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O xamanismo de Carlos Castaneda: apropriação, ruptura ou continuidade?

Nelson Neraiel (*)

Comentários sobre o Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo. Organização Léo Artése/ Associação Lua Cheia – Pax, São Paulo, 13 a 20 de março de 2005. (**)

Queridos amigos, participei do Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo onde apresentei uma palestra sobre a Tensegridade de Carlos Castaneda, versão moderna dos “Passes Mágicos”, uma pratica xamânica do México antigo.

Foi um grande prazer estar presente, e ver irmãos de várias vertentes, cada qual com seu enfoque sobre o que é o Xamanismo. Sem dúvida, foi um momento de discussão de importantes questões relativas a prática do xamanismo na atualidade. Entre elas, questões de legitimidade sobre a utilização do saber indígena e de suas medicinas, saber quem pode ser xamã, o que um xamã faz e como atua.

Pude assistir três mesas redondas cujos títulos eram: “Xamanismo, xamanismo urbano, xamanismo universal, xamanismo crístico, neoxamanismo: afinal o que é isto?”, “O uso da ayahuasca no Brasil: vertentes e experiências” e “Xamanismo e neoxamanismo: continuidades e descontinuidades”, onde essas e outras questões foram discutidas por xamãs urbanos, pajés indígenas, antropólogos, ayahuasqueiros e daimistas. Todas essas questões são pertinentes por si só, e também para compreendermos as novas direções que esse fenômeno toma, sendo muito importantes para o momento em que se funda a Associação Brasileira de Xamanismo (ABRAX) (***).

Carlos Castaneda é um antropólogo, autor muito discutido e controverso, e as controvérsias sobre sua obra podem ser muito úteis para tentarmos entender as questões que foram discutidas durante o encontro.

Não podemos negar o efeito que seus livros tiveram sobre um número enorme de pessoas, das mais diversas áreas do pensamento contemporâneo, e do seu papel como divulgador das práticas xamânicas para o público leigo. Sem dúvida, Carlos Castaneda foi um dos grandes impulsionadores do que hoje chamamos de Neoxamanismo.

Não vou defendê-lo ou tentar provar que ele não era um farsante, vou apenas narrar os fatos como ele os colocou e esclarecer pontos importantes sobre a tradição que ele representa e sua função dentro dela.

Devo dizer aqui que Carlos Castaneda representa apenas uma única linhagem, uma entre as muitas ainda existentes, pertencentes ao que hoje se chama de Nagualismo, Toltequismo ou Toltequidade. Trata-se de um vasto corpo de conhecimento e de práticas acumulado durante milhares de anos pelos xamãs da região do atual México e América Central. Sua linhagem começou há vinte cinco gerações atrás, quando os xamãs da época reorganizaram o conhecimento de homens ainda mais antigos, conhecidos como “Antigos Videntes” e deram início ao ciclo dos chamados “Novos Videntes”.

Esses xamãs, ou Videntes como se autodenominam, colocam-se como herdeiros da Tradição Tolteca, mas quando falam em “Tolteca” se referem a esse corpo de conhecimento que mencionei, e não ao povo histórica e geograficamente designado por esse nome segundo a antropologia e a arqueologia. É importante que fique claro que, para esses homens e mulheres, Tolteca significa “homens de conhecimento”, homens empenhados em explorar os limites da consciência e da percepção humana.

Esse conhecimento está espalhado pelo xamanismo das várias etnias ainda existentes no México e em todos os matizes do curandeirismo e feitiçaria local. Temos vários autores tratando desse tema com abordagens diferentes, mas sem dúvida complementares.

Carlos era um estudante de antropologia em busca de informantes para o trabalho de campo de sua tese sobre o uso de plantas psicoatívas pelos nativos do México. Em sua busca por informações, cruzou o caminho de um Xamã…

No encontro, enquanto ele falava besteiras sem parar sobre o uso das plantas, tentando impressionar, o homem viu sua energia… Assim Carlos entrou no mundo dos Xamãs Mexicanos. O Xamã viu no ovo luminoso (1) de Castaneda a configuração energética que buscava em alguém para ser o seu sucessor. Não se importou se ele era índio ou não; precisava apenas da sua energia. O Intento, o Espírito, estava apontando aquele homem para ele, indicando-o para formar um novo grupo de guerreiros e guiá-los à meta final dessa linhagem, um estado chamado liberdade total (2).

Todos os esforços desse xamã, um índio Yaqui chamado D. Juan Matus, naquele momento, o nagual (3) da sua linhagem, foram sempre para Carlos realizasse uma manobra perceptiva definida por D. Juan como “ver a energia”, perceber a energia na forma ela flui no Universo, ou seja, livre dos processos de interpretação usados pelos nossos organismos para construir a nossa realidade objetiva. A isso D. Juan chamava simplesmente “Ver”, um processo fundamental para todos os que desejam percorrer o caminho do conhecimento.

Sabemos que possuir a faculdade de ver o mundo dos espíritos, ver as energias boas e ruins, é uma capacidade fundamental para que um indivíduo venha a ser considerado um xamã ou pajé nas culturas xamânicas tradicionais.

Temos aqui a primeira questão que pode ser abordada: como alguém se torna um xamã? Quem pode se tornar um pajé?

No contexto tradicional das diversas etnias, existem vários processos indicativos e modos através dos quais uma pessoa pode vir a se tornar um xamã. Temos a indicação por sonhos, seja do xamã ou do próprio indivíduo, sucessão por parentesco, e principalmente manifestação de uma crise pessoal – que muitas vezes pode levar a pessoa próxima à morte – a qual o xamã da tribo verifica ser um chamado. A auto convocação, ou a auto proclamação, praticamente não existem. Também não é uma função que seja desejada pela maioria dos indivíduos da tribo; ser um xamã ou pajé envolve muito mais responsabilidades e restrições do que direitos ou regalias.

É necessário ver com atenção o desejo de ser xamã do homem contemporâneo. O que realmente ele deseja? Do que precisa? Voltaremos a esse tópico um pouco mais à frente.

Carlos então foi escolhido pelo nagual dessa linhagem como seu aprendiz. Após um árduo treinamento que envolveu o uso de plantas de poder e as demais práticas dessa tradição, transformou-se no novo nagual.

O ato mágico de ver a energia e poder verificar por si próprio os fatos energéticos descritos por D. Juan foi à corroboração de todos os esforços de Carlos e o fato que o habilitou a empreender sua viajem rumo ao conhecimento. Esse ato é o que o legitima como sucessor de D. Juan Matus.

Vamos falar um pouco da polêmica que envolve a obra de Castaneda. Foi dito que D. Juan nunca existiu, que Carlos fez um apanhado de várias tradições, que não viveu nada daquilo e que seus livros não “fecham” um com o outro…. Não sei se isso são pontos tão importantes. Claro que o nome de seu benfeitor, o nagual Juan Matus, que também utilizava o nome de Mariano Aureliano, não era esse mesmo. Carlos também usava vários nomes, como José Luis Cortez (Joe Cortez), Carlos Aranha, Charles Spider e Izidoro Baltazar.

Enquanto as pessoas liam seus livros na década de 70, e viajavam ao México para tentar encontrá-lo, ele passou dois anos fritando ovos em uma lanchonete, uma curiosa tarefa que exigiu disciplina, autocontrole, fluidez, ausência de auto-importância e abandono. Nessa tradição se busca fluidez perceptiva – então, a constante auto-reflexão e a auto-importância são pesos que não precisamos carregar. Essa tarefa prática realizada por ele está perfeitamente de acordo com uma das principais artes desses xamãs, a Arte da Espreita, arte de usar nosso comportamento e o mundo em que vivemos para atingir estados perceptivos de eficiência e atenção não usuais.

Um outro conceito dessa tradição é de que não devemos fornecer uma estória muita definida a nosso próprio respeito aos nossos semelhantes, pois a pressão da energia dos pensamentos e das idéias das pessoas a nosso respeito limita a nossa liberdade de ação e de escolha. Os livros foram escritos segundo esses e outros princípios. Qualquer tentativa de achar um fluxo contínuo de acontecimentos será infrutífera.

Seus livros obedecem a uma didática própria, não linear, que conduz o leitor a processos perceptivos similares aos que o próprio Carlos experimentou durante seu aprendizado. Por exemplo, quando na década de 90 ele reapareceu em público ensinando os “Passes Mágicos” ou, como passou a chamá-los, “Tensegridade”, nós leitores já vínhamos recebendo pequenas descrições de passes inseridas nos diversos livros, como o famoso “Passo do Poder”, presente no seu primeiro livro, A Erva do Diabo (1968). Mais de vinte e cinco anos depois de conhecermos esse e outros movimentos e já termos feito-os em algum momento, descobrimos que fazem parte de algo muito maior, um conjunto de práticas chamado “Passes Mágicos”. O próprio Carlos também passou anos aprendendo os passes sem saber o que eram. Motivado por D. Juan a mexer o corpo de modo específico com a finalidade fictícia de tentar estalar os ossos, Carlos acabou aprendendo seus primeiros passes. Com os leitores o processo foi muito semelhante.

Sua obra tem momentos que soam completamente fantásticos e isso é um outro ponto de polêmica. Há por exemplo o episódio onde Castaneda pula de um penhasco num deserto mexicano, mas não chega a completar a trajetória de queda até o solo. Pressionado pela morte eminente, realiza a façanha mágica de entrar em um mundo paralelo se desmaterializando e retornando a esse mundo em sua cama em Los Angeles; há ainda várias descrições de transformações em animais e outros do gênero. Enfim, exemplos de fenômenos que extrapolam os paradigmas da concepção de realidade de nossa sociedade que estão, porém, plenamente de acordo com o terreno do xamanismo e com as descrições tradicionais feitas sobre ele.

Não podemos esquecer que a atuação do xamã se dá dentro de um espaço mágico – é nele que o xamã navega e atua. Esse espaço mágico pode ter seus símbolos, e esses símbolos são diferentes nas diversas culturas. Mas isto não quer dizer que o espaço do xamanismo seja um “espaço simbólico”. É desse reino que provém à sabedoria do xamã ou do pajé é nele que estão seus “espíritos guias”, seus aliados como se chamam nessa tradição ou mamaés como se diz entre os Kamayurá. Segundo o Pajé Sapaim, ver a energia e ter mamaé são características dos Pajés do Sol, pajés que aprenderam diretamente do espírito. Existem também os Pajés da Lua; esses não têm um mamaé e não vêem a energia ou os espíritos, aprenderam de outro homem e têm uma capacidade de atuação e cura mais restrita.

Quando digo que esse espaço não é simbólico é porque, para essas culturas e para esses indivíduos, esse é um espaço real, que é a contra parte energética ou espiritual do mundo material, um espaço composto por energias e forças humanas e não humanas com influência e poder de ação sobre a realidade objetiva. Não podemos relegar a atuação dos pajés e xamãs ao plano da simples auto-sugestão individual e coletiva. Crer que a descrição da influência desses xamãs se dá no campo da imaginação dentro de um universo puramente mítico é desconhecer as concepções de realidade dessas culturas. Se retirarmos a idéia de influência mágica e dos processos tradicionais de formação de um xamã, teremos muito pouco de fenômeno original.

Existem vários métodos de indução do transe, e indivíduos dotados de maior ou menor capacidade de manifestar esse fenômeno. Tradicionalmente, o xamã justamente um indivíduo com uma grande capacidade de entrar em estados alterados de consciência. Talvez essa seja uma maneira de tentar responder a questão de quem pode ou não ser um xamã ou pajé. E Carlos sem dúvida tinha este poder.

Uma das questões que foram levantadas no encontro é sobre como fazer um uso legítimo do saber indígena e de seu xamanismo nos dias de hoje. Para respondermos a essa questão, acredito que possa ser útil verificar o que ocorreu com a linhagem de Castaneda.

Após anos de aprendizado, Carlos passou a ser o novo nagual de sua linhagem e, seguindo a tradição, começou a organizar seu próprio grupo. A forma tradicional dessa linhagem era a de um grupo fechado, de poucas pessoas que mantinham suas práticas em absoluto segredo. O grupo agia como um organismo onde cada parte tinha uma função. Era concebido energeticamente como uma estrutura piramidal com cada elemento ocupando sua posição específica. Mas, para dar continuidade a sua linhagem, Carlos precisou modificar aparentemente a forma tradicional de transmissão do conhecimento – que, aliás, caso tivesse sido mantida, jamais teria permitido que a parte prática desses conhecimentos tivesse vindo a público.

Porque Carlos não pode manter a tradição nos moldes originais? Veremos a seguir como as coisas se passaram.

Inicialmente, Carlos, ainda seguindo os moldes originais da tradição, passou a reunir um novo grupo de guerreiros, que deveria ser composto de dezesseis indivíduos: oito guerreiras, quatro guerreiros, três mensageiros e uma mulher nagual. A esse grupo poderiam ser acrescentados membros em múltiplos de quatro. Num primeiro momento, tudo segue como esperado: Castaneda reúne os primeiros membros do seu grupo e segue dando continuidade à linhagem nos moldes originais. Mas, em certo ponto, os membros do grupo, percebendo que ele não era o tipo de nagual que esperavam, o deixam, sob a acusação de que ele não seria capaz de guiá-los. E, assim, o grupo se dispersa.

Castaneda não pode manter a forma original da linhagem devido às características energéticas do seu ovo luminoso. Para se tornar um nagual, o indivíduo deve possuir um ovo luminoso com características especiais. Enquanto as pessoas comuns têm seu ovo luminoso dividido ao meio no sentido vertical, formando duas sessões, que eles chamam de “corpo direito” e “corpo esquerdo”, o nagual tem essas duas sessões subdivididas em outras duas. Ou seja, enquanto o homem comum tem seu ovo luminoso dividido ao meio em duas partes, o de um nagual é dividido em quatro partes – é esse ovo luminoso duplicado que o habilita a ter energia para atuar como um guia para os outros membros do grupo.

D. Juan reconheceu em Castaneda seu sucessor, e um nagual, embora ocasionalmente fizesse a ressalva de que Castaneda era de algum modo energeticamente diferente do esperado. Posteriormente, ele verificou que Castaneda era dividido em três partes e não em quatro, e é essa divisão do seu ovo luminoso que conferiu a Castaneda uma função e características diferentes das de D. Juan. Por isto, Carlos não chegou a concluir sua tarefa de criar um novo grupo nos moldes tradicionais. Esta foi a razão que fez com que a linhagem tenha tomado o rumo que tomou, dando início ao um novo momento dentro dela.

Após algum tempo, Castaneda organizou uma nova unidade com as discípulas de D. Juan: Florinda Donner, Taisha Abelar e Carol Tigs, a mulher nagual (a última pertencera ao seu antigo grupo composto nos moldes originais, que depois se desintegrara). Entretanto, essa nova unidade, composta por apenas quatro pessoas, não poderia dar continuidade à transmissão do conhecimento do modo que havia sido feito até então. Nos moldes tradicionais, como vimos, havia dezesseis guerreiros que formavam um modelo energético preciso e integrado, que necessitava de todas as partes para funcionar e poder conduzir o grupo à liberdade total.

Como isso não tinha sido possível, pois o grupo original feito por Castaneda se dissolvera, perceberam que seriam os últimos elos daquela linhagem e que a função de Castaneda era fechar aquele ciclo. Nesse momento, começaram a decidir o que fazer com o conhecimento que possuíam. Uma busca mais atenta nos fundamentos dessa tradição revelou que a cada ciclo de cinqüenta e dois naguais, vinte e seis de continuidade e estabilidade, e vinte seis de crescimento e expansão, surge um nagual de redirecionamento e atualização. Verificaram que Carlos era um tipo diferente de Nagual e que sua função era de renovação.

Nos moldes originais da linhagem os Passes Mágicos eram ensinados pelo nagual apenas para os membros da linhagem, que o realizavam individual e secretamente. Neste novo momento, Castaneda decide tornar pública a parte prática dos ensinamentos, alterando o rumo da linhagem. Como isto se deu?

Numa primeira etapa, Castaneda e a suas quatro companheiras começam a ensinar os passes a pequenos grupos de pessoas de fora da linhagem, mas de forma reservada. Posteriormente, o grupo de condutores volta ao anonimato que manteve durante décadas e os seminários passam a ser ministrados por um grupo de instrutores, discípulos diretos de Castaneda, designados para essa função. A partir daí, os passes mágicos passam a ser acessíveis para um grupo maior de pessoas.

Para tornar os passes públicos, Carlos os organizou em grupos ou séries, separados por finalidade, tornou os movimentos mais simples e retirou totalmente o ritual e o segredo associados a eles durante séculos. Carlos deu o nome “Tensegridade” para designar esta forma moderna dos Passes Mágicos, termo foi tomado por ele da arquitetura, o qual designa a propriedade dos elementos de uma estrutura trabalhar com a máxima eficiência e o mínimo desgaste. Assim, a partir de 1996, foram realizados os primeiros seminários públicos de Tensegridade e, em 1998, é lançado o livro “Passes Mágicos”.

Porque Carlos decidiu tornar público os passes mágicos?

Os naguais anteriores, D. Juan e o próprio Carlos, puderam observar através da sua faculdade de ver a energia, que o mais importante nos passes mágicos é movimentação e a redistribuição da nossa energia que proporcionam dentro de nosso ovo luminoso. Durante as práticas que orientava, Carlos pode verificar que o efeito dos passes realizados em conjunto por um grupo maior de praticantes é o de um grande incremento de energia. Chamou a isso de “Efeito de Massa”.

Isso, além de intensificar os efeitos do passes, contribuía para uma maior facilidade dos praticantes em aprendê-los e em alcançar momentos de silêncio interior. A percepção do “Efeito de Massa” foi fundamental para determinar o rumo desse conhecimento, assim como o modo como é ensinado hoje em dia. Hoje praticantes ao redor do mundo testaram e verificam cada uma das ferramentas que foram dadas.

A decisão de criar a “Tensegridade” e torná-la acessível a todos foi uma decisão de Carlos, como autoridade de sua linhagem; decisão que tomou ao observar o fluxo da energia de nosso tempo. Nesse momento, Carlos re-contextualiza seu saber, e o torna contemporâneo e acessível, garantindo a sobrevivência da tradição.

Ao mesmo tempo, o aparecimento da Tensegridade foi resultado da nova configuração da linhagem, composta não por dezesseis guerreiros, mas por quatro. Como vimos, isto ocorreu devido às características do ovo luminoso de Carlos e da própria estrutura da linhagem, a qual se renova periodicamente.

O movimento de criar a Tensegridade e tornar os passes públicos não deixa de ser um movimento natural, embora não estivesse previsto originalmente – já que o processo de tornar público os conceitos da tradição já havia começado com os livros, os quais Carlos escrevera a partir de uma sugestão inicial do próprio D. Juan.

Temos aqui a idéia de uma tradição viva e aberta à mudança, preocupada com sua continuidade, mas também atenta à renovação. Poderia ser esse o caminho para as respostas às questões que estamos discutindo? Um olhar atento para as culturas xamânicas ainda existentes e uma estratégia de dar continuidade para esse saber dentro de seu contexto original?

Existem acusações de que Carlos estaria desvinculando os passes de seu contexto cultural original. Essa afirmação é equivocada porque ele não detém a posse desses passes, apenas os codificou numa forma que fosse adequada para ser praticada pelas pessoas de nosso tempo. Acredito que seja importante mencionar que não houve nenhuma reação contrária a Tensegridade por parte de qualquer grupo étnico ou pelos xamãs mexicanos, e que é no México que se encontra o maior número de praticantes de Tensegridade.

Se esse movimento transcultural entre o xamanismo das sociedades tradicionais e a nossa sociedade não pode ser revertido, então seria ótimo ele contribuísse para o fortalecimento dessas tradições em suas formas originais também. Não seria esse o caminho?

No caso dos Passes Mágicos, da Ayahuasca, e de outras práticas de expansão da consciência, existe toda uma vasta tradição a ser preservada e pesquisada. Em ambos casos, há uma tecnologia da consciência, que é diferente da nossa, mas igualmente precisa e funcional.

Castaneda não propõe nenhuma verdade pronta, ele propõe que se pratique, e que se verifique a validade dessas ferramentas. Acredito que verificar por si próprio seja fundamental para todos os que se aproximam das práticas xamânicas.

Um dos focos atuais das práticas é a atenta observação de si próprio e dos momentos em que ganhamos ou perdemos energia, dos momentos em que estamos alinhados e em harmonia e das coisas ou situações que nos tiram desse estado de alinhamento e equilíbrio.

Aprendemos a observar a repetição entediante dos nossos velhos e equivocados comportamentos que só nos trazem dor, conflitos interiores e com os nossos semelhantes, e principalmente o que podemos fazer para mudar isso. Praticar Tensegridade é a busca de um estado de atenção, eficiência e silêncio conhecido como o caminho do guerreiro.

Busquei até aqui tornar mais claro algumas das práticas e princípios da tradição que nos foi apresentada por Carlos Castaneda para comentar alguns pontos polêmicos de sua obra, mostrando como ela se relaciona com as práticas xamânicas tradicionais.

Hoje o grupo de guerreiros do nagual Carlos Castaneda é formado por homens e mulheres, que estão juntos em uma envolvente aventura, uma aventura com seres mágicos em um mundo, que sabem que em algum ponto do caminho retornaram para aquela imensidão lá fora, da onde vieram. Um grupo de praticantes explorando as possibilidades dessa nossa estranha e empolgante viagem perceptiva como consciências.

Agora podemos voltar ao tópico que abordei no inicio do texto sobre essa busca do homem contemporâneo pelo xamanismo: o que realmente ele deseja e do que precisa? O que estamos buscando quando nos aproximamos do xamanismo?

O homem moderno, talvez mais do que em qualquer outra época, sente um grande vazio, uma falta de completude e paz interior que deriva de nosso quase total desligamento com a teia da vida, da natureza e de suas energias. Pressionado pelas preocupações do dia-a-dia, vive em um nível de consciência que vai muito pouco além da satisfação de suas necessidades mais imediatas de conforto e de gratificação. Nossa consciência impulsionada por seus medos e anseios e, principalmente, conflitos, muitas vezes, se vê envolta num diálogo caótico e frenético que em nada contribui para a percepção de nossas possibilidades enquanto consciências individualizadas e manifestações da energia criativa da vida.

O xamanismo surge então como uma possibilidade na busca dessa ligação com o sagrado, como um conjunto de práticas que tem a capacidade de restabelecer a conexão com o mágico e com o mundo espiritual, livre do peso das religiões institucionalizadas e principalmente sem intermediários.

Mas essa aproximação se dá muitas vezes de forma romântica, e esse anseio por transformação, equilíbrio, harmonia e bem-estar, acaba se confundindo com o anseio por tornar-se um xamã. Não sei se tornar um xamã é tão importante assim.

Acredito que a utilização das praticas xamânicas, a compreensão de seu modus operandi, e o estudo das tradições que as originaram poderiam constituir uma abordagem bem mais adequada e sóbria. O contato respeitoso coma as tradições xamânicas pode ser muito positivo e frutífero para a busca do homem contemporâneo e para a sobrevivência dessas tradições.

Nesse momento do Primeiro Encontro Brasileiro de Xamanismo em que nos aproximamos uns dos outros, na busca de troca de experiências e da formação de novos laços de amizade e de convivência, vivenciando o conceito xamânico de que “tudo está interligado”, e que acabamos verificando que existe uma grande teia de pessoas envolvidas com o trabalho xamânico hoje, é importante que essas questões sejam colocadas e discutidas.

O clima de respeito e compreensão que presenciamos durante todo o encontro, aliado a discussão de idéias e questões pertinentes é a forma ideal para que possamos realmente nos capacitar para ser úteis aos que se aproximam de nós em busca desse caminho.

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(*) Estudioso do xamanismo e da obra de Carlos Castaneda há vinte e seis anos. Praticante de Tensegridade, membro do grupo de praticantes do Rio de Janeiro, Seres Ambarinos. Tarólogo, Numerólogo, Quirólogo, Reiki e Sekim Máster. Fez curso profissionalizante de Quiromancia com a Profª Regina Ferrari do Rio de Janeiro e de Reiki e Sekim com a Drª. Antonia Ruhl, da Austrália. Membro a quinze anos da Irmandade Espiritualista Verdade Eterna (I.E.V.E.), no Rio de Janeiro (RJ).

(**) No dia 15 de março de 2005 Nelson Neraiel apresentou a palestra “Tensegridade – os passes mágicos de Carlos Castaneda”. Bia Labate, que prestou consultoria para a realização do evento, pediu que Nelson redigisse um texto relacionando o tema de sua fala à mesa redonda: “Xamanismo, xamanismo urbano, xamanismo universal, xamanismo crístico, neoxamanismo: afinal o que é isto?”, que ocorreu dia 14 de março de 2005. A mesa pretendia discutir os seguintes temas:
- Como definir o “xamanismo”?
- Qual seria o melhor termo para classificar as práticas contemporâneas?
- Quais são critérios que permitem classificar quais atividades são ou não “xamânicas”?
- Quais são as fronteiras e limites entre o xamanismo “tradicional” e o “contemporâneo”?
- Como lideranças ou xamãs indígenas vêem os xamãs brancos?
- Como os xamãs urbanos compreendem o discurso acadêmico que critica o “neoxamanismo”?
- Como separar “verdadeiros” e “falsos” xamãs?
- Que princípios éticos norteiam ou deveriam nortear as práticas xamânicas?

(***) A ABRAX foi fundado dia 20 de março de 2005, último dia do encontro. Léo Artése foi nomeado presidente.

(1) Ovo luminoso é o campo energético que nos envolve e que se estende à distância de um braço ao redor de nosso corpo físico; é o equivalente ao que nós chamamos de “Aura”. É a contraparte energética de nosso organismo.

(2) Liberdade total é um estado de consciência e percepção para o qual os praticantes dessa tradição se preparam para entrar no momento da morte ou da sua partida desse mundo. Ao contrário do que ocorre com o homem comum, para o guerreiro, a morte permite que a sua consciência parta em uma jornada perceptiva definitiva pelo Universo, mantendo assim a sua totalidade e individualidade. Do ponto de vista dessa tradição, ao fim da existência humana há uma reabsorção da energia vital e da consciência do individuo pela Consciência Universal, cessando assim a existência individual. Não existe nessa tradição a idéia de reencarnação e nem de a idéia de algum céu ou plano paradisíaco ou infernal no pós-morte.

(3) Nagual, do termo nahual, da língua nahuatl. Aqui o termo é usado para designar um guia, um homem que por suas características energéticas é uma porta, uma ponte, entre esse e outros mundos. O nagual é o guia de cada grupo de guerreiros.