Publicada hoje no site do NEIP aqui.

Por Luiz Eduardo Soares (*)

Drogas são um tema paradoxal e enigmático. Importantíssimo, onipresente no dia a dia, capaz de sensibilizar, mobilizar, provocar controvérsias, alterar o rumo de disputas eleitorais, disseminar dissensos, inquietar autoridades, perturbar famílias, desestabilizar a ordem pública; ainda assim, quase ausente da pauta política e da agenda acadêmica –se excetuarmos esforços isolados de pioneiros e desbravadores. Nenhum repertório das grandes questões nacionais e globais estará completo sem a inclusão das drogas; entretanto, por mais extraordinário e surpreendente que seja, permanecem raríssimas as incursões intelectuais e políticas mais ousadas, que as tratem com profundidade e consistência, para além dos preconceitos. Paira esta curiosa e lamentável maldição sobre o tema, envolvendo-o em silêncio, cúmplice da irracionalidade que domina seu tratamento oficial mais freqüente.

Por isso, louve-se a iniciativa de Beatriz Caiuby Labate, Sandra Goulart, Maurício Fiore, Edward MacRae e Henrique Carneiro, pesquisadores do NEIP (www.neip.info), que organizaram este volume, e a participação qualificada de seus autores, graças aos quais um dos debates essenciais de nosso tempo sairá do armário, do ostracismo, da negligência. Trata-se de uma contribuição de muitos méritos, que se tornará referência tanto para os estudos acadêmicos, quanto para a reflexão pública, que mobiliza audiências mais amplas.

Os ensaios aqui reunidos nos ensinam que as drogas, as dinâmicas de sua produção e os circuitos de sua circulação semântica, conceitual-científica, econômica, social, religiosa, política, estética, psicológica, ideológica e simbólica constituem fenômenos complexos, multidimensionais, que exigem abordagens transdisciplinares. Em uma palavra, as drogas não existem; são invenções datadas, cujos significados variam conforme os contextos culturais, seus repertórios específicos, seus vocabulários particulares. Drogas são ministradas por médicos ou xamãs; são objeto de fruição individual ou coletiva; servem para excluir, excomungar, reprimir, prender ou violentar os que as consomem ou os que não as consomem, conforme o caso; são sacralizadas em rituais místicos; são institucionalizadas em celebrações familiares e sociais; são objeto de consumo; têm valor comercial; são alvo de legislações; saberes; terapias. Elas são criadas por dispositivos prático-discursivos, historicamente constituídos, os quais acionam regras morais, categorias de acusação, exercícios de poder, estratégias econômicas, padrões de fruição, linguagens que organizam a consciência e a sensibilidade, orientações valorativas e experiências de sociabilidade.

Abrindo-se a esta quase ilimitada pluralidade de apropriações, as drogas carregam consigo um potencial extraordinariamente rico para quem se disponha a pensar as sociedades. Talvez por essa razão represente risco, perigo, ameaça e incerteza. Fonte de prazer e de morte, as drogas nos interpelam e, pela mediação do presente livro, exigem que as incluamos no centro de nossa agenda política e intelectual.

(*) Professor da UERJ e da Universidade Cândido Mendes; Secretário de Valorização da Vida e Prevenção da Violência do Município de Nova Iguaçu

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