Prezada Cláudia Izumi,

Referente a matéria “Dependentes usam chá do Daime para se livrar do vício“, publicada online em 24/10/2011, gostaria de fazer alguns comentários:

Não está explícito, mas parece que esta surgiu do encontro “Ayahuasca e o tratamento da Dependência“, organizado pelos Doutores Marcelo Mercante, Beatriz Labate, Edward MacRae e José Guilherme Magnani, que ocorreu na USP em Setembro deste ano, no qual estive presente durante todo o tempo. Além da matéria não mencionar o evento, optou por entrevistar duas pessoas que infelizmente não estiveram presentes: Dartiu Xavier e Arthur Guerra. Ambos psiquiatras, sendo o primeiro reconhecidamente estudioso da ayahuasca e seus efeitos há muitos anos, tendo artigos publicados em revistas internacionais indexadas. O segundo, até onde eu saiba, não possui qualquer publicação sobre o assunto em revista indexada, apenas um recente resumo em congresso. Dado que as visões apresentadas por ambos são bem diferentes, gostaria de saber o motivo destas escolhas, em especial do Dr. Guerra, como suposto especialista no tema. A questão é grave quando levamos em conta a declaração originalmente publicada e atribuída ao Dr. Guerra, de que até mesmo morte poderia ocorrer ao se tratar dependentes com ayahuasca. Este tipo de tratamento é feito há pelo menos 20 anos e não sei de qualquer relato de morte. Mesmo na nota publicada pelo mesmo esclarecendo sua posição, o Dr. Guerra parece tirar vantagem da posição respeitável que ocupa para veicular suas opiniões de maneira a parecerem fatos médicos e científicos, ao dizer que “o uso do chá de ayahuasca é um recurso terapêutico inapropriado no tratamento de dependentes químicos. Vale ressaltar que tal indicação consiste em um erro médico”. Esta é uma opinião própria, que respeito, mas não é um consenso na área. O fato mais exemplar disso é que o Dr. Jaques Mabit, médico que esteve no simpósio apresentando duas palestras, atua com ayahuasca no tratamento de dependentes no Peru, bem como o Dr. Gabor Mate o faz no Canadá, por exemplo. Para piorar, nenhum dos organizadores do simpósio, estes sim especialistas com diversas publicações no tema, aparecem na matéria. Fica então difícil imaginar que a matéria não tenha sido tendenciosa ao escolher com quem conversar e quais depoimentos incluir na publicação final. Se a questão é de que ayahuasca e dependência é tema propício a seção “equilíbrio e saúde”, e portanto opiniões médicas são mais pertinentes do que as antropológicas (um equívoco comum, denominado “determinismo farmacológico”) por que não foram incluídos na matéria outros psiquiatras que trabalham com ayahuasca e estiveram presentes, como os Drs. Luis Fernando Tófoli e Wilson Gonzaga, por exemplo? Posso atestar pelo que disseram durante o evento de que possuem opiniões distintas e que trariam mais luz ao debate veiculado pela Folha.

Preciso também enfatizar que já existem evidências de como o principal componente molecular da ayahuasca, a DMT, pode ter efeitos farmacológicos no tratamento da dependência, dado que numa das mais respeitadas revistas científicas do mundo (Science 323, 934) foi publicado em 2009 que a DMT liga no receptor sigma-1, sabidamente envolvido nestes processos. Portanto, me parece que o Dr. Dartiu foi muito certeiro e ponderado ao declarar que “Há um efeito químico nisso tudo, que ainda não foi pesquisado” enquanto o Dr. Guerra revela que está desatualizado no tema. Para complicar ainda mais suas declarações, retorno ao determinismo farmacológico. Se o Dr. Guerra tivesse ido ao encontro, teria aprendido nas palestras do Dr. Mabit e outros brasileiros não-médicos que tratam dependentes com ajuda da ayahuasca, que fatores psicológicos e emocionais são cruciais neste processo.

Gostaria de lembrar que o uso da ayahuasca é um conhecimento ancestral, utilizado por culturas indígenas de toda a região amazônica há séculos, e também considerada sagrada por comunidades religiosas no Brasil todo. Matérias não imparciais desrespeitam muitas pessoas e trazem prejuízos desnecessários a uma importante questão multicultural e étnica, além de prejudicar os maiores interessados no tema específico: os dependentes que aí podem, como mostraram os diversos palestrantes do evento, encontrar uma solução para seus problemas no abuso de drogas, que não é uma questão apenas médica, mas sim psicológica, social, econômica e política. Portanto, faltou equilíbrio no texto publicado pela Folha na seção que trata justamente deste tema.

Agradeço a atenção

Eduardo E. Schenberg

Biomédico, Mestre em Psicofarmacologia pela UNIFESP

Doutor em Neurociências pela USP

Bolsista FAPESP de pós-doutorado, pesquisador dos efeitos neurofisiológicos da ayahuasca na UNIFESP

Comments are closed.