Os poetas beatniks Allen Ginsberg, Philip Whalen e William Borroughs em Boulder (Colorado), em foto de 1976

TIM CUMMINGS
O yagé pode ser a droga máxima”, conclui o escritor e ícone da contracultura William Burroughs no final de seu primeiro romance, “Junky”, publicado em 1952. Burroughs talvez seja o expoente da galeria de extremistas culturais do século 20; “Almoço Nu” [Ediouro] se tornou o prato do dia da contracultura dos anos 1960, e sua técnica revolucionária do “cut-up” -tanto em fitas e imagens gravadas quanto na página escrita- pressagiou em décadas a cultura viral, de “wireless” e de “sampling” de nosso século, além de ter influenciado inúmeros artistas, escritores e músicos. Mais de meio século mais tarde, o yagé, o cipó amazônico psicotrópico também conhecido como ayahuasca (“cipó da alma”), ainda conserva seu status de mais misterioso e poderoso dos alucinógenos naturais. O livro que Burroughs escreveu sobre sua busca pela “droga máxima”, “The Yage Letters” [As Cartas de Yagé], tem uma história igualmente estranha e secreta. Lançado em 1963, mas escrito uma década antes disso, o livro é há anos uma curiosidade fascinante no cânone de Burroughs, mas uma nova edição, feita por Oliver Harris, o situa em posição mais central na lista de textos-chave do autor.
Diários inéditosHarris introduz a edição original, baseada na correspondência de Burroughs com o poeta Allen Ginsberg, com uma descrição em profundidade da história fragmentada do livro e amplia o texto original, de 96 páginas, com extensos apêndices de materiais novos, incluindo artigos inéditos de Burroughs que são consideravelmente mais reveladores de sua experiência e compreensão do yagé do que boa parte do que foi publicado no livro. “The Yage Letters Redux” [ed. City Lights, 180 págs., US$ 13,95, R$ 30] se completa com trechos inéditos dos diários escritos por Ginsberg sobre a viagem que fez em 1960, seguindo os rastros de Burroughs. Foi um Burroughs perseguido e adoentado pelas drogas que deixou o México no início de 1953, pouco mais de um ano depois de ter acidentalmente matado sua mulher, Joan Vollmer, numa tentativa de conseguir uma façanha à moda de Guilherme Tell -disparando contra um copo que ela equilibrara sobre a cabeça. Atormentado tanto pelo medo e a culpa quanto pelos sintomas da abstinência de opiáceos e partindo virtualmente despreparado para o que estava por vir, o escritor viajou para a Colômbia e o Peru em busca da experiência máxima com o yagé -e de uma maneira de escapar da dependência. O yagé é usado há milhares de anos -um museu em Quito, no Equador, exibe um cálice cerimonial que data de 500 a.C. Mais recentemente, religiões baseadas no yagé, como as igrejas União do Vegetal e Santo Daime, vêm lutando na justiça para conservar o direito ao uso sacramental da droga, enquanto empresas farmacêuticas, como a Pfizer, empreendem batalhas legais próprias para explorar suas propriedades ativas. Na época da viagem de Burroughs, muito pouco era sabido sobre o yagé. Burroughs teve sorte porque, quando chegou à região de Putumayo (Colômbia), em 1953, em busca do curandeiro certo, encontrou Richard Schultes, o famoso etnobotânico que iria contribuir em muito para o conhecimento que se tem hoje da droga. Ambos eram ex-alunos de Harvard e, apesar da evidente apreensão de Schultes diante da falta de ortodoxia de Burroughs, partiram numa expedição de 1.600 quilômetros que levou o autor a seu primeiro contato avassalador com o yagé: ele tomou uma overdose e sofreu convulsões. Uma segunda e mais extática série de contatos com a droga, em Pacullpa, no Peru, acabaria por desencadear algumas das obras de ficção mais extremas jamais publicadas. As cartas a Ginsberg são um misto agitado de antropologia, diário de viagem, paranóia, poesia, epifania, cut-ups, cinismo satírico de drogado e romance epistolar. “Parei aqui para esvaziar minhas entranhas”, começa a primeira carta, em janeiro de 1953, escrita no hotel Colon (de nome apropriado), no Panamá.
Cidade compósitaJá Burroughs descreve a “cidade compósita” -uma visão singularmente burroughsiana e que percorre boa parte de sua obra. “Minaretes, palmeiras, montanhas, selva. Um rio indolente no qual saltam peixes agressivos, imensos parques recobertos de mato onde garotos ficam deitados na grama ou se entretêm em brincadeiras incompreensíveis…” Os panoramas aguçados descritos na carta contêm as sementes de “Almoço Nu”. Na introdução detalhada, Harris revela que “As Cartas de Yagé” começaram como manuscrito datilografado quando Burroughs retornou ao apartamento de Ginsberg, em Nova York, no outono de 1953. O livro acabou sendo publicado por Lawrence Ferlinghetti, da City Lights, que ampliou o texto com as cartas de Ginsberg escritas em 1960 desde o Peru, onde, sete anos após a viagem de Burroughs, também Ginsberg entrou em contato com o espírito poderoso da planta amazônica. “Acendi um cigarro, exalei a fumaça sobre a xícara e tomei todo o seu conteúdo”, ele escreve. “Me deitei, esperando só Deus sabe que outra visão agradável e então comecei a sentir o efeito, e então o cosmo inteiro começou a explodir à minha volta. Acho que foi a mais forte e pior viagem que já tive.” Não que ele não tivesse sido avisado. “Esta é a mais poderosa droga que já experimentei”, escreve Burroughs em artigo inédito enviado a Ginsberg em 1956. O ingrediente ativo do yagé que gera as visões é a harmalina, conhecida no passado como telepatina devido a suas supostas propriedades telepáticas.
Jardim do Éden Os alcalóides da harmela estão presentes na glândula pineal, o “terceiro olho” situado na testa, e parece que, de todas as drogas psicotrópicas, é o yagé que penetra mais fundo na psique -o que pode explicar porque tantos de seus usuários relatam visões quase idênticas de algo como um Jardim do Éden, como se existisse alguma conexão direta com o banco de imagens coletivo humano. “As Carta de Yagé” marcam o momento em que Burroughs mergulhou totalmente em seu universo próprio, plenamente realizado.

Este texto foi publicado no “Independent”.
Tradução de Clara Allain.

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