Leiam este artigo de minha amiga Mariana Pantoja Franco, sobre os Kuntanawa, do Acre. Os Milton, grupo de seringueiros estudados por ela na sua pesquisa de doutorado (da qual resultou um interessante artigo publicado por ela em co-autoria com Osmildo, filho do S. Milton, na nossa coletânea O uso ritual da ayahuasca), estão agora reivindicando uma identidade étnica — como Kuntanawa –e também um território próprio dentro da Reserva Extrativista Alto Juruá.

Os Kuntanawa eram um povo que se julgava estar extinto a partir das correrias realizadas contra as populações indígenas no Acre no início do século passado. Seu Milton é filho de um índio Nehanawa e sua esposa, Dona Mariana, é filha de uma índia Kuntanawa, que foi capturada por volta de 1910 numa correria do Rio Envira.

Mariana conta que a história foi narrada para ela de forma diferente na época da sua pesquisa de campo, em 1998 (a qual foi publicada como tese em 2001 e livro em 2004*). Segundo ela, “lá havia uma inversão entre as etnias a que pertenciam os ascendentes da Dona Mariana e Seu Milton, o que levaria a identificá-los como Nehawana. A partir de 2002, atribuindo o ‘erro’ a um deslize da memória, os Milton passaram a se identificar como Kuntanawa”. Antes deste processo de reividincação étnica, Mariana conta que família era, desde longa data, identificada como “os caboclo Milton” no seringal — o que, no Acre, significa “índio”.

Embora seja possível afirmar que há uma base política para a nova reivindicação de terras — uma vez que o grupo se encontra afastado da atual diretoria da Reserva, diferentemente de que ocorrera no passado, quando eram ativos membros da Associação — faltaria pesquisar o “pulo do gato” que faz com que uma ruptura política traduza-se em ruptura étnica.

É possível que o consumo da ayahuasca tenha desempenhado e venha a desempenhar um papel fundamental neste processo de ressurgimento étnico. Inicialmente, o grupo do Seu Milton tomava cipó mais no etilo seringueiro; depois, começaram a cantar hinos do daime, num tipo de ritual misto, “daime de rede”. Agora, estão adotando palavras e cantos indígenas nas sessões, e se referindo a ayahuasca como “oni” (os Kuntanawa são da família linguística Pano), além de buscar as velhas narrativas de uma das matriarca da família sobre a ayahuasca.

Aliás, não há quase nenhum estudo sobre o consumo do “cipó” pelos seringueiros da Amazônia – o qual sem dúvida influenciou muito a formação das religiões ayahuasqueiras brasileiras, sobretudo a União do Vegetal.

Fora o artigo da Mariana e do Osmildo no livro O Uso ritual da ayahuasca, conheço apenas um outro tratando do uso do cipó entre seringueiros da Amazônia, de Maria Gabriela Jahnel Araújo: “Cipó e imaginário entre os seringueiros do Juruá” (clique aqui para ler).

Clique aqui para ler o Papo de Índio da Mariana sobre os Kuntanawa, “povo do coco”.

(*) Franco, Mariana Ciavatta Pantoja. Os Milton. Cem anos de história nos seringais. Recife, Massangana, 2004.

Para entrar em contato com Mariana: mariana.acre@gmail.com

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esta blogada foi escrita a partir da leitura de um artigo de Mariana sobre o tema, que está no prelo. Em breve divulgaremos aqui publicação deste artigo.

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