Clarice Novaes da Mota (*)

Palestra apresentada dia 18 de março de 2005 no Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo. Organização Léo Artése/Associação Lua Cheia – Pax, São Paulo, 13 a 20 de março de 2005. (**)

Existe em antropologia um personagem que se descreve como “herói cultural”. É assim designada a pessoa, ou ser vivo – seja imaterial, animal ou vegetal – que estabelece as bases da cultura em uma sociedade, que traz leis, regras de conduta, que orienta os membros daquela sociedade sobre questões religiosas, enfim, que traz a ordem para onde reinava o caos social. Moisés, por exemplo, foi um fidedigno herói cultural.

Os xamãs, ou líderes religiosos das nações indígenas pelo mundo afora, também podem ser considerados como os heróis culturais de suas sociedades. O xamã tem sido visto também como um guerreiro, ou seja, alguém que luta por seu povo e seus direitos. Mas quero colocar aqui que, acima de tudo, o xamã nativo é um guerreiro, antes de tudo, pacífico. Isto não quer dizer que não empunhe armas bélicas, se necessário, mas o tipo de guerra que ele, ou ela, trava geralmente são dirigidas ao bem-estar geral, à paz social e têm lugar na esfera de um espaço considerado como pertencente ao mundo espiritual, ou o mundo que não se vê ordinariamente.

Ele/ela é, portanto, um herói, heroína, antes de tudo, pacífico/a. Na sua trajetória ou formação, este ser tem que, em primeiro lugar, enfrentar-se a si mesmo, suas limitações, sua solidão existencial e seu desespero. Em segundo lugar, tem que abdicar de tudo que esteja fora ou atrapalhando seu caminho rumo a seu destino de liderança espiritual de um povo. As mulheres, por exemplo, começam a exercer sua prática xamanística após a menopausa, pois já não terão que se ocupar tanto com filhos pequenos, às vezes nem mesmo com maridos, além de não mais terem o perigo de terem um corpo aberto com a perda do sangue menstrual.

Luis Pellegrini, em palestra recente no Encontro da Nova Consciência (Campina Grande), identificou quatro qualidades essenciais do guerreiro pacífico, que podem ser identificadas também com as dos xamãs nativos:

1) Profundo senso de comunidade: pertencimento, pois sabe que é um ser diferenciado, mas que se estabelece dentro de uma comunidade específica que lhe dá força e autoridade, criando e implantando raízes ideológicas. É esta união com seu povo que permite também que leve seu poder curador transcendental para fora, mas primeiramente esse ser se ocupa de cuidar que seu povo esteja livre, espiritualmente protegido e capaz de seguir adiante no mundo material.
2) Compaixão: sente-se unido aos outros, dos quais tem que cuidar, exercendo compreensão profunda sobre os erros e as quedas alheias; na sua forma irada castiga e estabelece limites, sem destruir. É o guardião da luz espiritual que direciona e ilumina o caminho de seu povo, seus discípulos e participantes de sua comunidade.
3) Humildade: não quer dizer subserviência, mas a capacidade de entender seus limites e de ser livre com responsabilidade. Entende que há forças espirituais superiores, às quais deve pedir por ajuda, estimar e cuidar, para que estas por sua vez lhe tragam forças, lhe dêem respostas para os problemas da humanidade.
4) Consciência de limites: o mundo que não se vê, que está além do alcance dos seres comuns, deve ser respeitado, e um xamã nobre não se vangloria de sua capacidade, mas humildemente a requisita constantemente, com o coração cheio de gratidão. Além disto, a arrogância traz a perda do senso de limites, levando conseqüentemente à perda dos poderes espirituais necessários para o trabalho do xamã.

O herói cultural não é um santo, sabe que pode cometer erros, e os comete, sabe que existem limites a serem enfrentados, alguns para serem respeitados, e outros para serem ultrapassados. Em vários casos, a própria comunidade impõe certos limites ao poder exercido pelos xamãs, tanto no mundo espiritual como no mundo da sociabilidade.

Os xamãs são os herdeiros das tradições mais antigas e mais amplamente distribuídas do ocultismo; mas ser um xamã, ou pajé, é uma experiência cultural aprendida em comunidade, pois todas as culturas geram seu próprio folclore sobre os encontros entre os humanos e as entidades que o grupo humano organiza como pertencentes a um “outro mundo”, o que fica além da sociedade visivelmente conhecida.

O herói cultural que é o xamã torna-se, portanto, o repositório das tradições de sua comunidade ancestral, o guardião da ordem social e da cultura, aquele ou aquela que usa o poder espiritual para afirmar e consolidar as matrizes de seu povo, instigando e defendendo a unidade das variadas manifestações sociais das quais seu povo faz parte.

Para este fim, o herói cultural usa de uma sabedoria que se baseia nas quatro qualidades essenciais já expostas: sendo de comunidade, compaixão, humildade e consciência de limites. Qualidades, de fato, de uma mente iluminada.

Para contatar as entidades invisíveis, ou que transcendem o conhecimento ordinário do mundo, o xamã cresce aprendendo a induzir o que se conhece como “êxtase”, que não é apenas um estado alterado de consciência, mas uma consciência que aborda os próprios limites de seu contexto cultural, entrando num campo visionário que pertence a seu modo de ver e entender o cosmos, ou seja, um estado de consciência que faz parte da cosmologia do grupo social ao qual pertence. Este mundo no qual o xamã penetra e para onde nos leva é também um mundo “que não se vê”. Para tanto, alguns xamãs utilizam-se, entre outras técnicas, de plantas com propriedades químicas que alteram a percepção. Estas são as chamadas “plantas de poder” porque são os caminhos através dos quais o indivíduo que as consome internaliza o que se entende como a divindade. É esta divindade que supostamente habita o cerne da planta, que abre a visão para este mundo transcendental.

As espécies botânicas conhecidas como Jurema são tidas como os seres divinos por abrirem os portais de mundos desconhecidos para aqueles que a utilizam. São mais de uma as plantas do mesmo nome, sendo que cada espécie varia em termos de potencialidade na indução de visões meramente psicodélicas. Mas não estamos falando apenas das visões, mas do contexto cultural que organiza e codifica as visões, ou seja, que dá sentido ao próprio corpo de visões permitidas pela ingestão de algumas destas espécies.

É nos sertões nordestinos onde encontramos a variadades das espécies conhecidas como Jurema: dos gêneros Mimosa, Acácia (Mimosa hostilis, Acácia hostilis, Mimosa nigra, Acácia jurema). Popularmente são conhecidas como jurema branca ou jurema de oeiras (Mimosa verrucosa), jurema vermelha (Pithecolobium diversifolium), jurema preta e jureminha. O nordeste é também onde se encontram as comunidades indígenas que estabeleceram rituais para o uso e significação do uso das juremas. Para estes grupos, jurema é a divindade criadora, o ser superior, o olho que tudo vê, que dá lições, que traz a sobrevivência das tribos. Por isto mesmo, tem que ser apropriada de forma cuidadosa, dentro dos preceitos elaborados pela comunidade dos usuários, sendo esta presidida pelos xamãs e seus auxiliares.

O uso da jurema, ou juremas, se dá no contexto de rituais de afirmação das etnias indígenas nordestinas, estando vinculado, em alguns casos, a segredos tribais, para afirmação e proteção das comunidades usuárias. Isto em parte se dá como resultado da verdadeira perseguição que os indígenas tiveram que suportar a seus cultos durante a catequese nas aldeias de missões e, posteriormente, quando os nativos tinham que esconder e negar seus rituais e seu status de nativos. A jurema dos índios nordestinos é, portanto, um sacramento já que as pessoas têm experiências diretas do divino mediadas pela planta mestra e orientadas pelos pajés.

Tais rituais sagrados centrados na jurema têm como ponto comum a dança ritual do toré. Como disse Edward Reesink, o ritual do toré religa o caboclo nordestino à sua origem indígena, reconstituindo o laço essencial com sua ancestralidade. O toré atualmente é um sinal para a construção e manutenção da identidade indígena, que é tão questionada naquela região, devido aos 500 anos de contato com a civilização através do processo da colonização. Creio que imitar os índios, ou restabelecer novos grupos extra-indígena baseados no toré tradicional e no usa da jurema, trata-se tão somente de uma nova forma de colonização, de apropriação de bens culturais para outros fins que não os de sobrevivência das comunidades indígenas.

Os rituais ligados ao corpo de saberes sagrados, e, portanto, misteriosos, constituem a “ciência do índio”, fazendo parte dos marcadores da oposição entre brancos, colonizadores europeus, índios nativos etc. É esta uma das razões para a manutenção, entre várias tribos nordestinas, de um “segredo tribal”, que toma lugar durante os retiros religiosos, conhecidos como ouricuri, quando as comunidades se unem para garantir sua continuidade em todos os níveis: biológico, econômico e ideológico.

Marco Tromboni Nascimento, em sua tese de mestrado em sociologia, O tronco da jurema: ritual e etnicidade entre os povos indígenas do nordeste – o caso Kiriri (UFBA, 1994: 80), coloca que: “os indígenas do nordeste, aqueles que continuam a insistir em tornar reconhecida sua alteridade étnica, ainda acreditam saber muito bem como ter acesso aos mistérios do verdadeiro ‘tronco da jurema’ e, firmados nessa fé, continuam a se sentir índios de pleno direito”.

Parte deste segredo é a composição da bebida consumida durante os rituais: qual espécie é usada e que parte da planta é usada (caule ou raiz?). Por estudos farmacológicos já realizados, sabemos que a jurema preta (Mimosa hostilis, Mimosa tenueflora) contém um alcalóide – a dimetiltriptamina – que não teria efeito neurológico se passar pelo trato digestivo, a menos que haja a associação com outras plantas, que sejam inibidoras da enzima que neutraliza a dimetiltriptamina. Então, ao suco extraído do caule ou da raiz da jurema preta, há que se juntar o suco de alguma outra espécie. Os psiconautas europeus e norte-americanos adicionam a Peganum harmala, usada na área de terapia transpessoal. Mas algumas tribos nordestinas usam o manacá (Brunfelsia uniflora), ou o maracujá silvestre (Passiflora), sendo que também declaram não adicionar nada.

De qualquer forma, sempre há variações nas práticas da festa ritual e também nas relações que se estabelecem com a jurema. Dizem alguns que a ingestão da jurema nem é fundamental para o processo de contato com o mundo dos encantos, ou dos espíritos, das matas, pois este contato pode ser obtido inclusive através de sonhos. Ao tornar-se um “caminhante” e “sonhador”, o adepto da jurema se inicia nestes caminhos, podendo trilhá-los mesmo sem o consumo da bebida, pois a energia espiritual da planta permanece com o iniciado nos mistérios. O importante para se chegar a experenciar as visagens é que a pessoa esteja desenvolvida, ou seja, que tenha adquirido uma sensibilidade especial. Por outro lado, tal experiência está envolvida na prática ritual estabelecida em comunidade, no seio de uma cosmologia compartilhada pelo grupo. O requisito básico para o êxtase e a visão proporcionada pela jurema é a fé incondicional na ciência do índio, é estar “regimado na ciência”, como membro do ouricuri, portanto, como membro de uma etnia indígena.

Os ritos em torno do consumo da jurema, portanto, auxiliam na transformação de uma autoconsciência individual colonizada, e, conseqüentemente, prejudicada em sua visão de si, numa consciência de grupo social que se beneficia de um segredo ritual. Este segredo lhes confere poderes mágicos, assim como uma autenticidade comunitária, fornecendo credibilidade para o indivíduo inserido no grupo e certamente para o grupo como um todo. Este segredo está relacionado com a idéia de força, ordem e com ser positivo. Esta relação mútua entre plantas e os nativos recria não só a etnia como seu espaço territorial, dá substância e credibilidade à sua existência enquanto nativos, e não como simplesmente habitantes de uma aldeia ou trabalhadores rurais.

Como não estou formalmente autorizada para falar da jurema em toda a sua complexidade, pois não tenho permissão, paro por aqui. Só fui autorizada para falar o que disse até o momento. Acho importante chamar Wyannã (***), índio Kariri Xocó que está na platéia. Ele, como integrante do grupo indígena, tem autoridade para falar sobre jurema.

Obrigada.

(*) Clarice Novaes da Mota nasceu em Recife, Pernambuco, a 8 de março de 1943. Ingressou na ex-Universidade do Brasil em 1963, curso de Ciências Sociais da Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro. Participou do Programa Nacional de Alfabetização do Ministério da Educação, tendo sido treinada pelo Prof. Paulo Freire. Viveu no México em 1964. Nos Estados Unidos em 1965, ingressou na Temple University, formando-se em Psicologia em 1969. Fez Mestrado em Antropologia Social na New School for Social Research, obtendo o grau de Mestre em 1977. Foi professora de antropologia no Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de 1979 a 2000. Obteve o grau de doutor em Antropologia Social pela University of Texas at Austin, em 1987, com bolsa de doutorado pelo CNPq. Publicou os livros: Jurema´s Children in the Forest of Spirits: ritual and healing among two Brazilian indigenous groups (Londres: Interme-diate Technologies Publications, 1997) e As muitas faces da Jurema: de espécie botânica à divindade afro-indígena, com Ulysses Paulino de Albuquerque (Recife: Bagaço, 2002). Tem vários artigos publicados em livros e periódicos. É também ex-presidente da Associação Nação de Jurema.
clarice@infonet.com.br

(**) A mesa redonda foi idealizada e organizada pela antropóloga Bia Labate, que prestou consultoria ao Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo.

(***) Wyannã, homem de cura e mestre de canto, da tribo dos Kariri-Xocó, traz a cura através de seus cantos nativos, de seu conhecimento de ervas e danças sagradas. Durante algumas temporadas no ano, faz vivências e atendimentos no Filhos da Terra. Núcleo de Estudos e Terapia, em São Paulo (SP).
Tel: (11) 5005 4208/ 5102 4506. Ver também: www.xamaurbano.com.br

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