No Brasil contemporâneo somos testemunhas e agentes da difusão de movimentos religiosos que tem em comum a centralidade do uso da bebida de origem amazônica ayahuasca em seus sistemas rituais. O que podemos chamar de campo ayahuasqueiro transbordou da floresta amazônica no decorrer do século XX, desde seus primórdios, implantando-se nos grandes centros de praticamente todos os estados brasileiros. Podemos contabilizar nos dias de hoje dezenas de milhares de ayahuasqueiros, compondo as mais diversas vertentes.

O encontro dessa expressão amazônica da religiosidade brasileira com o mundo urbano de outras regiões encontrou ressonância em expressiva camada de adeptos – provocando uma instigante gradiente de fusões e ressignificações. São as mais diversas manifestações simbólicas que, para lá de sua catalogação imediata, expressa o ethos religioso e cultural brasileiro – que tem seu berço em raízes afro-descendentes, orientais, européias, ressaltando as contribuições indígenas e caboclas, dentre as matrizes centrais que compõem o campo ayahuasqueiro.

Por outro lado, o crescimento de sua presença em países de todos os continentes tem representado também um foco de valorização de expressões culturais brasileiras, em um instante em que o Brasil tem sua imagem afirmada no contexto das importantes transformações que ocorrem em nível global.

O I Encontro da Diversidade Cultural Ayahuasqueira é a expressão da riqueza desse movimento, cuja amplitude por si só legitima vozes de um segmento relevante de brasileiros. Trata-se de iniciativa de praticantes e não praticantes, onde junto a representantes de diversas linhas ayahuasqueiras, contribuem agentes do Estado brasileiro, gestores públicos, especialistas em religião e cultura, e patrimônio cultural. Ressalte-se que compomos neste Encontro apenas uma parte da totalidade que podemos chamar de movimento ayahuasqueiro. Não estão representados importantes segmentos – compostos, por exemplo, pelas igrejas tradicionais do Alto Santo sediadas no Acre, de onde parcela considerável dessa difusão se origina. Que esse nosso primeiro passo venha apresentar um caminho de crescente diálogo com todas as comunidades.

Enquanto representantes de diversos e numerosos grupos ayahuasqueiros, juntos com um amplo espectro de envolvidos, entre os quais pesquisadores, juristas, acadêmicos, entre outros, nos reunimos para expressar e debater a natureza da diversidade dessa manifestação genuinamente brasileira e ressaltar seus direitos enquanto expressão religiosa.

Como tal, diante da originalidade cultural que expressa, mostram-se imprescindíveis ações afirmativas, tais como as desenvolvidas pelo Ministério da Cultura e suas instituições vinculadas e parceiras.

Para tanto entendemos a importância de ações que dêem visibilidade às manifestações com origem nessa realidade, que mais e mais entra em contato com a profunda diversidade que viceja em nosso ambiente, e que resulta em rica elaboração no campo das artes audiovisuais, na música, na dança e nas mais variadas gamas de manifestações artísticas. Aqui, afirmar a diversidade é estabelecer nosso compromisso conjunto com uma sociedade harmônica e plural.

Com este intuito, queremos manifestar nossa disposição em participar e contribuir com o processo de registro de patrimônio imaterial da ayahuasca/daime junto ao IPHAN, da maneira que esta instituição entenda importante nossa participação.

Igualmente informamos nossa intenção de tornar acessíveis nossos acervos, documentos, registros e informações sobre cada uma das expressões do universo ayahuasqueiro e comunidades representadas por nós, provenientes das mais diversas linhas e segmentos. A extensão e profundidade do fenômeno ayahuasqueiro, como às vezes o campo acadêmico se refere a ele, necessita ainda ser inventariado (pelo IPHAN), e reconhecido em sua real dimensão.

Estamos seguros de que atingimos importantes segmentos do tecido social urbano e rural formador de opinião e exportador de valores. Acreditamos que defender a diversidade que caracteriza o “universo ayahuasqueiro”, seja defender a riqueza de nossas expressões religiosas e culturais de tolerância, que vêm nos caracterizando nesse período de liberdades democráticas e cultura de Paz.

Movimento pela Diversidade Cultural Ayahuasqueira e pelo registro do patrimônio imaterial cultural brasileiro do Daime/Ayahuasca/Vegetal junto ao IPHAN.

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