De 11 a 14 de junho 2006 ocorrerá a 25ª Reunião Brasileira de Antropologia, na UCG e UFG, em Goiânia (Goiás).

O Grupo de trabalho 07, “Antropologia do corpo e da saúde”, coordenado por Cynthia A. Sarti (UNIFESP) e Jane A. Russo (UERJ) abordará a questão do consumo de psicoativos.

Eis o resumo das apresentações da terceira sessão, que ocorrerá dia 14/07/2006, a partir das 14:00hs.


Autor: Taniele Cristina Rui
Título: Só se vive uma vez: histórias e trajetórias de usuários e ex-usuários de drogas

Buscando relacionar aspectos como prazer, dor e corpo no uso de drogas, mostrarei uma parte da minha etnografia realizada em uma clínica de Recuperação de Drogas, na cidade de Campinas. O estudo de pessoas que tiveram em comum o fato de usarem continuamente substâncias capazes de provocar alterações psíquicas e corpóreas é interessante porque nos coloca em contato com experiências diversas de corporalidade. Experiências muitas vezes extremas que levaram o corpo aos limites não só da dor e do prazer, mas também da própria vida. Experiências que, ainda que sejam indicativas de uma individualidade específica, mantêm íntima relação com práticas e valores referentes ao corpo na contemporaneidade. Experiências ainda que colocam em jogo noções tradicionais acerca da “materialidade dos corpos” e “imaterialidade dos espíritos”. E por fim, experiências que, em linguagem antropológica, são “boas para pensar”.

Autor: Reginaldo Teixeira Mendonça
Título: Cultura, consumo de medicamentos psicoativos, gênero e envelhecimento: conflitos entre sociedade de controle e autonomia

Este trabalho discute a utilização de mecanismos tecnológicos pelo consumo de medicamentos psicoativos em nossa sociedade. Nesse contexto, abordamos a relação entre envelhecimento, gênero e consumo de medicamentos psicoativos. Procuramos refletir que a utilização dos medicamentos perpassa a trajetória de vida, o envelhecer nos aspectos biológicos e nas diversidades sociais e culturais. A disciplinarização do corpo, no passado, apoiado pelas estratégias biopolíticas se mesclou a uma nova ótica: o corpo autônomo e responsável por si. Assim, a velhice, entre as mulheres de classes populares, é influenciada pelas concepções passadas e pelas noções de presente do corpo autônomo, tendo suas trajetórias somadas à condição de autonomia e de disciplina, fazendo o envelhecer convergir para o uso desses recursos tecnológicos, os medicamentos psicoativos com a função de se adaptar ao presente ao mesmo tempo em que se procura conservar as tradições passadas. Tratando-se dos medicamentos psicoativos, podemos presumir que, além de influenciar situações familiares e conflituosas, proporcionam trocas de informações nas redes sociais e promovem sensações corporais e psíquicas.

Autor: Cecília Maria Silveira Chaves
Título: Antidepressivos e estilos de vida: questões para pensar o consumo

Atualmente, dentre os fármacos com crescimento mais expressivo é possível citar os agentes terapêuticos que interferem nas experiências de dor, sejam elas físicas ou d’alma e é inegável a popularidade de certos medicamentos que, pelo seu apelo simbólico, pelo grande sucesso comercial e pelo fascínio que provocam ocupam um espaço privilegiado no imaginário social. Parece ser o caso dos antidepressivos e, embora o aumento do consumo esteja ligado ao aumento de diagnósticos de depressão, as prescrições não são restritas essa patologia, mas a uma enorme gama de sintomas e doenças. No entanto, a maior parte da produção teórica concernente ao estudo do consumo medicamentoso trata a questão como comportamento emulativo, influenciado pelas indústrias farmacêuticas, desconsiderando aspectos cosmológicos e subjetivos. Acreditamos que a “produção farmacológica de si” esteja relacionada à certas estruturas de longa duração que levaram a sociedade ocidental moderna a um exagero na busca e na manutenção da saúde e na procura de controles positivos do corpo. Por meio de pesquisa qualitativa busca-se ouvir os consumidores de antidepressivos para compreender as razões e a motivação do consumo e se as categorias cosmológicas interferem na construção dos sujeitos tomados como consumidores e como indivíduos.

Autor: Fatima Cecchetto
Título: Corpo, sexualidade e saúde entre jovens das camadas médias no Rio de Janeiro: uma análise dos usos de drogas anabolizantes e sua influência na construção social da masculinidade
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O consumo de esteróides anabolizantes androgênicos (EAA) como estratégia para apressar a “explosão” de músculos e afirmar comportamentos viris não é um fenômeno recente. Porém, ao longo dos anos de 1990, esse uso tem se disseminado entre homens jovens de vários grupos sociais na cidade do Rio de Janeiro, chamando atenção de profissionais de saúde por causa dos riscos associados ao abuso de tais substâncias. Essas visões, no entanto, não levam em conta certos aspectos simbólicos deste consumo, nem tampouco as relações sociais de poder e de gênero, envolvidas no plano das práticas e saberes cotidianos destes indivíduos. Em vista disso, o enfoque aqui pretendido, partindo de uma abordagem antropológica, visa reunir dados que possibilitem analisar os diversos usos e discursos existentes sobre os EAA, trazendo resultados sobre a produção de significados em torno da masculinidade no contexto urbano contemporâneo. A proposta se justifica pela interseção que será realizada entre os temas do corpo, do gênero e da saúde, em uma pesquisa que combina saberes de áreas do conhecimento complementares. Esse cruzamento de temáticas insere esta pesquisa na corrente de investigações sobre a dimensão relacional de gênero nas sociedades atuais. Neste sentido, ela é um esforço de mapeamento do campo, uma tentativa de oferecer mais dados sobre as experiências e percepções sobre a construção social da masculinidade.

Autor: Beatriz Caiuby Labate Edilene Coffaci de Lima Título: Remédio da ciência e “remédio da alma”: os usos da secreção do kambô (Phyllomedusa bicolor) nas cidades Desde a metade da última década, em grandes cidades do Brasil, começou a se difundir o uso da secreção da rã Phyllomedusa bicolor.

Tradicionalmente usada como revigorante e estimulante para caça por grupos indígenas do sudoeste amazônico (entre eles, Katukina, Yawanawá e Kaxinawá), tem havido um duplo interesse pelo kambô nos centros urbanos: como um “remédio da ciência” – no qual se exaltam suas propriedades bioquímicas – e como um “remédio da alma” – onde o que mais se valoriza é sua “origem indígena”. O kambô tem se difundido, sobretudo, em clínicas de terapias alternativas e no ambiente das religiões ayahuasqueiras brasileiras. Os aplicadores são bastante diversos entre si: índios, ex-seringueiros, terapeutas holísticos e médicos. Nesta comunicação apresentaremos uma etnografia da difusão do kambô, analisando, sobretudo, o discurso que esses diversos aplicadores têm elaborado sobre o uso da secreção, compreendida por alguns como uma espécie de ‘planta de poder’, análoga ao peiote e a ayahuasca.

Veja mais notícias sobre outras apresentações sobre psicoativos aqui.

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