Foi lançado o livro: Lodi, Edson. Estrela da minha vida: histórias do sertão caboclo. Brasília, Edições Entre Folhas, 2004, 104 p.

O livro, escrito pelo poeta Edson Lodi, membro da UDV há trinta anos e ex-presidente da instituição, é um tesouro para os discípulos da UDV e uma importante fonte de pesquisa para o campo de estudos da ayahuasca — ainda mais se levarmos em conta que a UDV é a religião ayahuasqueira que mais cresce no país (há mais de dez mil adeptos, e extensões na Espanha e nos EUA) e que quase não há nada escrito sobre ela.
Edson Lodi é apresentado pelo prefaciador, o jornalista Ruy Fabiano, discípulo da UDV, como o “primeiro cronista da UDV”. E assim escreve a jornalista Cristina Monteiro, também adepta do grupo, no verso da capa: “Como que à espera do momento apropriado, conhecimentos preciosos vêm à tona neste livro”. Estes dados são importantes para entender o que representa o livro no contexto da UDV. O grupo tem, tradicionalmente, evitado a exposição na mídia e zelado com cautela por sua imagem pública. A UDV possui, além de seu site, uma única publicação oficial, o Hoasca, Fundamentos e Objetivos, de 1989 (Brasília, Centro de Memória e Documentação). Portanto, a Estrela de Minha Vida representa a iniciativa de um hoasqueiro veterano, e sinaliza também, podemos talvez sugerir, uma postura maior flexibilização, por parte das cúpulas dirigentes, de compartilhar aspectos históricos, simbólicos e mesmo vivenciais relativos à instituição.
O pequeno livro, escrito numa agradável prosa estilo cabocla e recheado de expressões típicas do universo da UDV, está dividido em três partes: Crônicas da Floresta, Revisitando o Sertão e Tecendo Branca Rede.
Na primeira parte, são relatadas algumas vivências pessoais do autor na UDV, desde a sua primeira experiência com o chá Hoasca em 1975, em Porto Velho. Já somos introduzidos aí a José Gabriel da Costa, o Mestre Gabriel, fundador da UDV — que, além de homem simpático, trabalhador e talentoso, vai transparecendo, ao longo das páginas, como um personagem dono de grandes poderes (encerrados na enigmática expressão “Aqui, tudo é teu”). Sua infância já fora marcada por aspectos que profetizavam a sua condição especial, como quando trouxe a vida a uma criança que ameaçava não nascer ou voou de um coqueiro para o chão. Em várias situações de dificuldade (como acidentes de caminhão, barco, doenças ou outras), o autor nos conta como Mestre Gabriel “guarneceu” a ele e a seus companheiros da “União”.
A segunda parte, concordando com o prefaciador, é o ponto alto da obra. Ela está baseada sobretudo nos relatos de Antonio Gabriel, irmão de José Gabriel. O autor retoma, com poesia, as aventuras e causos da vida de seu Mestre, nascido no sertão bahiano numa humilde família de agricultores com 14 filhos, em 1922, “quando o sino bateu ao meio-dia”.
Acompanhamos a viagem do jovem José Gabriel para Salvador, em 1942, e nos deleitamos em descobrir queo fundador desta religião que nasce no Brasil gostava de capoeira, samba de roda e batuque. Acompanhamos as suas andanças para a Amazônia, convocado como soldado da borracha em 1944, ainda sem saber da missão que o aguardava.
Foi em Rondônia que “Zé Bahia” tomou o seu primeiro copo de vegetal, pelas mãos de Chico Lourenço e veio a “re-criar” a UDV, no início da década de 60 (os adeptos usam esta expressão por acreditar que a UDV existiu na Terra em outra época e depois se extinguiu). O Mestre Gabriel, seguindo padrão análogo à trajetória de Raimundo Irineu Serra, criador do Santo Daime, ficou vinte e cinco anos sem ver a família, retornando à Bahia em 1971 — ano em que veio a falecer com um tumor na cabeça.
Através da narrativa são oferecidas pistas interessantes sobre os elementos simbólicos e rituais da União do Vegetal, como a descoberta de que a chamada (cânticos entoados durante a sessão) de Cosmo e Damião é uma pequena variação de um bendito (“cantos religiosos tal qual uma oração cantada”) de São Cosmo e São Damião, de quem a mãe de José Gabriel era devota, e que a origem de outra chamada está relacionada a uma oração que José Gabriel repetia sempre na juventude na Bahia, “Meu Jesus Cruxificado”. Também percebemos que o vegetal é usado em situações mais amplas do que apenas a da sessão, contratriando a imagem corriqueiraa respeito.
Na terceira parte, o escritor conta um pouco a respeito de seu contato e de suas experiências no Centro Espírita e Culto de Jesus Fonte de Luz, conhecido popularmente como Barquinha, sediado em Rio Branco (Acre), liderado então por Manuel Araújo (in memorian). Ele conheceu o grupo por ocasião da elaboração da Carta de Princípios, em 1991, quando procurava “sociedades comprometidas com o uso ritualístico e responsável do chá”.
À exceção de um pequeno relato de como Manuel Araújo teria “recebido a sua missão espiritual” do fundador da Barquinha, Daniel Pereira de Matos — seguindo um padrão corrente no campo de “revelação” através de uma miração – não há maiores dados sobre o grupo. A terceira parte parece servir antes como homenagem do autor a seu amigo Manuel Araújo, sendo assim, a meu ver, a menos interessante.
Por outro lado, este capítulo acaba por revelar um importante vínculo político entre a UDV e a Barquinha, o qual não é, diagamos assim, conhecimento de senso comum na área. Não fica claro, entretanto, a dimensão desta aliança, se toma aspectos mais institucionais ou é fruto sobretudo de uma amizade pessoal entre Edson e Manuel. Seja como for, o relato contraria as críticas que a UDV têm recebido de outros grupos por tratá-los como “curiosos”, o que significa, no idioma udevista, que haveria um uso equivocado do chá fora para além dos muros desta sociedade religiosa. À propósito, Lodi também reverencia rapidamente a D. Peregrina, madrinha do CICLU-Alto Santo.
O livro é muito bem escrito, saboroso de ler, eficaz no transporte do leitor à agradáveis realidades regionais. Embora qualquer pessoa que já tenha tomado a ayahuasca se veja identificado em alguns trechos muito bonitos, creio que a obra peca pela tentativa de traduzir o universo da UDV para um público mais amplo, desperdiçando assim um pouco de seu potencial. Termos nativos como “chacronal”, “burracheira”, “mistério do vegetal” e “rosário de chamadas” são naturalizados, quer dizer, não são explicados. Fica a sugestão de um pequeno glossário no final para a próxima edição.
Para obter o livro: udvbr@opengate.com.br
Para entrar em contato com Edson Lodi: edlodi@uol.com.br

2 Comments

  1. gabriel says:

    gostei mto desse post, tenho mta curiosidade de conhecer a barquinha e acredito numa união das sociedades huascqueiras. parabéns

  2. Anonymous says:

    Adorei Mestre Edson Lodi e genial um dos defensores pelo grandecimento da Udv no Mundo,continue sempre assim com a simplicidade que o Mestre nos Propociona,em ver um Mundo de Paz…