Maconha não tem valor medicinal, contradizendo conselho científico

Gardiner Harrisem Washington

21/04/2006

O Departamento de Alimentos e Drogas (FDA) declarou na quinta-feira (20/4) que “nenhum estudo científico sólido” dá base ao uso médico do fumo de maconha. A declaração, que contradiz uma revisão de 1999 por altos cientistas do governo, insere a agência em mais uma feroz batalha política.

A porta-voz do departamento, Susan Bro, disse que a declaração resultou de uma revisão combinada pelas agências de fiscalização federal de drogas, agências de regulação e pesquisa que concluíram que “fumar maconha não tem uso médico aceito ou provado atualmente nos EUA e não é um tratamento aprovado”. Ela disse que o FDA estava emitindo a declaração por causa de inúmeras consultas do Capitólio, mas que provavelmente não faria nada para policiá-la.

“Qualquer fiscalização baseada nessa conclusão teria que ser feita pela Agência de Policiamento de Drogas (DEA), já que está fora da autoridade reguladora do FDA”, disse ela.

Onze Estados já legalizaram o uso médico de maconha, mas a Agência de Policiamento de Drogas e o diretor geral de entorpecentes, John Walters, opuseram-se a essas medidas.

Uma decisão da Suprema Corte no ano passado permitiu que o governo federal prendesse qualquer um usando maconha, mesmo em Estados que legalizaram seu uso.

Opositores do Congresso e defensores do uso médico da maconha tentaram conseguir o apoio do FDA. O deputado David Souder, Republicano de Indiana, feroz opositor das iniciativas médicas da maconha, propôs uma lei há dois anos que exigia que o FDA emitisse uma opinião sobre as propriedades médicas da droga.

Souder acredita que os esforços para legalizar o uso médico da maconha são uma “fachada” para legalizar todos os usos da maconha, disse Martin Green, porta-voz de Souder.

Tom Riley, porta-voz de Walters, elogiou a declaração do FDA, dizendo que aquietaria “a bizarra discussão pública” que levou 11 Estados a legalizarem o uso da droga.

A declaração do FDA contradiz diretamente a revisão de 1999 pelo Instituto de Medicina, que faz parte da agência de avaliação científica de maior prestígio do país, a Academia Nacional de Ciências. Essa revisão concluiu que a maconha é “moderadamente adequada para condições particulares, como enjôo causado por quimioterapia e vômitos e dores de Aids”.

Dr. John Benson, co-diretor do comitê do Instituto de Medicina que examinou a pesquisa dos efeitos da maconha disse em entrevista que a declaração do FDA e a revisão conjunta com outras agências estavam erradas.

O governo federal “adora ignorar nosso relatório. Eles prefeririam que nunca tivesse sido feito”, disse Benson, professor de medicina do Centro Médico da Universidade de Nebraska.
Alguns pesquisadores e congressistas disseram que a declaração sobre a maconha demonstra que a política está atropelando a ciência no FDA.

“Infelizmente, este é mais um exemplo do FDA fazendo pronunciamentos que parecem ser mais movidos por ideologia do que por ciência”, disse Jerry Avorn, professor da Faculdade de Medicina de Harvard.

O deputado Maurice Hinchey, democrata de Nova York, que promoveu um projeto de lei para permitir o uso médico de maconha, disse que a declaração refletia a influência da DEA. Segundo ele, há muito a agência pressiona o FDA para que colabore em sua luta contra a maconha.

Dan Troy, ex-consultor geral do FDA, disse que freqüentemente o Departamento de Alimentos e Drogas e a Agência de Policiamento de Drogas discordam sobre as políticas de entorpecentes, mas que a maconha “é um assunto em que podem cooperar”.

Uma porta-voz da DEA pediu que as dúvidas fossem levadas ao escritório de Walters.
Segundo a declaração do FDA, as iniciativas estaduais que legalizam o uso de maconha “são inconsistentes com os esforços para assegurar que os medicamentos passem pela análise científica rigorosa do processo de aprovação do FDA.”

Mas cientistas que estudam a maconha disseram em entrevistas que o governo federal tinha
desestimulado ativamente qualquer pesquisa sobre os benefícios da maconha. Lyle Craker, professor da divisão de ciências do solo e vegetais da Universidade de Massachusetts, disse que tinha submetido à DEA um pedido em 2001 para cultivar uma pequena área com maconha para ser usada em pesquisa, porque a maconha aprovada pelo governo, cultivada no Mississippi, é de baixa qualidade.

Em 2004, a agência de policiamento de drogas negou o pedido. Ele apelou e está esperando a decisão do juiz. “Não há boas evidências porque eles não querem um ensaio honesto”, disse Craker.

Donald Abrams, professor de medicina clínica da Universidade da Califórnia em San Francisco, disse que tinha estudado os efeitos benéficos da maconha por anos, mas os Institutos Nacionais de Saúde recusaram-se a patrocinar seu trabalho.

Com fundos do Estado da Califórnia, ele fez um ensaio rigoroso, controlado com placebo, do fumo de maconha por pacientes com HIV que sofriam de dor nos nervos. O fumo de maconha provou-se eficaz em aliviar a dor dos pacientes, mas o pesquisador está tendo dificuldades para publicar o trabalho, disse.

“A pessoa se pergunta como alguém consegue” cumprir o pedido do FDA por ensaios controlados para provar os benefícios da maconha, disse ele.

Uma versão sintética do componente da maconha, Marinol, é aprovada para tratar anorexia associada à Aids e a náusea e o vômito associados com a terapia contra o câncer.

A empresa britânica GW Pharmaceuticals recebeu licença do FDA para testar em humanos um extrato de maconha em spray. Chamada Sativez, a droga é feita diretamente de plantas de maconha e presentemente é vendida no Canadá.Opositores dos esforços de legalizar a maconha para usos médicos sugerem que a maconha é uma “porta de entrada” que freqüentemente leva os usuários a tentarem drogas mais perigosas e se viciarem.

O relatório do Instituto de Medicina, entretanto, concluiu que não há evidências de que a maconha aja como “entrada” para drogas mais pesadas ou que a aplicação médica aumentaria seu uso entre a população geral.

Daniele Piomelli, professor de farmacologia da Universidade da Califórnia em Irvine, disse que nunca tinha encontrado “um cientista que dissesse que a maconha é perigosa ou inútil”.

Ele disse que os estudos mostram claramente que a maconha tem alguns benefícios para alguns pacientes. “Nós todos concordamos com isso”, disse ele.

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