Notícia publicada no site da Terra, domingo, 17 de agosto de 2008, 18h58. Atualizada às 23h04

Lúcia Jardim
Direto de Paris

Os motoristas franceses parados em blitze de trânsito agora terão de mostrar a língua para os policiais – tudo porque desde a última segunda-feira, os agentes estão testando uma nova arma contra o uso de álcool e drogas nas estradas.
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A cidade litorânea de Antibes (no sul do país) foi escolhida para avaliar a eficácia do teste de saliva, cujos resultados saem mais rapidamente do que os habituais sangüíneo e urinário.

Embora o exame também identifique a presença de álcool, o objetivo deste novo teste é pegar os motoristas que consumiram drogas, responsáveis por 30,5% das mortes no trânsito, índice pouco atrás dos 32% causados pelos consumidores de bebidas alcoólicas.

Menos de 10 minutos depois de passar um pequeno bastão descartável sobre a língua do motorista, os policiais têm a certeza se houve ou não consumo de entorpecentes nas últimas 24 horas antes do momento do exame.

Até então, a única forma para detectar a presença de substâncias proibidas no organismo dos condutores era através de exame de sangue ou de urina.

O resultado é claro e visualmente semelhante ao de um teste instantâneo de gravidez: se ao longo dos dez minutos subseqüentes o bastão exibir todos os cinco traços vermelhos até então escondidos − que representam as cinco drogas procuradas −, significa que o motorista não está sob o efeito de algum entorpecente.

Se exibir apenas quatro traços ou menos, os espaços em branco que restam apontam que existe a presença de uma das drogas. Embora não detecte a quantidade, a fidelidade sobre a presença de substâncias tóxicas é total, garante a ministra francesa do Interior, Michele Alliot-Marie, presente no momento da inauguração do novo dispositivo.

“Depois de um ano de experimentos, chegamos a este teste que visa a impedir o motorista de conduzir sob o efeito de drogas. Fácil de usar, esse exame poderá reduzir os custos das blitze, uma vez que poderá extinguir a presença de um médico para a realização do teste urinário no local”, disse a ministra na ocasião.

Para verificar a natureza e a quantidade de droga ingerida, no entanto, os exames de sangue e de urina ainda são indispensáveis. Neste primeiro momento, foram distribuídos 52 mil testes para serem realizados aleatoriamente nas estradas de Antibes.

O método vai se espalhar gradativamente pela França na medida em que sua eficácia for confirmada. Segundo Alliot-Marie, 230 pessoas teriam morrido no trânsito em 2005 em decorrência do uso de drogas na França.

Um ponto que gera controvérsia é sobre a maconha. Peritos afirmam que o teste não seria capaz de identificar traços da erva se consumida mais de uma hora antes da colhida da saliva, o que deixaria os consumidores da droga mais comum impunes.

Já os usuários de cocaína, anfetaminas, ecstasy e derivados do ópio seriam facilmente pegos. “A maconha só é detectada pela saliva se for consumida no máximo uma hora antes do teste. Este exame vai pegar quem consumir a droga no volante, mas não os que a haviam utilizado antes”, afirma o presidente da Sociedade de Toxicologia Analítica, Patrick Mura.

No entanto, no primeiro dia de testes nas estradas, a polícia identificou três casos positivos ¿ todos para a maconha − nos primeiros 10 exames realizados, prova de que a eficácia do novo método pode ser total.

Um dos condutores pegos afirmou ter consumido a erva três dias antes, e outro disse ter fumado na noite anterior. Na França, a infração de conduzir um veículo sob o efeito de drogas é ainda menos tolerada em comparação ao álcool.

O motorista pode ser condenado a dois anos de prisão, multa de 4,5 mil euros (R$ 10.845) e a suspensão da carteira de motorista por até três anos. Com o novo sistema de prevenção, o ministério do Interior espera reduzir o número de mortes no trânsito em 7%.

Redação Terra