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09/08/09

Neo-xamãs invadem a capital da Mongólia
Eles transformaram a antiga tradição num negócio próspero.
Comunidades apareceram com seus próprios rituais e ferramentas.
Dan Levin Do ‘New York Times’
Gesticulando impacientemente com o cigarro na mão, a xamã declarou ter a cura exata para as desgraças do homem. Dois divórcios e um negócio falido? Sim, sim, ela já ouviu tudo aquilo antes. Mas antes ela precisava de outro drinque.

Ela observou o pobre homem servir o resto do líquido dourado da garrafa em seu copo e tomou um gole pensativo. Somente assim ela pôde dar suas instruções.

“Eu poderia tomar vodca, mas meu espírito prefere cerveja”, disse ela. “Ele está irritado, e sempre bêbado.”

Enkhtuya, 47 anos, que atende somente pelo primeiro nome, como a maioria dos mongóis, ordenou que o homem se lavasse com vodca para limpar a energia ruim. Depois, ele deveria jogar duas fatias de carne de cavalo, sua camisa molhada e vodca num pote de água e descartar a mistura longe de casa. Isso, segundo ela, impediria que o espírito do mal o atormentasse.

O homem agradeceu à mulher, entregando mil togrog, cerca de 70 centavos de dólar, e deixou sua minúscula cabana. Ele foi rapidamente substituído por uma senhora de idade, a próxima numa longa fila de clientes que esperavam do lado de fora.

Enkhtuya está entre os vários xamãs que transformaram a antiga tradição espiritual deste país num negócio próspero na capital, que se cresce com rapidez e abriga cerca de um terço da população do país, de quase 3 milhões de pessoas. Proibido por 70 anos sob o domínio comunista, o xamanismo foi protegido pela adoção, por parte do governo, da liberdade religiosa, na constituição de 1992.

Desde então, os xamãs prosperaram por aqui e se tornaram um ornamento visível da vida urbana nos últimos anos, oferecendo exorcismos e previsão do futuro em sites da internet e cartazes profissionais.

A demanda é alta. Milhares de burocratas, trabalhadores dispensados e nômades, que perderam seus rebanhos no fracasso do país de atingir uma economia de mercado, lotam blocos de apartamentos em estilo soviético e tendas, em busca de trabalho, amor e cura.
 
 
“Antigamente, as pessoas pediam chuva”, disse Chinbat, 30 anos, engenheiro elétrico que concluiu recentemente um treinamento para se tornar xamã. “Hoje, elas pedem dinheiro”.

Esse revival, no entanto, representa um desafio para as antigas ideias sobre o poder espiritual, à medida xamãs autoproclamados com seus próprios rituais e doutrinas competem com as autoridades xamanistas mais tradicionais pela fé dos crentes – e pelo dinheiro deles também.
 
Origem
O xamanismo mongol surgiu nos vastos campos gramados, milhares de anos antes da chegada do budismo, vindo do Tibete no século 16. Em sua essência, está a adoração da natureza e dos espíritos que regem montanhas, rios e o céu.

Com o tempo, várias comunidades apareceram com suas próprias divindades, rituais e ferramentas. Alguns xamãs tocam tambores ou harpas de boca para induzir transes, enquanto outros expelem espuma da boca e falam em línguas incompreensíveis.

Ainda assim, no fundo da tradição está a crença compartilhada de que as capacidades xamanistas podem ser passadas na família, com os espíritos forçando seus oráculos escolhidos para esse caminho espiritual, geralmente através de doenças ou outras crises pessoais.

Chinbat disse ter descoberto sua vocação durante uma visita a um xamã. O sacerdote lhe disse que a doença hepática do pai dele era um sinal de seu destino místico. No início, ele rejeitou a ideia. Porém, depois da morte do pai, Cinbat pagou US$ 350 por uma semana de treinamento junto com outros onze estudantes, orientados por um xamã mestre. O tambor e o manto sagrado têm um custo extra. Agora, ele afirma ter visões e ser capaz de canalizar espíritos durante seus transes regados a vodca. Ele pratica seu ofício em casa e afirma manter essas novas habilidades em segredo para a maioria das pessoas. Ele também planeja manter seu trabalho regular.

“A principal função do xamanismo é proteger sua família, não ganhar dinheiro”, disse.

Mesmo assim, centenas de mongóis que alegam ter poderes xamanistas estabeleceram pontos aqui em Ulan Bator, onde um fluxo regular de clientes sofrendo com desemprego, doenças ou dor de cotovelo estão a apenas uma ligação telefônica ou uma corrida de táxi de distância.

Afirmar ser um xamã pode trazer prestígio, fama e um meio de sustento, disse Matyas Balogh, professor-assistente de estudos mongóis da Eotvos Lorand University, em Budapeste, Hungria, que estuda o xamanismo mongol contemporâneo. Alguns desses curandeiros espirituais e médiuns inventam seus próprios rituais, disse ele, e são rejeitados, considerados fraudes pelos xamãs adeptos de práticas mais tradicionais.

“Os neo-xamãs não tem ninguém de quem aprender, então eles simplesmente inventam”, disse ele.

Zorigtbaatar Banzar pratica seu estilo próprio de magia numa tenda de feltro redonda, ou ger, chamada por ele de Centro de Xamã e Eterna Sofisticação Celestial. O centro fica ao lado de um bar de karaokê, num dos cruzamentos mais movimentados de Ulan Bator. Homem barrigudo, de nariz vermelho, de 50 e poucos anos, Zorigtbaatar afirma ter descoberto seus poderes sobrenaturais inicialmente como um jovem soldado perdido no deserto de Gobi. Depois, conforme seu relato, ele passou um tempo num hospital psiquiátrico, por ter contado aos outros sobre seus “dons”.

 
Hoje, ele e sua mulher, que também é xamã, possuem um negócio baseado na adoração de Genghis Khan, o lendário imperador mongol que, segundo eles, foi o mais poderoso de todos os xamãs. Durante suas cerimônias, Zorigtbaatar recebe o espírito de Genghis Khan para o bem das centenas de crentes que eles atendem cada semana.

Usando uma coroa adornada com pedras e um cafetã de seda coberto de amuletos, Zorigtbaatar tocou seu tambor de pele de carneiro e entoou palavras mágicas diante de um altar decorado com uma cabeça de urso de pelúcia, dinheiro mongol e uma garrafa de gim Gordon. Cerca de 20 crentes estavam ali perto, segurando oferendas de doces e biscoitos.

Então, Zorigtbaatar liderou os seguidores, passando por uma enorme águia acorrentada a um poste, até chegarem ao estacionamento, diante de uma pilha de ossos de cavalo.

Esforçando-se para bloquear as barulhentas buzinas dos carros enquanto focavam nos tambores, eles murmuravam orações por prosperidade e salpicavam gotas de vodca no ar.

A cerimônia terminou com muitos dos participantes recebendo uma mensagem na cabeça de Zorigtbaatar, antes de serem mandados para casa com um pacote de cubinhos de açúcar, para dar sorte.

Do outro lado da cidade, Suhbat Shagdariin, presidente do Centro Golomt de Xamanismo, instituto dedicado a preservar o xamanismo tradicional, se enfurece quando discute as crenças conflitantes que se infiltraram recentemente na sociedade mongol – dos colegas de Zorigtbaatar, aos mórmons e católicos missionários. Mesmo assim, sua organização, que já treinou mais de 1.500 xamãs desde sua abertura, em 1996, tem se adaptado à modernidade.

Muitos crentes batem à porta do centro em busca de conselhos financeiros, incluindo dois mongóis que perderam uma fortuna jogando em Las Vegas.

Segundo Suhbat, a dupla voltou a Las Vegas e rapidamente ganhou US$ 2 milhões, aplicando as previsões de um dos xamãs do centro e um pouco de tecnologia. No entanto, essa afirmação não pôde ser confirmada.

“Os xamãs trabalharam daqui”, explicou Suhbat, segurando seu celular, “mas os espíritos foram para lá.”

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