Título: “Vidas arriscadas – o cotididiano dos jovens trabalhadores do tráfico” (Ed. Vozes, 2006)

Autora: Marisa Feffermann

Dia: 17/10

Local: Livraria Cultura – Loja das Artes – Conjunto Nacional – Av. Paulista 2073
tel: (11) 3170 4033

Resumo:

Esta pesquisa constitui um estudo dos jovens inscritos no tráfico de drogas na cidade de São Paulo. Jovens que vivem uma realidade na qual a violência permeia quase todas as relações, e a morte é uma das conseqüências mais constantes. São a parte perceptível do tráfico, a que exibe toda a violência incrustada em sua economia ilegal, aqueles que são um apêndice, a um tempo indispensável e descartável, nas conexões internacionais da “indústria” do tráfico de drogas, uma das de maior rendimento da atualidade.

Pretende-se com este estudo contribuir para descaracterizar como doentias as infrações realizadas por eles, pois a razão delas se encontra em contexto maior. Ao desvelar as máscaras sob as quais a sociedade encobre suas engrenagens, procura-se mostrar os elos do qual fazem parte o comércio de drogas, o movimento do capital e o papel desses jovens.

A pesquisa busca escutar estes jovens a partir da tensão existente entre indivíduo e sociedade e das rupturas e continuidades desta relação, em condições que podem ser consideradas quase irracionais. Beirando a barbárie.

As condições oferecidas pela sociedade buscam camuflar esta dominação e violência, e quanto à realidade estudada – o tráfico de drogas – a irracionalidade da sociedade é visiva de modo exacerbado. Esta nitidez ocorre por elementos que são constitutivos de uma realidade, em que a lógica do capital, por fim, imputa ao indivíduo o papel de manter e reverberar esta violência. Almejou-se traçar um percurso para assinalar alguns fios condutores que, ao se entrelaçarem, oferecem uma possibilidade de reflexão para um fenômeno tão intricado como o tráfico de drogas e especificamente em relação aos jovens que ‘trabalham’ vendendo drogas ilícitas.

Entre estes fios condutores, trabalhou-se a urbanização da cidade e a relação desse processo com o crescimento do crime; a natureza do crack como multiplicador da violência existente; a ausência e/ou a ineficiência do Estado de cumprir o seu dever. São características que definem a especificidade do tráfico de São Paulo.

A complexidade destes discursos permitiu a percepção dessa realidade de vários aspectos, como se segue: o mundo do trabalho, ou seja, a inserção destes jovens nas relações de trabalho de um comércio ilegal de drogas; o contrato social, em que se apresenta as formas que regulam as relações sociais existentes no tráfico; a crueldade como espetáculo: a violência tanto da polícia como do traficante e aquela resultante das relações que envolvem droga denominada por ‘crack’. O último tópico a ser tratado é como estas questões discorridas ao longo do trabalho, marcam as subjetividades destes jovens. Essa subjetividade é constituída por comportamentos compulsivos, talvez por conta do risco, quando a astúcia é a forma empregada o tempo inteiro na tentativa de contornar as situações opressivas do cotidiano, e a crueldade como a resposta a numerosas humilhações sofridas.

Com base nestas reflexões, a análise do contexto social em que tais jovens estão inscritos recebeu o influxo da Teoria Crítica, utilizando-se particularmente a crítica radical à indústria cultural como instrumento para desvelar a urdidura da sociedade industrial atual. A análise dos aspectos econômicos teve influência da teoria marxista, imprescindível para o entendimento dos característicos da sociedade capitalista. A análise das entrevistas também foi apoiada, nos aspectos pertinentes, pela teoria psicanalítica de Freud.

Release:

Neste cenário agitado e rubro, a fumaça avisa o povo sobre um novo mercado de trabalho, que surge nas periferias das grandes cidades brasileiras.

A psicóloga Marisa Feffermann durante anos de atuação nas cidades mais submersas da Grande São Paulo, pôde ver de perto as atividades do tráfico, como profissionais. A palavra trabalho é inserida neste contexto, já sem nenhuma média. Afinal o expediente é árduo e rotina de quase todos os “ funcionários” é perigosa, mas se mantém.

São 12 horas diárias de trabalho e as vidas arriscadas destes jovens são a verdade que percorre toda a sociedade, deixando rastros de sangue e medo, declarado um estado de emergência que muitos ainda se negam a ver.

Ao ingressar no tráfico o jovem se coloca contra o fato de ser diferente… Ela pode ter as mesmas coisas que o menino rico tem e ir aos mesmos lugares que ele vai, apenas o caminho para isto é outro.

Neste livro que retrata a atmosfera mais obscura da sociedade, a autora simplesmente coloca em palavras as conclusões que o nosso coração já tem e estas, assim como a própria sobrevivência, são arriscadas.

Marisa Feffermann nasceu em São Paulo, SP. É Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo, USP, onde atua. É professora da Faculdade Montessori e pesquisadora do Instituto de Saúde do Estado de São Paulo/SES/SP.

Para entrar em contato com a autora: marisaf@usp.br

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