por Guilherme Vella

gvella@terra.com.br

Objetivos e Contextualização.

 O objetivo da presente proposta dissertativa consiste na efetuação de um recorte descritivo a respeito das possibilidades do campo religioso brasileiro de produzir formas de expressão religiosa (estas entendidas enquanto algo que abrange uma crença específica, seus respectivos rituais e a experiência pessoal daqueles que os vivenciam) fundamentadas no recurso da alteração de consciência auto-induzida. Para tanto, foi tomado como objeto de observação os contextos da Umbanda e do Santo Daime (segmento do CEFLURIS), tendo sido possível constatar entre os mesmos, determinados procedimentos de adoção recíproca de certos elementos (então referentes à crença religiosa e à prática ritual) originalmente pertencentes a cada um destes contextos. 

Em tais contextos, guardando as peculiaridades e a idiossincrasia que lhes são próprias, ocorridos na ocasião do ritual, quando então são induzidos e conduzidos por operações próprias deste, determinados estados alterados de consciência convertem-se no principal fator de mediação com o elemento sagrado cultuado, criando as condições fundamentais para uma devida interação com o mesmo. Interação essa que então constitui um fim buscado coletivamente nas práticas rituais, a partir do qual a experiência religiosa individual pode assim fluir para cada um dos envolvidos na sua repetição no tempo.

Destes estados, pode-se considerar que os mesmos se definem por certas soluções de continuidade de determinada duração no fluxo da vivência subjetiva (em estado de vigília) dos seus sujeitos, estas normalmente acompanhadas de um rico conteúdo afetivo, as quais então podem se dar sobre a percepção (em diferentes graus), o pensamento e a individualidade, caracterizando, assim, uma forma de ruptura temporária com um padrão ordinário de fluência de tal vivência em seu conjunto. Já de um ponto de vista interno aos seus respectivos contextos de ocorrência, depreende-se o seu papel de elo de conexão entre o elemento humano e o elemento sagrado concebido pelo primeiro, através do qual este pode servir-lhe de receptáculo e mensageiro ou percebe-lo subjetivamente em uma manifestação particularizada. E ao fazê-lo, corrobora fundamentalmente a sua própria experiência de se reconhecer como parte de um cosmo ordenado.

A crença e a prática religiosa são aqui apreendidas em sua função ordenadora da experiência do real. Ao partilhar uma ideologia que, por meio de um aparato simbólico próprio, articula todo um sistema de significações e concepções de maneira a dispor, de uma forma bem sua, uma determinada noção do sagrado em seu caráter transcendente, absoluto e de algo valorizado enquanto expressão maior da realidade, bem como em sua morfologia e em suas relações com os homens, um grupo social se permite vivenciar uma determinada ordem universal, assim pensada coletivamente pelos seus integrantes.

Ordem essa na qual, entendidas enquanto algo decorrente de e diretamente relacionado a uma iniciativa oriunda do domínio do sagrado, a gênese, a natureza e a razão de ser do homem e do mundo por este habitado podem ser devidamente explicadas, integrando uma compreensão de conjunto da experiência da natureza acima referida. Ao induzir a uma apreensão do real como possuindo uma dimensão transcendente, expressa e descrita pelo discurso do mito e para a qual então converge a própria noção de “realidade”, tal ordenamento também possibilita explicar, particularmente em seus aspectos mais ásperos, o atual estado de coisas em que se encontra a humanidade, bem como assegurar à mesma uma forma de imortalidade, então expressa nas diversas crenças referentes à uma continuidade da vida após a morte.

Finalmente, se fornece as coordenadas para uma determinada concepção da realidade, também o faz relativamente a uma devida atuação nessa realidade. Isso implica na formulação de diretrizes comportamentais para as relações humanas, para as relações com o meio e para as relações com o elemento sagrado assim concebido e cultuado. Este último aspecto então diz respeito às práticas rituais, cuja finalidade explícita de efetuar um processo de interação com divindades cultuadas, visando algum tipo de benefício para o agente humano que as realiza, assim verificado como produto de uma troca operacionalizada nesse tipo de prática, entre homens e deuses e/ou espíritos, pode ser observada em toda forma de expressão religiosa.

Tal natureza de interação, por sua vez, faz-se imprescindível a uma perspectiva religiosa devido à estreita relação, nesta presente, entre o sagrado enquanto algo concebido e as noções de realidade e eficácia. Por um lado, as realidades, tanto do mundo, quanto do homem, enquanto parte daquele, só podem ser devidamente compreendidas e assimiladas a partir da compreensão e assimilação do elemento sagrado assim entendido, e, por outro, e em decorrência mesmo disso, o singular poder de realização então atribuído a este último define o seu potencial único de atuação sobre os primeiros. Conseqüentemente, ao produzirem a situação na qual se opera essa interação, os rituais religiosos exprimem a iniciativa humana de afirmação e inserção em uma dada ordem cósmica concebida, bem como de resposta a toda manifestação e ameaça de desordem assim sentida seja em uma perspectiva individual, social, natural ou cósmica.

Desse modo, na medida em que permitem dispor, nos rituais próprios dos contextos religiosos pesquisados, as condições ideais a partir das quais essa interação pode ser operacionalizada, os referidos estados alterados de consciência são enfocados nos mesmos  enquanto pedra de toque para a vivência de um ordenamento da experiência do real de caráter religioso, então oferecida em tais contextos. Com a presente proposta, busca-se, portanto, chegar a uma compreensão do campo religioso brasileiro em seu potencial para criar possibilidades de vivência dessa natureza, fundamentadas no recurso da alteração de consciência auto-induzida, esta enquanto sintoma de uma particular tendência humana para a desordem.

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