Reproduzo aqui uma matéria publicada hoje no Papo de Índio, excelente coluna editada pelo já quase mítico Txai Terri Valle de Aquino, a quem muito admiro, e pelo antropólogo carioca Marcelo Piedrafita Iglesias, também grande batalhador das causas indígenas no Acre.

O texto, escrito pela indigenista Dedê Maia, da CPI-Acre, relata um projeto realizado com a colaboração de meu amigo e parceiro Gustavo Pacheco (http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=P403729), com quem escrevi em co-autoria dois artigos (no livro O uso ritual da ayahuasca e Álcool e Drogas na história do Brasil), e a quem aproveito também para saudar publicamente pela linda carreira realizada até o momento.

Retirado de: “http://www2.uol.com.br/pagina20/23042006/papo_de_indio.htm

Projeto dos professores Kaxinawá do rio Jordão registra em CD cantos do cipó da Ayahuasca

Dedê Maia

Acabo de retornar de uma linda viagem ao rio Yuraiá, como os Kaxinawá chamam o rio Jordão no hatxa kui, sua “língua verdadeira”. Aproveito este Papo para enviar aos leitores desta coluna algumas notícias da referida viagem.

Como professora indigenista da Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre), foi um privilégio ser convidada para assessorar uma equipe de professores/pesquisadores das três terras Kaxinawá do Município de Jordão durante a primeira etapa das atividades do “Projeto de Registro das Tradições Musicais Kaxinawá”.

Inicialmente, é importante ressaltar que esses trabalhos de pesquisa, desenvolvidos há vários anos nas aldeias, fazem parte da formação e das práticas profissionais desses professores Kaxinawá, e são incentivados nos cursos promovidos anualmente pela Setor de Educação da CPI-Acre.

Idealizado pelos próprios professores/pesquisadores, o projeto foi encaminhado pela Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC). Recebeu financiamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e apoio da CPI-Acre, por meio da minha assessoria. Contou, ainda, com apoio do administrador da Funai de Rio Branco, Antônio Ferreira da Silva Apurinã, que gentilmente colocou à disposição da equipe um barco de três toneladas e um motorista, Francisco Botosa Kaxinawá, que nos acompanhou durante a viagem.

Nesta etapa do Projeto, tivemos como objetivo principal realizar gravações de cantos relacionados às finas ciências do Nixi Pae, como os Kaxinawá chamam o cipó, e registrar visualmente esse evento.

Foi um privilégio essa oportunidade de aprender mais um bocadinho sobre esse universo tão especial dos Huni Kui, “gente verdadeira”, como os Kaxinawá se autodenominam. Nesse contexto, fui, de novo, aluna e os Huni Kui os professores.

Foi maravilhoso também rever amigos, afilhados, compadres, comadres… Sem dúvida um lindo presente! Pena que o tempo tão curto não nos permitiu viajar por todo o rio Yuraiá! As atividades aconteceram na aldeia São Joaquim, a primeira da TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão, cuja comunidade tem como liderança nosso querido amigo Agostinho Manduca Mateus Muru, nosso principal anfitrião Huni Kui.

Já fazia um tempo que não visitava essas famílias. Foi em 1997 que fiz minha última viagem entre elas, junto com a fotógrafa, nossa parceira e aliada dos índios, Cristiane Cotrim, carioca, com o intuito de também apoiar as pesquisas dos professores. Naquele então, trabalhamos com o registro fotográfico da Arte dos Kene, grafismos que adornam as pinturas corporais, a tecelagem, a cestaria e a cerâmica Huni Kui, outra de suas finas ciências. Este material, que depois compôs exposições sobre a Arte Huni Kui, apresentadas em vários estados do Brasil e outros países, hoje integra o acervo do Centro de Documentação e Pesquisa Indígena da CPI-Acre.

Não faz tanto tempo assim dessa viagem anterior, apenas nove anos. No entanto, percebi, durante os 16 dias que passamos no rio Jordão, as profundas mudanças territoriais, políticas e culturais ocorridas desde então. Permanece, todavia, o mesmo jeito atencioso, dedicado, gentil, e a fina educação com os quais as famílias Huni Kui recebem seus visitantes.

A equipe e seus convidados

Além dos professores/pesquisadores, tive como companheiros de viagem Gustavo Pacheco, antropólogo/etnomusicólogo, e Maria Mazzillo, fotógrafa, ambos do Rio de Janeiro. Eles foram contratados pelo projeto para realizar as atividades de gravação e documentação visual, previstas nesse encontro, que reuniu quatro gerações de descendentes dos Huni Kui que primeiro conheceram os brancos, em início do século passado.

Com esse objetivo, saímos de Rio Branco, no dia 6 de março, com destino à cidade de Tarauacá. Ali nos aguardava uma equipe de seis professores Huni Kui, todos idealizadores do projeto, para subirmos o rio Tarauacá rumo ao nosso destino, o Yuraiá. Eram eles Isaías Sales Ibã, Rufino Sales Maya, José Mateus Itsairu, Tadeu Mateus Siã, Norberto Sales Tene e Francisco das Chagas Medeiros Mana. Este último é irmão, mais novo, do nosso saudoso professor Edson Medeiros Ixã, falecido em 24 de março, que também participara ativamente da concepção do projeto.

Como convidados dessa equipe, participaram também do encontro professores e um agente agroflorestal da TI Kaxinawá do Seringal Independência, dois professores da TI Kaxinawá do Rio Breu, três professores e um agente agroflorestal da TI Kaxinawá do Rio Humaitá e, ainda, um professor e duas mulheres artesãs da TI Igarapé do Caucho.

Estiveram presentes ainda outros representantes Huni Kui das três terras Kaxinawá de Jordão: o vice-prefeito José Osair Sales Siã, o Secretário Municipal de Transporte e Comunicação, Francisco Sabino Ixã, e o Secretário Municipal de Cultura, Nilo Pereira. Este último também cantou algumas músicas aprendidas com seu finado pai, o txana Pereirinha. Assim como os professores/pesquisadores, essas autoridades constituem uma terceira geração dos Huni Kui do pós contato.

Os velhos txanas e a nova geração

Como convidados especiais dos professores, realizaram as gravações os principais txanas (cantadores) do povo Huni Kui do Jordão: Romão Sales Tui (84 anos), Miguel Macário Maru (87) e Agostinho Manduca Mateus Muru (61). Agostinho, considerado da segunda geração, contou ter adquirido seus conhecimentos sobre o Nixi Pae com esses dois velhos txanas e com outros que já partiram para um outro mundo desse universo.

Com os txanas, desfrutamos momentos muito prazerosos e de muito aprendizado, ouvindo suas histórias de vida e suas explicações sobre os significados dos cantos. Gravando com eles, aprendemos que na cerimônia do Nixi Pae existe uma seqüência que é muito importante respeitar, pois cada cantoria está relacionada a um momento específico do ritual: o Pae Txanima, cantos de abertura, para “chamar a força” do Nixi Pae; o Dawa Tibuya, referentes às mirações; e o Kaya Tibu, entoados para diminuir a força e fechar o ritual.

Uma outra participação importante, que vale a pena registrar, foi a do “Grupo Juventude Indígena”. Representantes da quarta geração, são jovens alunos, alguns dos quais já exercem a função de “professores auxiliares”. Nesse processo de revitalização dos conhecimentos tradicionais, eles vêm se apropriando de instrumentos musicais, como o violão, flautas e maracás, que tradicionalmente não faziam parte de sua cultura, e usando-os para acompanhar os cantos. Ainda no início de seu estudo e dessa apropriação, não dominam plenamente todas as afinações dos instrumentos e sua harmonização com as cantorias. No entanto, com umas boas dicas musicais, o “Grupo Juventude Indígena” ainda vai longe. É a tradição se renovando, percorrendo novos caminhos, descobrindo outras formas de cantar e atualizar os saberes milenares de seu povo.

Foram 16 dias de muito trabalho, vividos com muita alegria e harmonia, regidos pelas energias do Nixi Pae e da lua cheia, que nos acolheu, iluminando os terreiros e os altares das forças da mata.

A “planta Ibã” e outras sementes de conhecimento

Gostaria de destacar aqui a participação do professor Isaías Sales Ibã (42 anos), meu amigo querido e companheiro de muitas maratonas de trabalho no meio dessa floresta de muitas jóias.
Como já disse, o presente trabalho é resultado das atividades de pesquisa de vários professores. É importante ressaltar, todavia, que Ibã, além de atuar como professor e pesquisador em sua terra, no rio Jordão, tem distribuído, para parentes de outras terras, sementes de conhecimento e de sabedoria que, ao longo de sua formação, tem recolhido junto aos velhos Huni Kui, principalmente a seu pai, o txana Romão Sales Tui.

Um exemplo disso é o trabalho de revitalização que vem fazendo entre as famílias da TI Kaxinawá do Rio Humaitá. Segundo Ninawa, jovem professor dessa terra, Ibã é considerado por essas famílias como a “planta Ibã”. Esse título lhe foi atribuído como reconhecimento por seu trabalho, ao replantar sementes tão importantes. “Hoje já podemos ver as sementes da planta Ibã dando muitos frutos. Muitos de nós, eu, por exemplo, não falávamos mais a nossa língua e muito menos sabíamos cantar as músicas sagradas de nossa cultura. Hoje eu estou recuperando a minha língua e estou dominando muitos conhecimentos dos mais velhos. E eu agradeço ao professor Ibã por isso!”.

Seguindo o exemplo das sementes da “planta Ibã”, os produtos que resultarão desse projeto, um livro e dois Cds, contendo os mais importantes cantos de cada tema do ritual do Nixi Pae, serão distribuídos para todas as doze terras indígenas Kaxinawá no Estado do Acre. Espera-se, assim, que, por meio das escolas indígenas e do seguimento desse trabalho conjunto das várias gerações dos Huni Kui, continuem a rebrotar mais sementes e a se fortalecer conhecimentos e tradições dessa cultural ancestral, que, devido à secular inserção dos Kaxinawá no mundo dos seringais, correram, outrora, sério perigo de se perder.

3 Comments

  1. felipe andrikopoulos says:

    como entro em contato com a autora? Beatriz Caiuby Labate….

  2. felipe andrikopoulos says:

    meu email… barbosabio@hotmail.com

  3. nahassen says:

    Trabalhos que demonstrem o avanço da ciêcia indígena nos domínios do invísivel convergem com as descobertas de ponta que solapam os paradigmas ortodoxos que norteiam o academicismo. Considero que toda a imensa riqueza cultural dos kaxinawá necessita não somente ser preservada mas também reconhecida como um conjunto sistematizado de conhecimentos avançados sobre o contato da consciência com a multidimensionalidade do universo. Sinto que faltam trabalhos específicos nessa linha e os procuro. Pelo que estou vendo no livro organizado pela Bia, os índios pano e tukano mantém relações muito estreitas com os mundos da quarta, da quinta e da sexta dimensão natural.
    Gostaria de dizer que acredito totalmente no mundo dos espíritos e das almas que eles afirmam ver e que as características antropomórficas das almas das plantas e animais não é mera “projeção subjetiva” da mente a partir de sua própria experiência egóica limitada. Particularmente, sei que realmente as formas desses seres sejam humanóides e que algums deles estejam abaixo e outros acima do estado humano normal pois somos parte da natureza. Por isso, não duvido dos kaxinawá e sei que eles falam a verdade.