Por Henrique Carneiro
Historiador – USP

Basiléia é uma cidade estrategicamente localizada no chamado “cotovelo” do Reno, onde esse rio, que é o eixo vertical da Europa, dirige-se para o norte constituindo a atual fronteira franco-alemã. No século XIII, a primeira ponte desse rio foi construída nessa cidade, onde, mais tarde, uma universidade, criada em 1460, foi o cenário da rebelião de Paracelso, o “Lutero da Medicina”, contra a ortodoxia médica e farmacêutica no começo do século XVI, em um dos mais exemplares desafios à autoridade estabelecida.

Em 1501 a cidade juntou-se à Confederação Helvética e continuou sendo um centro de circulação de idéias, pessoas e mercadorias. Especialmente o papel e a produção de livros, pois a revolução de Gutenberg teve como caminho exatamente o vale e as cidades do Reno. Foí aí que Vesálio publicou, em 1453, De humanis corporis fabrica, a obra que fundou a anatomia moderna. Erasmo viveu muitos anos e morreu em Basiléia, onde está enterrado na Catedral. Este papel de difusora de idéias e de local de refúgio entre fronteiras levou a que Basiléia (Basel em alemão, Bâle, em francês) ostente até hoje o lema do “espírito de Basel”, sob o qual acaba de realizar-se um Fórum singular.

Esta mesma cidade de Basiléia, na Suíça, há 65 anos viu nascer o LSD, o enfant terrible do químico Albert Hoffman, e por esta razão reuniu durante três dias, de 21 a 23 de março de 2008, cerca de dois mil participantes do Fórum Psicodélico Mundial, organizado pela entidade ecologista suíça Gaia Media Foundation.
Descoberto acidentalmente em 1943, pelo químico suíço Albert Hofmann, num laboratório da Sandoz, a Dietilamida do Ácido Lisérgico (cuja sigla em alemão é LSD), tornou-se uma das moléculas psicoativas de nome mais conhecido e de efeitos os mais oficialmente ignorados e temidos, dado que sua proibição, desde 1966 nos EUA e desde 1973 na própria Suíça, inclusive para usos científicos, limitou a possibilidade da pesquisa científica em todas as esferas institucionais, o que não impediu o florescimento de uma contracultura psicodélica alternativa em muitos outros terrenos.

Essa proibição parece ter começado a recuar, pois neste ano de 2008 foi aprovado pela primeira vez em muitas décadas um estudo clínico na Suíça, sob a responsabilidade do psiquiatra Peter Gasser, para uso de LSD no tratamento da angústia de pacientes terminais de câncer . Também nos EUA, sob impulso da Associação Multidisciplinar de Estudos sobre Psicodélicos (MAPS), coordenada por Rick Doblin, desenvolve-se investigação científica autorizada oficialmente para uso de MDMA (Michael Mithoefer, psiquiatra na Universidade da Carolina do Sul) em casos de ansiedade e estresse pós-traumático . Em diversos países, substâncias tais como psilocibina, ibogaína e ketamina vêm sendo investigadas para tratamento de dependências químicas.

Albert Hofmann completou, em 11 de janeiro deste ano, 102 anos e, na semana da Páscoa, o Fórum Psicodélico Mundial que reúne pela segunda vez (a primeira, há dois anos, foi por ocasião do centenário de Hofmann) pesquisadores, estudiosos e entusiastas do LSD e de outras substâncias psicodélicas, homenageou-o na pessoa de seu neto Simon, pois o próprio Albert não pode comparecer.

Nesta ocasião, também se festejou a aprovação na Suíça do referido projeto de pesquisa psicoterapêutica com LSD, o primeiro após muitas décadas de proibição, perseguição e demonização desta substância que, contudo, vem demonstrando, em inúmeros casos, usos eficazes em tratamentos psicoterapêuticos e psicanalíticos, especialmente em pacientes com problemas graves como alcoolismo crônico, angústia em câncer, estresse pós-traumático, etc., além de um significativo e amplo espectro de usos extra-clínicos.

Nesse sentido de usos “psiconáuticos”, se incluiriam tanto os estéticos (que inspiraram desde uma escritora como Clarice Lispector até músicos como os Beatles), como os filosóficos ou científicos (James Watson, um dos descobridores da estrutura do DNA, foi um dos cientistas que reconheceu ter tido parte da sua inspiração sob efeitos desta substância), ou até mesmo os espirituais ou religiosos.
Nos anos 50/60, verificou-se um enorme impacto religioso do LSD, tanto no contexto cristão, como na famosa experiência de Walter Pahnke para sua tese de PhD para a Harvard Divinity School, em 1962 de uso de psicodélicos por estudantes de teologia na capela da Universidade de Boston na sexta-feira santa, como na sua forte influência sobre a divulgação e popularização do budismo no Ocidente. As religiões enteogênicas (nome dado às substâncias que “trazem a divindade”) também se expandem pelo mundo, além dos pioneiros, mas relativamente restritos cultos indígenas do peiote nos Estados Unidos e da iboga no Gabão e na República dos Camarões, na África, especialmente por meio da tradição do xamanismo amazônico ayahuasqueiro e das religiões do Daime e do Vegetal, com origem na Amazônia brasileira, mas hoje presentes em vários países. E, do ponto de vista histórico, se reinterpretam à luz da hipótese de uso de psicoativos diversos fenômenos, desde a pintura rupestre em cavernas pré-históricas até a natureza dos cultos de mistérios da antiguidade, como o de Elêusis, na Grécia, ou do Soma, na Índia védica.

No Fórum Psicodélico Mundial reuniram-se dois milhares de assistentes para 60 seminários que contaram com a participação de 48 conferencistas principais e 24 pesquisadores “rising researchers”, coordenados por Tom Roberts, professor emérito de Psicologia Educacional na Northern Illinois University.

Entre os primeiros, 21 dos Estados Unidos, doze da Suíça, dez da Alemanha e um respectivamente da Grã-Bretanha, Canadá, Holanda, Rússia e Colômbia. Entre os pesquisadores emergentes contavam-se dez dos Estados Unidos, quatro da Grã-Bretanha, quatro do Brasil e um respectivamente da Finlândia, Grécia, Canadá, Espanha e República Tcheca. Tal presença mostra uma clara predominância dos Estados Unidos, Alemanha e Suíça, onde não só desenvolveram-se os mais importantes movimentos político-culturais, mas se localiza a produção acadêmica mais considerável. A presença de brasileiros reflete especialmente a importância do tema das religiões brasileiras ligadas à ayahuasca.

Os temas do Fórum iam desde as pesquisas farmacológicas, de usos médicos e psicoterapêuticos até os significados religiosos, estéticos e políticos da cultura psicodélica e da repressão e interdição por ela sofrida. O sentido multidisciplinar desse encontro decorria do fato de reunir diversos campos da atividade humana num diálogo sobre uma substância psicoativa cujo uso é um objeto unificador do conhecimento científico e do poético, do político e do visionário na abordagem das conseqüências da descoberta dos efeitos de uma molécula, o LSD.

O conhecimento neuroquímico avançou imensamente com a descoberta do LSD, de estrutura assemelhada ao 5-HT, ou serotonina, endógena em nosso cérebro, cuja função neurotransmissora só foi identificada devido a sua semelhança com as moléculas do LSD, da DMT e da Psilocibina. Especialistas nesse campo como Denis McKenna discutiram aspectos neuroquímicos e etnofarmacológicos. Psiquiatras da Universidade de Hannover apresentaram suas pesquisas sobre efeitos antidepressivos de LSD e psilocibina. Etnobotânicos como o alemão Christian Ratsch, antropólogos como o estadunidense Michael Winkelman, juristas como o suiço Pierre Joset, artistas como o pintor Alex Grey, psiquiatras como o tcheco Stanislav Grof, e outros, trouxeram em cada um dos seminários e palestras o estado da arte das pesquisas sobre psicoativos em cada um dos seus campos de especialidade.

A delegação brasileira discutiu o tema da Ayahuasca no que se refere a aspectos da antropologia das religiões (Beatriz C. Labate, antropóloga da Unicamp), da farmacologia humana experimental (Rafael G. dos Santos, doutorando de farmacologia em Barcelona) e da saúde mental dos usuários (Paulo César R. Barbosa, professor de Saúde Mental na Universidade Estadual da Bahia-UEB); e também o da Cannabis no que se refere ao seu significado histórico social e cultural no Brasil (Henrique S. Carneiro, professor de História na Universidade de São Paulo-USP).

Os veteranos do movimento hippie californiano, como Carolyn Garcia, viúva de Jerry Garcia, do Grateful Dead, lembraram os acid-tests do ônibus de Ken Kesey e dos Merry Pranksters. Um dos professores de Psicologia afastados de Harvard juntamente com Timothy Leary, em 1963, Ralph Metzner reuniu de novo o fio da continuidade das pesquisas acadêmicas. As pesquisas sobre o uso em pacientes terminais evocou a memória de Aldous Huxley. A presença de mestres do budismo e do hinduismo e de um xamã colombiano não pode deixar esquecer a relação intrínseca entre religiosidade e técnicas de êxtase. E, finalmente, a leitura, na cerimônia de encerramento, da gravação de um prisioneiro condenado a duas penas de prisão perpétua na Inglaterra, sob a acusação de fabricação de LSD, trouxe o foco sobre o aspecto mais brutal e destrutivo da guerra contra as drogas: o seu elevado número de prisioneiros, que nos Estados Unidos chega à metade do total de detentos.

Mistura de festa de aniversário para Albert Hofmann, congresso científico sobre LSD, encontro político contracultural, congraçamento de religiosidades new age e turismo psicodélico na cidade de sua descoberta, o Fórum Psicodélico Mundial expressou um renascimento do debate sobre o tema do LSD, que não é apenas um modismo ocasional das raves juvenis de todo o mundo ou de alguns psicoterapeutas criativos, mas um assunto de alto interesse clínico e extra-clínico com imensas potencialidades de usos benéficos e construtivos realizados em condições adequadas.

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