Publicado no Estadão, em primeiro de maio de 2009, aqui: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090501/not_imp363836,0.php

Beth Néspoli

Numa das cenas de Raptada pelo Raio, espetáculo da Cia. Livre baseado num mito dos índios Marubo que estreia hoje em sua sede em Barra Funda, o espectador é convidado delicadamente a deitar numa rede e recebe uma máscara com cheirinho de mato para tapar os olhos. No escuro, acomodado numa floresta de redes, a imaginação se solta ao som do “chorocanto” do pajé Samaúma que faz uma viagem ao mundo dos mortos para resgatar sua mulher Maia, fulminada por um raio.

A prosódia ouvida pelo espectador é poética – no sentido da síntese e da linguagem simbólica – porém de uma poesia bruta, seca, de beleza intensa, sem sentimentalismo. Em sua trajetória para resgatar a amada, o pajé, homem forte, honesto, valoroso, passa pelo povo água, pelo povo pássaro, pelo povo nuvem, entre outros, até se unir ao povo violência para lutar contra o homem raio. Toda uma cosmografia vai sendo desenhada na imaginação do público com ajuda de uma cuidada ambientação sonora e sensorial.

A acomodação em rede dura alguns minutos. Não é um mero efeito. Tem tudo a ver com a oralidade da cultura indígena na qual se origina o mito, mas também busca dar ao espectador outras possibilidades de percepção, e faz referência a instalações como Cosmococa, de Hélio Oiticica. “A fonte dele é a mesma, mas nós viemos depois e não podemos ignorá-lo, assim como Ligia Clark”, diz Cibele Forjaz, diretora do espetáculo, cuja encenação é assinada, como sempre, por todos os atores e equipe técnica da Cia. Livre.

Muitos são os recursos cênicos utilizados ao longo da apresentação, do mais tecnológico ao mais artesanal, desde projeções em tempo real num telão até uma fogueira de verdade em cena, porém harmonizados de modo a atingir suave simplicidade. “Raptada pelo Raio é uma continuidade da pesquisa sobre os mitos ameríndios iniciada com VemVai – O Caminho dos Mortos”, diz Cibele. “É sem dúvida um aprimoramento. Ali a gente havia se deparado com a riqueza da cultura indígena e o espetáculo, para o bem e para o mal, tinha excessos.”

Mesmo assim, VemVai foi o vencedor de dois prêmios Shell, de direção para Cibele e de atriz para Lúcia Romano que volta a brilhar em Raptada pelo Raio como intérprete de Maia e tem parceiro à altura em Edgar Castro, o pajé Samaúna. No elenco ainda, Paulo Azevedo, que chega do grupo mineiro Espanca! e faz o papel de homem-raio, e Christian Amêndola Moleiro, se desdobrando em muitos.

Foi na criação de VemVai que os integrantes da Cia. Livre entraram em contato com o canto Kaná Kawã que, para o antropólogo Pedro Cesarino, “pode ser considerado como uma bela versão amazônica do mito de Orfeu”. Ele é o responsável pela tradução, que respeita a métrica e simbolismo do original, e também assina a dramaturgia do espetáculo. Foi ele, Cesarino, quem ouviu o mito cantado por Armando Cherõpapa, um xamã Marubo, tribo falante da língua Pano da Amazônia ocidental. “Era tão rico que nós decidimos não trabalhar em VemVai, porque merecia ser explorado em um espetáculo à parte, só para ele”, diz Cibele.

O mito carrega muitos sentidos. É uma história trágica de amor e morte, mas é sobretudo uma mito de aceitação da morte. Ao ter sua mulher partida pelo raio, o pajé pede à sua tribo que não queime o corpo. Faz um beberagem de ervas, acrescenta elementos como língua de passarinho, e vai resgatar sua mulher. “É difícil para a gente entender a ideia de ?vaká? que Cesarino chama de duplo”, diz Cibele. Ao morrer, o ?vaká? se descola da pessoa e faz uma trajetória por diferentes planos até o mundo dos mortos, mas vaká não é etéreo, uma alma no sentido cristão, um espírito. Ele pode ser morto, por exemplo, embora esteja morto; há um desdobramento, um corpo na terra e outro a caminho.

“Conceitos da física contemporânea como mundos simultâneos, realidades paralelas, se assemelham ou se aplicam à cosmogonia indígena”, diz Cibele. “São esses planos paralelos que o pajé atravessa em sua trajetória.” No espetáculo, provoca efeito quase encantatório a opção por unir narrativa e ação dramática. Por exemplo, um ator pode a um só tempo agir como o personagem e narrar a ação, pode dizer ?ele fez? enquanto ?faz?. Evidentemente uma recriação sonora da ideia do vaká ou duplo, mas para o espectador desligado, apenas cadência, estranha, mas boa de ouvir.

Não seria preciso atualizar sentidos para compreender esse mito, mas o grupo não se furta a fazê-lo. Numa espécie de digressão poética, o homem-raio transmuta-se no homem branco da contemporaneidade, com suas seduções de juventude e consumo, tirando assim Maia de seu cotidiano vital. “O consumo é forma de preencher um vazio interno que guarda relação com a finitude. Uma sociedade que não lida bem com a morte, não lida bem com a vida”, diz Cibele. “Morrer é também fazer passagens, jogar fora, se transformar. São questões que nos atingem, não queremos falar ?dos outros?. A gente da Cia. Livre se inclui nisso, somos passíveis de cair nas seduções.”
Serviço
Raptada pelo Raio. 90 min. 12 anos. Casa Livre (40 lug.). Rua Pirineus, 107, 3564-3663. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. Pague quanto puder. Fazer reserva é imprescindível. Até 28/6

 
Conheça O Mito

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neská kawãkirivi
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waki eshe netãi
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iki wai ioi
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awe? yove kãi?a
wa ene vaise
yove pake aoi
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ato noko pakesho

e? anõ ai? nã
mato oi? amai
awe? ato akaki
noke oi? amanã
iki ni? kãtaniki

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nipai oshõki
e? atima ionõ
wenatsomaroa
a iki avaiki

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