Publicada em São Paulo, domingo, 26 de novembro de 2006

Hipermedicação de crianças alarma EUA
Cerca de 1,6 milhão de crianças e adolescentes recebeu tratamento com ao menos dois remédios psiquiátricos nos EUA em 2005

Coquetéis chegam a somar até quatro medicamentos; efeitos colaterais físicos podem ser drásticos, e pais se vêem diante de dilema

GARDINER HARRIS
DO “NEW YORK TIMES”

Seus quartos são completamente bagunçados e os troféus que conquistaram enfeitam as paredes. Stephen e Jacob Meszaros parecem adolescentes típicos, até que sua mãe permite uma olhadinha no armarinho de remédios da família.
As prateleiras estão repletas de medicamentos psiquiátricos. Stephen, 15, usa os antidepressivos Zoloft e Desyrel para combater a depressão, o anticonvulsivo Lamictal para moderar seus humores e o estimulante Focalin XR para aumentar sua concentração. Jacob, 14, usa o Focalin XR para a concentração, o anticonvulsivo Depakote para moderar seus humores, o antipsicótico Risperdal para reduzir a raiva e o Catapres, que combate a hipertensão e o induz ao sono.
Ao longo dos três últimos anos, 28 medicamentos psiquiátricos diferentes foram receitados para os dois meninos. “Às vezes, olhando para os remédios todos que eles tomam, eu me pego imaginando que sou responsável pela situação dos meus filhos”, diz Tricia Kehoe, de Sharpsville, Pensilvânia, a mãe dos dois. “Mas eu os vi sem os remédios, e a diferença é imensa.”
Não há muita dúvida de que alguns medicamentos psiquiátricos, consumidos isoladamente, funcionam bem para as crianças. Por exemplo, dezenas de estudos demonstram que estimulantes melhoram seu nível de atenção. Alguns outros medicamentos psiquiátricos se provaram efetivos no combate a distúrbios obsessivos-compulsivos em crianças, bem como para outros problemas. Mas um crescente número de crianças e adolescentes dos EUA estão consumindo não apenas um remédio para dificuldades psiquiátricas específicas, mas combinações de medicamentos poderosos e ocasionalmente perigosos (e até fatais), para tratar de uma variedade de problemas.

Coquetéis

No ano passado, nos EUA, cerca de 1,6 milhão de crianças e adolescentes, 280 mil dos quais com menos de 10 anos, recebeu tratamento por meio de combinações de ao menos dois medicamentos psiquiátricos, de acordo com uma análise conduzida pela Medco Health Solutions a pedido do “New York Times”. Mais de 500 mil crianças usaram combinações de pelo menos três medicamentos, e mais de 160 mil tinham receitas para quatro remédios combinados. Muitos psiquiatras e pais crêem que essas combinações de medicamentos, ou “coquetéis”, ajudem. Para os psiquiatras que receitam os coquetéis, a capacidade de combinar e misturar remédios amplia suas chances de ajudar crianças séria – e até desesperadamente – doentes.
A controvérsia deixa os pais em situação terrível. Desesperados por ajudar, muitos sofrem para decidir se devem ou não medicar os filhos. Mães e pais ocasionalmente discordam, e a disputa pode desgastar ou até mesmo destruir casamentos. Como alguns medicamentos psiquiátricos causam efeitos colaterais físicos preocupantes, os pais dizem que ocasionalmente se vêem forçados a fazer escolhas dilacerantes entre a saúde física e a mental de seus filhos.
Estimulantes como o Ritalin são de longe os medicamentos psiquiátricos mais receitados para crianças. Mas os médicos rotineiramente combinam estimulantes e antidepressivos, antipsicóticos e anticonvulsivos, mesmo que alguns desses remédios possam causar sérios efeitos colaterais, ofereçam poucos benefícios psicopediátricos comprovados, e não haja provas claras da maneira pela qual eles interagem com ou influenciam o desenvolvimento mental e físico dos pacientes.
No ano passado, a Food and Drug Administration (FDA, agência federal norte-americana que regulamenta e fiscaliza alimentos e remédios) passou a exigir que os fabricantes de medicamentos alertassem em suas bulas e rótulos que os antidepressivos podem causar idéias e comportamentos suicidas em algumas crianças. Os medicamentos anticonvulsivos portam alertas sobre dano ao fígado e pâncreas e sobre lesões de pele que podem se tornar fatais. Os efeitos colaterais dos remédios antipsicóticos podem incluir rápido ganho de peso, diabetes e tiques nervosos irreversíveis. Quando medicamentos são combinados, os riscos se agravam.

Terreno instável

A FDA exige que os fabricantes de medicamentos provem que seus produtos funcionam de maneira segura, antes que a agência os aprove para venda nos EUA. Mas os médicos podem receitar e combinar como preferirem os medicamentos licenciados. Esse tipo de mistura é prática comum na medicina, mas raramente se torna objeto de estudo por parte dos laboratórios farmacêuticos. Se um remédio falha, muitos psiquiatras presumem que dois ou mais utilizados em conjunto podem obter sucesso. Por décadas, ninguém estudou a validade ou precisão dessa suposição.
Mas, nos últimos anos, começaram a surgir alguns estudos sobre o tema, e os resultados são contraditórios. O uso de combinações de dois medicamentos em crianças ocupa terreno muito mais instável. Mesmo no caso de medicamentos únicos, a efetividade de certos remédios psiquiátricos é questionável, quando se trata de pacientes mais jovens. A maior parte dos testes com antidepressivos usados para tratar crianças deprimidas, por exemplo, não demonstra qualquer efeito benéfico.
Mas praticamente nenhum dos estudos conduzidos considerou a efetividade das combinações de medicamentos no tratamento de crianças. Gary Sachs, diretor do Programa de Pesquisa e Clínica Bipolar do Massachusetts General Hospital, em Boston, estimou que metade das crianças encaminhadas à sua clínica para pesquisas nos últimos anos – entre as quais muitas submetidas a tratamento por combinação de medicamentos psiquiátricos – havia sido diagnosticada erroneamente, e freqüentemente se saía muito melhor com regimes de medicação menos intensivos. “Até mesmo entre os pacientes de distúrbio bipolar diagnosticados corretamente, muitos procuram o programa já sob o efeito de medicamentos que interferem uns com os outros”, disse Sachs.

Problemas

O primeiro problema psiquiátrico diagnosticado na maioria das crianças é o distúrbio de hiperatividade e deficiência de atenção, e, para combatê-lo, as crianças são medicadas com estimulantes – remédios que melhoram o nível de atenção.
Caso os problemas persistam, no entanto, a experiência relativamente boa que os pais têm com os estimulantes os convence a aceitar experiências com outros remédios. Em alguns dos casos, como o do antipsicótico Risperdal ou o do anticonvulsivo Depakote, oferecem poucos benefícios comprovados para crianças e riscos muito mais graves, disse Ranga Krishnan, diretor do departamento de psiquiatria e ciência do comportamento na Universidade Duke.
Os antidepressivos são comumente combinados com estimulantes, mas o uso de antidepressivos se reduziu ao longo dos últimos 12 meses, depois do alerta da FDA sobre o risco de suicídio. Em lugar deles, os médicos estão receitando combinações de medicamentos que incluem antipsicóticos e anticonvulsivos, de acordo com a Medco. Entre 2001 e 2005, o uso de medicamentos antipsicóticos para tratamento de crianças e adolescentes cresceu 73%, constatou a Medco. Entre as meninas, o uso de antipsicóticos mais que dobrou.

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Tradução de PAULO MIGLIACCI”

1 Comment

  1. Vinicius says:

    Muito interessante essa notícia sobre o uso de drogas legais por crianças. Mas para crianças até ‘aas infantil’ exige cuidado dos pais, prá não deixar medicamentos de bobeira. Drogas de tarja preta então, nem se fala.
    big hug!