Edward MacRae (*)

Texto enviado em substituição a participação na mesa redonda “Xamanismo, xamanismo urbano, xamanismo universal, xamanismo crístico, neoxamanismo: afinal o que é isto?”, Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo, organização Léo Artése/ Associação Lua Cheia – Pax, São Paulo, 13 a 20 de março de 2005. (**)

Um dos aspectos marcantes do século XX foi a crescente desilusão com as perspectivas de realização e crescimento pessoal oferecidas pela moderna civilização tecnológica. Em algumas poucas décadas o ser humano parece ter conseguido transcender quase todos os limites que milenariamente o haviam tolhido. A eletricidade, o motor de explosão, a eletrônica e a energia nuclear deram-lhe poderes até então considerados atributos dos deuses e semideuses. Através do cultivo da razão científica, o homem desencantou a natureza e julgou ter se tornado seu mestre. Mas suas conquistas foram somente parciais e ele nunca conseguiu dominar o mistério da morte assim como só postergou a doença e a decrepitude da velhice. Deixando intactas as principais fontes de sua inquietude existencial, as proezas tecnológicas do ser humano pouco serviram para elevar o seu coeficiente de felicidade. Seus sucessos parecem só terem servido para aguçar seu apetite por novas conquistas, num processo sem fim e onde as perspectivas de satisfação tornam-se cada vez mais quiméricas.

Tendo perdido a antiga percepção de sua conexão com seu meio circundante, o homem também perdeu sua noção de quem era. A adoção do individualismo egocêntrico, especialmente exacerbado na atualidade, foi uma das maneiras com que tentou preencher seu vazio. Mas isso se mostra igualmente frustrante e até os ideais de amor romântico e da família nuclear como fonte suprema de realização pessoal parecem cada vez mais inatingíveis. Hoje uma das grandes fontes de sofrimento vem do vazio existencial experienciado como crise de identidade, um sentimento de não saber quem se é, de qual o sentido de nossa vida.

Assim todos, indivíduos ou nações inteiras, se vêem confrontados com a insegurança ou o desencanto da vida moderna. As maneiras de lidar com essa situação têm variado de acordo com as circunstâncias, e as pessoas envolvidas. Alguns, mais bem aquinhoados, tentam apaziguar suas angustias através de diferentes modalidades de consumo. Outros, em situações políticas ou econômicas mais difíceis, passam a negar as conquistas da razão e dos valores humanistas e democráticos que as acompanharam e procuram reverter o quadro sociocultural para as condições primitivas de coesão grupal, não hesitando em empregar métodos de grande violência. As barbáries nazistas ou de “limpeza étnica” nos Balcãs são apenas exemplos mais extremados de brutalidade física perpetrados na afirmação de identidades raciais ou culturais.

Mesmo entre os mais afortunados essas tendências se manifestam de formas mais sutis mas igualmente perigosas, como quando grupos religiosos ou espiritualistas passam a proclamar as virtudes únicas de determinadas tradições, tidas como “puras”, espezinhando outras que consideram sincréticas, mestiças ou deturpadas. Ignoram aí a natureza dinâmica de toda cultura, que torna falsa qualquer tentativa de preservar, congelar ou retomar tradições antigas, como se o passar do tempo não tivesse ocorrido e alterado inescapavelmente o contexto geral e o significado de cada um dos seus componentes.

Na ânsia de encontrar maneiras de suprir essas carências profundas, ressurge, em regiões mais desenvolvidas tecnologicamente, um interesse pelas formas arcaicas de relação com o cosmos, buscando-se num passado idealizado, maneiras de o ser humano se sentir visceralmente conectado aos seus semelhantes e ao seu meio. Entre essas técnicas arcaicas de êxtase sobressai-se o xamanismo, provavelmente a primeira manifestação da busca espiritual humana e cujos traços remanescentes podem ser encontrados até hoje em quase todas as regiões.

Em tempos remotos, os seres humanos, em situação de total fragilidade perante as forças da natureza e vivendo em temor dos seus próprios semelhantes, já que cada comunidade estava em constante estado de guerra com as vizinhas, recorria aos préstimos de certos indivíduos para aliviarem a sua insegurança e darem um sentido ao caos de suas vidas. Numa época em que a sobrevivência dependia do uso astucioso da força física e da coesão interna das pequenas comunidades, estes personagens, os xamãs, eram primordialmente concebidos como guerreiros. Dotados de armas e poderes diferentes dos usuais lutavam contra os inimigos percebidos de seus povos, fossem eles demônios ou humanos.

Grandes conhecedores da psicologia humana e do poder da sugestão, recorriam às mais variadas técnicas ritualísticas para despertar as importantes forças latentes no ser humano, como as de cura e regeneração. Para tanto, freqüentemente provocavam estados de consciência alterada, algumas vezes somente para si, mas em outras permitindo que seus companheiros também os acompanhassem em suas viagens aos mundos espirituais. Nessas culturas orais, eram o receptáculo do conhecimento, os encarregados de lembrar os feitos dos antepassados. Também presidiam os ritos de passagem quando, por exemplo, os jovens eram definitivamente incorporados à comunidade dos adultos ou quando os espíritos dos mortos tinham que ser contidos e despachados para uma outra realidade. As cerimônias que conduziam e os estados de transe que incitavam eram fontes de alento e renovação para suas comunidades, inspirando seus integrantes a terem coragem para enfrentar as dores e agruras da vida assim como seus inimigos.

Os xamãs tornavam-se, dessa forma, poderosos pólos aglutinadores da consciência comunitária e serviam como referências fundamentais para a identidade grupal. Esta, porém, como todo sentimento de pertencimento, era de natureza contrastante e a adesão a um grupo implicava automaticamente no rechaço a todos os outros.

Hoje, após séculos de desprezo e esquecimento, as técnicas empregadas pelos xamãs dos tempos arcaicos, voltam a interessar. Seus conhecimentos da psiquê parecem oferecer importantes pistas para os modernos cientistas lidarem com alguns dos males da alma humana. Para muitos, a possibilidade que nos apresentam de uma retomada de uma consciência da integração do homem com a natureza, uma ressacralização do mundo, parece, também, ser a única esperança de evitar a série de catástrofes ecológicas que a cegueira imediatista de nossa civilização vem armando para si.

Porém estamos em outro patamar histórico. Não podemos ignorar as grandes conquistas da ciência. A própria tecnologia que tanto nos frustra também nos levou a conceber o nosso planeta como a “espaçonave Terra”, um sistema integrado de recursos finitos.Nisso temos que conceber a humanidade como uma unidade, não sendo mais possível identificações exclusivistas com pequenas comunidades, concebendo todas as outras como inimigas. O desenvolvimento de nosso pensamento, de ciências como a biologia ou a antropologia, não permite mais pensar em purezas. Nossa natureza mestiça é evidente a qualquer olhar mais isento. Identidades excludentes tornaram–se impossíveis e indesejáveis nas nossas sociedades complexas. Assim a retomada do xamanismo também deve se dar de maneira mais ampla e generosa. O alargamento de nossos horizontes torna inviável o antigo exclusivismo e o xamã deve estar cônscio de sua responsabilidade para com toda a espécie humana e sua ética tem que se tornar universalista.

Esse é o caminho que Léo Artése nos aponta neste livro. Fazendo as conexões entre os conhecimentos esotéricos do Oriente e do Ocidente, Cabala e pajelança indígena, paganismo e ética cristã, este novo xamanismo aponta para um caminho espiritual alternativo ao consumismo estéril, mas evita cair na estreiteza dos horizontes e na xenofobia dos povos do passado.

Campos do Jordão, fevereiro, 2000.

__________

(*) Edward MacRae nasceu em 1946, em São Paulo, filho de pai escocês e mãe brasileira. Foi criado na Grã Bretanha onde se formou em Psicologia Social pela Universidade de Sussex e recebeu o grau de Mestre em Sociologia da América Latina pela Universidade de Essex. De volta ao Brasil estudou antropologia na Unicamp e na USP onde se doutorou em 1986 com a tese “O Militante Homossexual no Brasil da Abertura”. Desde então vem pesquisando a questão das drogas, trabalhando inicialmente no Instituto de Medicina Social e de Criminologia do Estado de São Paulo-IMESC e no Programa de Orientação e Atendimento à Drogadependência-PROAD/EPM.Foi membro do Conselho Estadual de Entorpecentes de São Paulo.Atualmente mora em Salvador onde leciona antropologia na Universidade Federal da Bahia e é pesquisador associado do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas-CETAD/UFBA. Lá ministra cursos de pós-graduação em torno de temas relacionados a socioantropologia das drogas.É atualmente representante do Ministério da Cultura perante o Conselho Nacional Antidrogas -CONAD e membro da Câmara de Assessoramento Técnico-científico do CONAD.
Tem escrito livros sobre sexualidade, movimentos sociais, o uso socialmente integrado de substâncias psicoativas e redução de danos associados ao uso de drogas.
macrae@uol.com.br
http://www.neip.info

(**) A participação de Edward MacRae estava oficialmente prevista no evento, porém, infelizmente, o pesquisador não pode comparecer. Para registrar de alguma forma suas idéias sobre alguns dos temas propostos pela mesa, enviou o presente texto. Trata-se do prefácio que escreveu sobre o primeiro livro de Léo Artése, o Vôo da Águia, publicado originalmente em: ARTÉSE, Léo. O Vôo da Águia. Uma Iniciação aos Mistérios do Xamanismo. São Paulo, Editora Rocca, 2000, pp.11-15 , 2a edição.

Léo Artése (Céu da Lua Cheia/ Vôo da Águia) coordenou a mesa, idealizada e organizada pela antropóloga Bia Labate, que prestou consultoria ao Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo. A mesa pretendia discutir os seguintes temas:
– Como definir o “xamanismo”?
– Qual seria o melhor termo para classificar as práticas contemporâneas?
– Quais são critérios que permitem classificar quais atividades são ou não “xamânicas”?
– Quais são as fronteiras e limites entre o xamanismo “tradicional” e o “contemporâneo”?
– Como lideranças ou xamãs indígenas vêem os xamãs brancos?
– Como os xamãs urbanos compreendem o discurso acadêmico que critica o “neoxamanismo”?
– Como separar “verdadeiros” e “falsos” xamãs?
– Que princípios éticos norteiam ou deveriam nortear as práticas xamânicas?

Foi composta por:

1 – Carminha Levy (Paz Géia): A universalidade e a expansão do xamanismo
2 – Sthan Xanniã (Filhos da Terra) – Nativo ou nathus? O saber nativo
3 – Cyro Leãoo (Filhos da Terra): O xamã urbano e o retorno ao sagrado
4 – Clêudio Bueno (Pax): O xamanismo do século XXI
5 – Tatiana Menkaiká (Comunidad Tawantisuyu/ Terra Mística)- Xamanismo e espiritualidade nativa (presença virtual – texto lido por Bia Labate)
6 – Fabiano Maia Sales Yawabané Huni-Kuin (estudante da pajelança Kaxinawá): Huni Mukaiá – Os pajés Huni-Kuin
7 – Wiannã (curador Kariri Xocó/ Filhos da Terra): Existem falsos xamãs?

Comments are closed.