Edmir Lima de Oliveira (*)

Apresentação na mesa redonda “Os usos da ayahuasca: aspectos religiosos, antropológicos e científicos”. Sexto Movimento pela Vida, Centro de Ensino Médio, Palmas, 25 a 28 de maio de 2005 (**).

Bom dia. Quero agradecer a vocês pela oportunidade de estar trazendo aqui a minha experiência, o contato que tive com o chá nesses anos e pedir permissão para convidar o Cláudio e a Lara, que irão cantar junto comigo o hino de abertura do meu Hinário.

Chegada das estrelas

Um clarão vejo no céu
Por trás da lua desponta o Sol
Um clarão vejo no céu
Por trás da lua desponta o Sol
Vão-se afastando todas as nuvens
Chovendo estrelas nesta sessão
Vão-se afastando todas as nuvens
Chovendo estrelas nesta sessão

AUM, AUM
AUM, AUM
AUM, AUM
AUM, AUM

Vêm descendo da floresta
Lá do alto do astral
Vêm descendo da floresta
Lá do alto do astral
Vêm chegando minhas estrelas
Lá do Trono Universal
Vêm chegando minhas estrelas
Lá do Trono Universal

AUM, AUM
AUM, AUM
AUM, AUM
AUM, AUM

As estrelas de Jesus Cristo
E da sempre Virgem Maria
As estrelas de Jesus Cristo
E da sempre Virgem Maria
São seus anjos encantados
Vem trazendo a santa guia
São seus anjos encantados
Vem trazendo a santa guia

AUM, AUM
AUM, AUM
AUM, AUM
AUM, AUM

Vêm descendo da floresta
Lá do alto do astral
Vêm descendo da floresta
Lá do alto do astral
Vêm chegando minhas estrelas
Lá do Trono Universal
Vêm chegando minhas estrelas
Lá do Trono Universal

AUM, AUM
AUM, AUM
AUM, AUM
AUM, AUM

[Aplausos]

Gostaria de ter a oportunidade de contar um pouco da minha trajetória. Vocês verão nesse hino que foram apresentados vários elementos de nossa cultura popular e também uma relação com outras formas de abordagem do autoconhecimento associada ao ioga.

Comecei aos quinze anos a fazer meus estudos, práticas de ioga, especificamente ligadas ao Krya ioga, que é uma das técnicas que mais se expande atualmente. Vou contar de uma forma simples a minha experiência pessoal, de busca interior. Desde criança, sentia um chamamento interno de contato com o êxtase, a busca da felicidade que cada um de nós tem. Já aos cinco anos, fugia de casa e ia para a igreja, onde tinha incenso, cânticos, flores e achava aquilo tudo uma coisa maravilhosa que me transportava a regiões internas, trazendo-me muita felicidade. Sempre fazia isso e não me interessava muito com o que estava acontecendo na igreja, até mesmo porque nem entendia. Mas aquele clima dos cânticos e do cheiro de incenso me transportava a regiões de muita felicidade.

Tem uma história curiosa, que respeito a algo que faz parte da cultura nordestina popular, que é o espiritismo de mesa branca. Quando eu tinha lá por uns nove anos, eu estudava muito longe de casa e sempre quando voltava da escola passava por um lugar bastante ermo. Numa dessas voltas eu passei e ouvi um piado: “Piu, Piu”. Fiquei um pouco assustado, porque o pessoal sempre falava: “Olha, tenha cuidado! Quando passar naquele lugar deserto e ouvir um piado, pode ser cobra”. Não sei se cobra pia, eu nunca ouvi, mas o povo dizia isso e eu tinha cuidado. No dia que escutei o piado, não tinha casa por perto, olhei ao redor e vi um pintinho todo molhado e melado, então pensei: “Meus Deus que é isso? Esse pobrezinho aqui?”. Eu o levei para casa, coloquei-o em baixo do braço junto com os livros e dei um banho no pinto, alimentei-o e amarrei-o no fundo do quintal.

No dia seguinte, a dona da casa na qual eu morava adoeceu, apareceram umas manchas no corpo, ninguém soube o que era e ela foi ao médico. O pessoal dizia assim: “Olha, isso aqui é coisa de macumba”. Não sei se vocês conhecem o termo “macumba”, lá no Recife ele é muito conhecido. Nessa ocasião, ela foi a um centro espírita de mesa branca e disseram: “Na sua casa tem um objeto de despacho” – a palavra é essa – “e você tem que devolver porque a entidade está cobrando”. Afirmou que não sabia do que se tratava, mas era o pinto… [risadas]. Então ela falou: “Não, isso não tem em minha casa. Imagina!”. E a pessoa insistiu que esse objeto precisava ser entregue novamente para a entidade porque ela estava cobrando.

Passaram-se os dias e a minha avó – na época eu morava com ela – adoeceu também com as mesmas características no corpo. Ficaram as duas no mesmo estado e a pessoa lá do centro disse assim: “Olha, trata-se do mesmo caso, causado pelo objeto de macumba, o despacho, que tem na casa de vocês”. Então a minha avó lembrou que eu tinha amarrado o tal pinto e o estava alimentando. Nós três fomos ao centro espírita e o entregamos ao xamã, que nos disse assim: “É esse de fato o objeto que vocês terão que devolver e para isso é necessário um ritual específico”. A partir de então as coitadas gastaram dinheiro, compraram um monte de coisas e comida, fizeram o despacho de volta. No dia seguinte as duas estavam curadas. Por conta disso, nós três tivemos que ficar freqüentando o centro durante um certo período para fazer a limpeza. Eu não me recordo qual entidade estava envolvida nessa história, mas de qualquer forma esse foi meu primeiro contato com a realidade que eu chamaria de mediúnica. Não fazia a menor idéia do que isso representava e na verdade essa experiência me trouxe o descortinar de um mundo muito diferente.

Nessa idade de nove anos comecei a participar e a vivenciar uma interação muito grande no centro, até que chegou a um ponto aonde eu ouvia aquelas chamadas e conhecia a entidade que estava relacionada com elas, uma pessoa incorporava, mas os demais muitas vezes não sabiam dizer qual era a chamada. O tempo passou e aos treze anos eu fui ficando um pouco mais vaidoso, porque teria que fazer um “trabalho de cabeça” e usar umas guias, mas pensei: “Vou colocar esse colar no meu pescoço? Não tenho vontade de fazer isso”. Foi aí que me afastei e conheci o espiritismo kardecista com uma abordagem completamente diferente. Continuei na minha trajetória e com dezesseis anos comecei a praticar o ioga. Sobre essa prática, o mantra universal AUM contido em meu primeiro hino faz referência.

Com a linha do ioga, a busca se tornou muito mais intensa, mas, ao mesmo tempo que você focaliza seu objetivo, começa a descobrir coisas que são difíceis de lidar. Participei de terapias alternativas e nelas eu via que a minha mente era muito mais confusa do que imaginava. Foi nessa época que eu conheci e bebi o chá pela primeira vez. Uma coisa fantástica porque me deu um distanciamento e me permitiu perceber quem eu era e o que eu estava procurando.

Ao contar essa história, tenho somente a intenção de relatar minha vivência pessoal, o que me ampliou a percepção acerca de quem eu era e do que estou buscando no mundo. Conheci o chá em 1980 com o grupo do Augusto [Porto Velho, dissidência da UDV], com o qual permaneci durante cinco anos, período esse que foi de muito valor para mim. Só depois conheci o grupo do Santo Daime através do Fernando de La Rocque e fiquei três anos. Foi uma época maravilhosa para mim. Quando cheguei ao Acre e conheci o Mestre Antonio Geraldo [da Barquinha], senti identidade com a minha história nordestina. O caso do pintinho que acabei de contar tem a ver com os trabalhos da Barquinha, que são muito parecidos com os de mesa branca que acontecem no nordeste, por possuírem um enfoque muito mais associado, no meu ponto de vista, a essa cultura. Ao conhecer o Mestre Antonio Geraldo, senti uma completa identificação com aquilo que ele fazia e com o que eu almejava. Como disse anteriormente, fiquei cinco anos com o Mestre Antonio Geraldo, fazendo trabalhos em Brasília. Enquanto eu estava trabalhando com o Fernando começou a surgir o meu Hinário; o primeiro hino nós cantamos aqui com o Cláudio e a Lara.

Agradeço pela força que vocês deram, esse Hinário foi crescendo e hoje ele tem cento e quarenta e sete hinos, espero que tenha ficado por aí mesmo. De vez em quando alguém me convida a cantar e vou com muito prazer. Quem convidar, se houver possibilidade, a gente canta. Dentro desse Hinário tem toda uma relação, uma história de vida, que eu estou contando para vocês e de algum modo ela se reflete dentro desses hinos. Com respeito à inspiração, fala-se muito: “recebi esse hino”, mas a inspiração é algo que te toma e que você canta ou canta e ao fazer traz uma certa realização interior, em termos espirituais, de tranqüilidade e felicidade. As pessoas que estão ao nosso redor e que também desejam participar disso podem sentir a mesma coisa. O Hinário é cantado atualmente aos domingos, com o nosso grupinho, cinco pessoas que vão lá para casa. Cantamos esporadicamente com o pessoal do Santo Daime, quando alguém nos convida para ir na igreja.

Quero agradecer a vocês e convidá-los, quando de passagem por Brasília, a participar conosco. Será um grande prazer para nós.

Muito obrigado a todos.

Apresentação transcrita pelo biólogo Rafael Guimarães dos Santos, estudioso das religiões ayahuasqueiras (banisteria@pop.com.br), editada por ele e por Lucas Kastrup Rehen, também pesquisador deste tema e mestrando em ciências sociais (lkastrup@terra.com.br). O texto foi depois submetido à apreciação do autor.

_______

(*) Edmir Lima de Oliveira nasceu em Recife em 1939. Cursou o primeiro anoCiências Sociais na Faculdade de Filosofia de Pernambuco e o primeiro ano do curso deComunicação no Centro Universitário de Brasília – UniCEUB. Atualmentetrabalha com massagem e artes plásticas. Em 1980, em Brasília, bebeupela primeira vez o vegetal com Mestre Augusto, dirigente de umadissidência da União do Vegetal em Porto Velho (RO). Em meados de 1985atuou por volta de um ano como Mestre Representante do núcleo Estrelado Norte, em Brasília (DF), núcleo este ligado ao grupo de MestreAugusto. Em 1986 conheceu a igreja Céu do Planalto, do Santo Daime, emBrasília (DF), tendo participado durante três anos deste grupo e, inclusive, como um de seus fundadores. Em 1989 começou a participardos rituais da Barquinha do Antonio Geraldo, em Rio Branco (AC). Em1990 fundou a Casa de Oração São Francisco de Assis, filial daBarquinha do Antonio Geraldo em Brasília (DF) e em 1996 fechou-a. Atualmente canta seu hinário, o “Hinário das Estrelas”, quandosolicitado, sendo acompanhado por um grupo de cerca de cinco pessoas.

(**) A antropóloga Bia Labate prestou uma consultoria para o Sexto Movimento pela Vida para a organização desta mesa redonda, composta por:
Mediadora: Bia Labate – antropóloga – (SP) (bia_labate@yahoo.com.br)
1.Ovídio Octavio Pamplona Lobato – médico neurologista – (PA) (ipadma1@ig.com.br)
2. Edmir Oliveira – Dirigente da Barquinha – (DF) (edmiroliveira@ibest.com.br)
4. Helio Gonçalves – médico e dirigente da UDV – (GO) (demec@udv.org.br)
3. Wilson Gonzaga – médico psiquiatra e dirigente da ABLUSA – Associação Beneficente Luz de Salomão – (SP) (wgonzaga@institutohermes.com.br)
5. Paulo Roberto Souza e Silva – Dirigente do Santo Daime – (RJ) (ceflusmme@aol.com)
6. Rogério Moacir Cunha – dirigente da Escola de Comunhão da Ayahuasca Mística Universal (TO) (rogemcunha@yahoo.com.br)
7. Leopardo Yawabane Huni Kuin – estudante do nishi- pae (ayahuasca) Huni Kuin (Kaxinawá) – (AC/SP) (yawabane@terra.com.br)

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