Publicado 2 de julho de 2006, em: http://cartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=11578&editoria_id=12

VIDA DE ÍNDIO – Guaranis desvendam em espetáculo cotidiano das aldeias
Carlos Minuano

Onze aldeias indígenas se reúnem em São Paulo para o lançamento do CD Ñande Arandu Pyguá, em espetáculo musical e teatral que reproduz o cotidiano guarani.

SÃO PAULO – Deus, a mata, os pássaros, a terra, o caminho em busca da terra sem males. Esses são alguns temas freqüentes no cântico dos índios guaranis. Mas para eles é bem mais do que simples música. Representa uma espécie de ponte entre a terra e o sagrado. Milagre ou não, foi também o caminho encontrado pelas aldeias de São Paulo para resgatar a identidade cultural de seu povo, ameaçada pela miséria e pela proximidade com o caos urbano paulista e a sociedade não-indígena.

Neste fim de semana, quem quiser poderá entrar em contato com o universo dos índios guaranis e saber um pouco mais sobre o modo de vida desse povo. Um espetáculo musical que será realizado no teatro do Sesc Pinheiros, em São Paulo, nos dias 1 e 2 de julho, trará pitadas do cotidiano e da vida em comunidades indígenas localizadas nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Com a participação de aproximadamente 120 crianças e jovens guaranis e tupi-guaranis, também será lançado durante o evento o CD Ñande Arandu Pyguá.

O disco que reuniu 11 aldeias é parte do projeto Memória Viva Guarani do Instituto Teko Arandu, entidade sem fins lucrativos coordenada pelos próprios índios, voltada à pesquisa e à recuperação do acervo cultural desse povo, é, aliás, o segundo CD lançado pelo projeto, em 1999 estreavam com o Ñande Reko Arandu. O garimpo musical desta vez traz raridades como o Kunhã Mimby, flautas femininas quase em extinção, a fala de um pajé, e o pilar central da sonoridade guarani: os cânticos das crianças, segundo a tradição, encaminhados diretamente por Nhanderu, o criador de tudo que existe.

CÂNTICOS SAGRADOS

A relação do povo guarani com a musica é histórica e antecede o encontro com o branco, conforme explica Timóteo, cacique da aldeia Tenondé Porã, Parelheiros, extremo sul da capital paulista, onde as gravações foram realizadas. “Desde muito tempo os guaranis já possuem vários instrumentos, o violão de madeira leiteira, o violino feito de casca de tatu, e tudo utilizando uma afinação própria”, conta o líder indígena. Entrelaçada aos seus mitos e crenças, a música para eles ocupa um lugar sagrado. “Mantivemos essa sabedoria milenar por mais de quinhentos anos, ela é muito importante para nós”, reforça o cacique. O canto infantil se insere justamente neste contexto, para eles esses cânticos seriam imbuídos do poder de fortalecer a comunidade e de protegê-los dos males mundanos.

O espetáculo, realizado neste fim de semana, pretende mostrar como é o dia em uma aldeia guarani. Uma experiência inédita onde o elenco é composto pelos próprios índios, o que garante a veracidade da apresentação. A história se passa durante a chegada de parentes, vindos de outras aldeias, para a cerimônia do Arapyau (que corresponde às estações da primavera e verão). No decorrer da festa religiosa os atores indígenas apresentam seus costumes e ritos, seu modo de vida e cultura. Oficinas de danças tradicionais, pintura corporal e confecção de colares também constam no roteiro do evento.

SERVIÇO

Espetáculo musical e lançamento do CD Ñande Arandu Pyguá – Memoria Viva Guarani

Quando: sáb., 21h e dom., 18h
Onde: Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme,195, Pinheiros, região oeste, tel. 3095-9400
Quanto: R$ 5 a R$ 10

(A renda adquirida com a venda do CD será integralmente revertida aos trabalhos do Instituto Teko Arandu – Memória Viva Guarani)

Fotos: Instituto Teko Arandu

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