Veneno

Substância tóxica extraída de rã é usada como droga alucinógena

Publicada em 25/04/2008 às 15h04m

O Globo Online, SPTV, Diário de S.Paulo

SÃO PAULO – Uma substância tóxica extraída de uma rã da Amazônia, a Phyllomedusa bicolor, está sendo usada como droga alucinógena nas grandes cidades. O alerta foi feito por João Luiz Cardoso, especialista do Instituto Butantan, em entrevista ao SPTV. Segundo ele, sapos e rãs têm glândulas com venenos que, na natureza, não causam danos ao homem. Porém, se usados indevidamente podem causar parada cardíaca.

O alerta foi feito depois que o comerciante Ademir Tavares, de 52 anos, morador de Pindamonhangaba, morreu após passar na pele uma loção que teria sido feita com base no veneno da rã, conhecido como Kambô. O produto teria sido indicado por um curandeiro, que está sendo ouvido pela polícia e poderá responder por exercício ilegal da medicina.

– Ele não é médico e não poderia estar aplicando uma substância ativa como essa. E talvez até por homicídio se caso constatar que a pessoa veio falecer em decorrência da substância – explica o delegado Vicente Lagioto.

O comerciante teria usado a substância para livrar o filho da dependência de drogas. A aplicação foi recomendada pelo curandeiro Jorge Roberto de Oliveira Rodrigues, de 40 anos, e foi feita na casa dele. Após o ritual, Tavares passou mal e chegou a ser levado ao pronto-socorro de Pindamonhangaba, mas acabou morrendo. O filho da vítima, um rapaz de 25 anos, prestou depoimento na tarde desta quinta-feira.

– Ele disse que o pai o convidou para dar uma volta e o levou até a casa (do curandeiro). Também contou que falaram para ele que nada seria cobrado e que o remédio curava até o vírus Aids – afirmou o delegado titular do 1 DP de Pindamonhangaba, Vicente Lagioto.

Em abril de 2004, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária proibiu o uso do produto e a proibição em todos os veículos de comunicação do Brasil de qualquer propaganda relativa ao uso do Kambô. Segundo a Anvisa, um site divulgava benefícios do uso do Kambô, que é usado por tribos da Amazônia. A denúncia de comercialização ilegal do produto foi feita pela tribo indígena Katuquina ao Ministério do Meio-Ambiente. Na tribo, a substância é usada pelos índios para acabar com a má-sorte na caça e na pesca.

– Esses produtos devem ser usados com critérios médicos. O sapo é absolutamente inofensivo e útil ao sistema, pois come insetos. Ele não causa problema se não for manipulado. Essas rãs lá da Amazônia concentram substância toxica que começa a chegar na área urbana como alucinógeno. O kambô aparece na cidade porque a secreção causa alucinação, é usada como droga – afirmou Cardoso.

Segundo a polícia, o curandeiro teria indicado o veneno para mais quatro pessoas da cidade. O comerciante teria seguido o conselho dele e usado o produto na noite de sábado.

O delegado afirmou que o rapaz relatou que o seu braço e o de seu pai foram queimados com um pedaço de madeira em brasa. Em seguida, a pomada foi aplicada no local e o jovem começou a vomitar imediatamente. Cerca de dez minutos depois, ele voltou ao normal e percebeu que Tavares tinha se trancado no banheiro. Ao olhar pela janela, viu o pai caído. O curandeiro não foi para o hospital com pai e filho e, quando a polícia chegou, não havia ninguém no local.

A polícia agora aguarda o resultado do exame toxicológico da vítima, que deve sair entre 15 e 30 dias, para verificar a causa da morte. O curandeiro pode ser acusado de homicídio, exercício ilegal de medicina e até biopirataria, caso seja comprovado que a pomada é fabricada com substâncias que não podem ser vendidas. Os efeitos do kambô vão de queda de pressão, vômito, taquicardia e náusea até a parada cardíaca.

Apesar da proibição da Anvisa, sites na internet continuam a divulgar supostos benefícios da substância tóxica.

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Publicada em 26/04/2008 às 10:42

Sete usaram veneno de rã durante ritual que matou um

Fabrício Calado Moreira, Diário de S. Paulo

SÃO PAULO – A polícia de Pindamonhangaba, a 140 quilômetros da capital, ouviu nesta sexta-feira o curandeiro Jorge Roberto Rodrigues, de 40 anos, suspeito da morte do comerciante Ademir Tavares, de 52 anos. Ademir morreu sábado, após passar um creme à base de veneno de rã. Segundo o delegado Vicente Lagioto, Rodrigues disse que seis pessoas participaram do ritual, além de Ademir.

– Vamos ouvi-las na próxima semana para que detalhem suas ‘viagens’ – contou o delegado, referindo ao uso do veneno como alucinógeno.

Rodrigues responderá em liberdade até que saia o resultado do exame toxicológico da vítima. Na casa do curandeiro, no centro da cidade, foram apreendidos os materiais usados no ritual, que passarão por perícia. Segundo a polícia, o curandeiro disse que o veneno era extraído de uma rã. No início, a informação era que o veneno era de sapo. O curandeiro teria conhecido o método por meio do Santo Daime, doutrina espiritualista criada por índios.

Tavares recorreu à pomada, chamada kambô (ou kambo), em busca de solução para o vício de seu filho em drogas. A causa de sua morte não foi esclarecida.

– Não há sinais de choque cardíaco ou anafilático, nem mesmo de trauma. Pode ter sido uma interação com alguma outra substância – avalia Lagioto.

Para investigar o caso, o delegado espera contar com a ajuda do Ibama, a quem mandou e-mail, e da Vigilância Sanitária.

Vários médicos foram ouvidos sobre o caso. Para Francisco Siqueira França, do Hospital Vital Brasil, a causa da morte pode ser uma arritmia cardíaca (perturbação nos batimentos).

– Dependendo do quanto a pele absorveu de veneno, ele pode ter tido uma intoxicação aguda que poderia causar a arritmia – explica.

O médico conta que já viu no hospital pacientes com problemas como irritação no olho por passarem a mão em sapos e, depois, nos olhos. O biólogo Carlos Jared ressalta que o kambô propriamente dito usa veneno de perereca, não de sapo ou rã.

– Os venenos são diferentes – diz.

Segundo ele, “é meio óbvio que uma pessoa passe mal por usar um veneno que os anfíbios produzem para se defender de predadores”. Segundo ele, a toxina precisa passar por tratamento químico para se tornar benéfica.

Em defesa do kambô

– Na minha mão, funciona – garante o industrial de Sorocaba Fernando Dini Neto, de 61 anos, que diz praticar o Santo Daime há 12 anos. Há cerca de cinco anos, ele soube do uso do veneno de rã ou sapo para tratar doenças. Dini Neto diz que aplicou a pomada em várias pessoas, sempre com sucesso.

Segundo ele, as contra-indicações para usar o creme incluem quem foi operado do coração, usuários de marcapasso, ou quem tem ponte de safena, quem foi operado há menos de um ano, mulheres grávidas e menstruadas. O industrial afirma que o kambô leva à auto-cura pela harmonização.

Homeopata é contra

O pediatra e homeopata Moisés Chencinski condena o kambô e ressalta que a pomada nada tem a ver com a homeopatia, além de ser proibida pela Anvisa. Segundo ele, o kambô é muito procurado por pessoas interessadas em seus efeitos alucinógenos.

Para o médico, no caso de Tavares, o comerciante se desesperou por causa do vício do filho. No Brasil, diz ele, há uma cultura de favorecer crença em vez de ciência.

1 Comment

  1. Anonymous says:

    Com ayahuasca já senti diversas vezes a agonia da morte. Mas depois das tempestades, bonanças. Este fato com o kambo…dá o que pensar…é que nem aquela folhinha que parece um coração e “sangra”…se errar na dose, adeus!