, do Peru etc. está contaminando esse pessoal, que começou a agir em redes, que não são só interestaduais, mas internacionais ou transnacionais, transestaduais e transnacionais.”

Para ela, o modelo de esquerda defendido por esses grupos já fracassou em vários países da América Latina.”Como é que vamos deixar nossa juventude ser conquistada por isso?”

Com base em pesquisas acadêmicas realizadas em favelas nas últimas décadas, ela diz que, pelo menos no Rio, o tráfico de drogas financia políticos durante os períodos pré-eleitorais. Professora titular do curso de antropologia da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Zaluar publicou vários livros, entre os quais se destacam “Cidadãos Não Vão ao Paraíso”, “A Máquina e a Revolta”, “Da Revolta ao Crime S.A.”, “Drogas e Cidadania” e “Integração Perversa -Pobreza e Tráfico de Drogas”.

Ela critica as investigações sobre o tema da criminalidade por parte de acadêmicos radicados em São Paulo. “Meus colegas nunca fizeram um estudo aprofundado do crime organizado em São Paulo”, lamentou. Isso acaba gerando, segundo ela, uma disputa a seu ver inútil sobre qual é a cidade mais violenta do Brasil, que não resolve nem sequer atenua o problema da criminalidade no país. De acordo com ela, “é muito assustador” o que está acontecendo em São Paulo e nos principais centros urbanos brasileiros.”O Brasil está num ponto de sua história nacional tristíssimo, tristíssimo.”

Folha – É surpresa para a senhora o que está acontecendo em São Paulo desde sexta-feira?

Alba Zaluar – Você lembra que há três, quatro meses houve a invasão e o roubo de depósito das Forças Armadas [Estabelecimento Central de Transporte do Exército, na zona norte carioca, quando 11 armas foram roubadas por invasores]? Ninguém foi morto, algumas pessoas foram maltratadas. Uma jornalista ligou para a minha casa e a primeira coisa que ela me falou: “Eu acho que o Rio de Janeiro deveria ser lacrado”. Aí acontece isso em São Paulo.

Folha – Por que acontece?

Zaluar – Sempre dizem, em São Paulo, que o problema é todo aqui [no Rio]. Meus colegas nunca fizeram um estudo aprofundado do crime organizado em São Paulo. Agora está provado: [o crime em São Paulo] é muito mais centralizado, muito mais bem coordenado e tem uma retórica política por trás disso.

Folha – Qual a retórica?

Zaluar – Você vai ver. Vai aparecer manifesto daqui a pouco. Isso ninguém está percebendo. Hoje eu fiquei pensando. Minha Nossa Senhora, isso é óbvio. Por causa do tráfico de armas e do tráfico de drogas, que é disso que se trata, embora o espectro do crime organizado no Brasil hoje seja amplíssimo: lixo, transporte, café, arroz, contrabando de tudo o que se possa imaginar. Mas o tráfico de drogas e de armas tornaram-se violentíssimos. Isso tem feito com que a retórica política de grupos de extrema esquerda da Colômbia, da Bolívia, do Peru etc. estejam contaminando esse pessoal que começou a agir nessas redes, que não são só interestaduais mas internacionais ou transnacionais, transestaduais e transnacionais. Aí fica essa disputa ridícula para saber qual é a cidade mais violenta do Brasil. Francamente, o que me importa se é Vitória, se é Recife, se é Rio de Janeiro, se é São Paulo? Isso não importa. Importa é que a gente está numa situação gravíssima neste país. Eu estou muito preocupada.

Folha – O que a senhora quis dizer quando falou que seus colegas em São Paulo não estudam o crime organizado?

Zaluar – Acho que está fazendo falta um estudo aprofundado do crime organizado, especialmente aquele que é dirigido desde a prisão. Porque a idéia que se tem é que isso só acontece no Rio de Janeiro, e não é assim. Isso acontece no Brasil inteiro. Está provado agora que ele é muito mais bem coordenado em São Paulo do que no Rio. No Rio, ele consegue botar uma bombinha caseira lá em Copacabana [zona sul], metralhar uns vidrinhos na prefeitura, e foi só. Às vezes, você tem ações localizadas em bairros, eles fecham os bairros, algum comércio em um ou outro bairro. Mas nunca assim tão bem coordenado. Nunca conseguiram. Isso é que assustador, muito assustador. E não é só para São Paulo, não. É para o Brasil inteiro.

Folha – A senhora arriscaria uma previsão de o que pode ainda ocorrer?

Zaluar – Essas coisas são contagiantes. Agora, vão querer fazer o mesmo em outros Estados.

Folha – A senhora poderia comentar um pouco mais a questão da retórica política?

Zaluar – Sempre fiquei impressionada com a coincidência das posições. Lendo coisas sobre a Colômbia, me espanta o uso dos mesmos termos. “Não nasci para semente.” Eles também falam muito isso, várias coisas.

Folha – Seria, talvez, a transformação de facções essencialmente criminosas em agrupamentos movidos também por ideologia?

Zaluar – Esse ataque radical, geral e vago ao sistema, como se eles estivessem fora do sistema… O tráfico de drogas é um sistema capitalista, o mais selvagem que se tem notícia, porque não tem nenhum limite institucional e moral. O resto do sistema capitalista está sujeito a leis, a regras, a restrições de várias ordens. É claro que tem ilegalidade também [no capitalismo]. O caixa dois é um deles. Mas no tráfico de drogas não tem nem caixa dois porque não tem caixa um. Eles influem, sim, nas eleições. Influem, sim. Eles dão dinheiro para político, sim. Eu fico sabendo nas favelas que a gente estuda.

Folha – O que pode ser feito, na sua opinião?

Zaluar – A situação é muito grave, acho que é preciso pensar. Como eles conseguiram essas granadas? Granada não é de uso exclusivo das Forças Armadas? As Forças Armadas brasileiras têm que fazer um balanço. O que está acontecendo com seus depósitos? Porque desde 1980 eu ouço aqui no Rio de Janeiro menções a armas exclusivas das Forças Armadas na mão de bandidos. Ouço menções a facilidades com que se furta e rouba. Não só nas Forças Armadas, nas polícias também. Os policiais chegam lá [nas favelas] oferecendo armas para bandidos. Isso tudo tem que ter mais controle. A polícia tem que ser mais investigativa nesse sentido. Para a gente ter um conhecimento maior de como essas coisas operam. E ganhar os jovens nas idéias. Não vamos deixar que essas idéias, que essa ideologia… Que no meu entender é atrasadíssima, é antidemocrática, uma esquerda que já mostrou que deu errado em vários países da América Latina. Como é que vamos deixar a nossa juventude ser conquistada por isso?

Folha – Como?

Zaluar – Não pode. Batalhar também nessa área cultural, da ideologia. E não ficar só repetindo, ah! coitadinhos, são pobrezinhos, a desigualdade brasileira. Tem desigualdade, tem. Tem pobreza, tem. Mas então vamos fazer alguma coisa para não deixar esses pobres coitados morrerem feito moscas nessa tragédia que é a violência urbana no Brasil. Isso é muito triste. O Brasil está num ponto de sua história nacional tristíssimo, tristíssimo. E o exemplo tem que vir de cima.

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