COM DIREÇÃO DE CIBELE FORJAZ, CIA LIVRE ESTREIA RAPTADA PELO RAIO

Neste final de semana assiti um interessante espetáculo baseado num mito Marubo, traduzido e adaptado do original para teatro por meu colega Pedro Cesarino, antropólogo estudioso das artes poéticas deste povo. A peça faz referência mais ou menos direta a duas substâncias psicoativas: a ayahuasca e o tabaco, presenças clássicas do xamanismo Amazônico. Também é citada uma “língua de um pássaro”, que, até onde conseguir investigar, não é psicoativa. Segundo Pedro, essa seria utilizada no xamanismo marubo “para obter o “chinã”, princípio vital/potência do pássaro, ou para fazer com que o duplo/espírito deste se torne familiar/auxiliar do xamã. ”

Na platéia, conheci um músico que participou das antigas e dionisíacas experiências do teatro Oficina que utilizou a ayahuasca nos ensaios e apresentações da peça As Bacantes, e Os Sertões, um autêntico capítulo da história urbana da ayahuasca no Brasil, o qual ainda foi muito pouco explorado. O espetáculo procura trazer algo destes mundos invisíveis e outros. Numa das cenas, o espectador têm os seus olhos tapados com uma máscara tipo de avião, com uma areinha dentro. Isto me lembrou um recente programa que fiz na Alemanha, onde visitei o Schloss Freundenberg. Aí, talvez a atração mais especial seja uma das salas em que o público é conduzido a um bar, e tem os seus olhos vendados, sendo atendido por um garçom cego. Podiamos escolher entre um café, cappucino ou um suco ou bebida desconhecida. Ao abrir o olho não era possível ver nada, só um vazio preto que terminava por nos confundir onde era o limite entre o “eu” e o “espaço externo”. Parece que a nossa sociedade, marcada pela hegemonia do sentido da visão, procura cada vez mais alteridades sensoriais onde “o não ver” possa revelar “outras formas de ver”…

Recomendo o programa. Segue abaixo o release oficial do espetáculo.

Após VemVai – O Caminho dos Mortos (vencedor de dois prêmios Shell –
melhor direção para Cibele Forjaz e atriz para Lúcia Romano),  a
Cia Livre continua a abordar as relações entre morte e vida através das perspectivas de povos ameríndios. O espetáculo é uma livre recriação
do mito Kaná Kawã (mito-canto do povo Marubo) e continua com o
 “Pague Quanto Der”, onde não há preço de ingresso definido e o
público paga quanto quiser e puder pela apresentação
Uma experiência cênico-sensorial é o que promete RAPTADA PELO RAIO, a nova montagem da Cia. Livre, que estreia dia 1º de maio, sexta-feira, às 21 horas, na Casa Livre, espaço próprio do Grupo. Sob a direção de Cibele Forjaz e dramaturgia de Pedro Cesarino, em processo colaborativo com a Cia. Livre, o espetáculo tem música original de Lincoln Antonio, direção de Arte de Simone Mina e luz de Alessandra Domingues. No elenco estão Lúcia Romano, Edgar Castro, Christian Amêndola Moleiro e Paulo Azevedo (um dos fundadores do Grupo Espanca!, especialmente convidado para a peça).

Marcado pelo lirismo e pela tradição oral, RAPTADA PELO RAIO conta uma história de amor e morte. Um Homem passa por diversas regiões do mundo (povo nuvem, povo podre, povo violência, povo água e gente cegueira, entre outros) na tentativa de resgatar sua mulher, Maya, raptada pelo raio. Termina por se deparar com os limites impostos por sua própria condição, nesta que é mais uma variante do famoso mito de Orfeu. Temas como a separação entre vivos e mortos e os limites do amor e a impossibilidade, são tratados com uma linguagem dinâmica, em que atores se misturam aos personagens para traçar um percurso narrativo, neste poema cênico dedicado aos dilemas do tempo e da passagem.

RAPTADA PELO RAIO traduz os conflitos resultantes das relações perigosas entre a diversidade de mundos que co-existem na narrativa, por meio de uma experiência cênico-sensorial que multiplica os pontos de vista da platéia. Em alguns momentos o público é convidado a deitar em redes e fechar os olhos, abrindo os ouvidos para a narrativa. Em outros, o estímulo visual cria diferentes planos de realidade. A música conduz as personagens, a luz e o olfato criam atmosferas. Desta forma o espetáculo propõe ao público uma viagem sinestésica, que abre as portas da imaginação. 

Contemplado com o Programa de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo, o espetáculo também continua com o “Pague Quanto Der”, em que não haverá preço fechado de ingresso, ou seja, cada pessoa paga quanto puder e quiser pela apresentação.

Universo fantástico e poético
A diretora Cibele Forjaz conta que depois de VemVai – O Caminho dos Mortos, onde a pesquisa sobre a morte norteou uma montagem com várias histórias, RAPTADA PELO RAIO constitui-se como uma narrativa que conta uma única  história, mais simples e mais lúdica. “Depois da perplexidade com a complexidade proposta pelo universo indígena, encontrada em Vem Vai, neste novo espetáculo conseguimos chegar a uma narrativa mais simples e ao mesmo tempo mais elaborada, com foco maior no mito. RAPTADA PELO RAIO é uma brincadeira teatral, uma fábula que propõe ao público uma viagem através de mundos paralelos, guiada pelo amor e sua busca de atravessar os limites do humano. A encenação, por sua vez, busca traduzir o fantástico através das sensações”, explica ela. “Com Vem-Vai, abrimos uma porta e olhamos através dela, agora, conseguimos atravessar para o lado de lá. Com certeza é um espetáculo mais poético.”

Apesar do tema da montagem ter uma base ameríndia, a história de RAPTADA PELO RAIO é universal. “É um conto de tradição oral igual a fábulas gregas, egípcias, romanas e japonesas”, conta o dramaturgo Pedro Cesarino. “É uma história narrada e cantada.” Por isso, Cibele decidiu que o espetáculo seria um musical diferente. “Queremos contar uma história que aborda um tema difícil, a morte, de um jeito simples, como nas fábulas”, conta a diretora.

Criada pelo músico Lincoln Antônio, as composições não possuem referências diretas ao universo indígena. “Minha intenção foi criar uma música que não existe. Procurei diluir todas as informações do espetáculo num caldeirão sonoro”, explica ele, lembrando ainda que a encenação terá um piano ao vivo. Baldes, bacias, funis, canos e outros objetos viram chapéus, escudos, máscaras e instrumentos sonoros, que interagem com os figurinos e cenários criados por Simone Mina e sua equipe. Para Cibele, o espetáculo, acima de tudo, busca a teatralidade em todos os sentidos.

Parceria com a plateia
A direção de Cibele Forjaz tem como fio o jogo explícito entre plateia e atores. “Minha intenção é contar um história e deixar o público imaginar, evocando uma nova experiência. Por isso a direção de arte, iluminação e música possuem espaços ampliados nessa montagem. Teremos 28 redes onde as pessoas poderão sentar e até deitar, para que elas possam vivificar junto conosco a saga deste homem em busca de sua mulher, Maya, a estrela da tarde. Queremos proporcionar uma vivência sensorial e poética, pois o texto contempla essa licença. Com certeza é um espetáculo que se completa com a participação estrutural da imaginação da platéia”, explica a diretora. “Vamos aguçar outros sentidos do público presente. Nossa intenção é que tudo vire uma gostosa brincadeira, conduzindo o público através do rio do mito, que atinge de forma simples camadas profundas da nossa existência. Cabe agora aos espectadores se deixarem levar nessa viagem teatral”, espera Cibele.

“Pague quanto der”
A diretora da Cia. Livre, Cibele Forjaz acha injusto que uma pessoa deixe de ir ao teatro porque não pode desembolsar o valor exato afixado na bilheteria. Por isso, a Cia. Livre lançou, em 2004, durante a sua ocupação do Teatro de Arena Eugênio Kusnet, a campanha do “pague quanto der”. O próprio nome já diz: é o espectador quem decide quanto pode pagar pelo ingresso. “Para as pessoas que estão em dúvida diante dessa liberdade de escolha, sugerimos que pensem num meio termo entre o que vale uma noite no teatro e o que podem gastar. Assim, todos só temos a ganhar – tanto os espectadores, que compram o ingresso na medida do seu bolso, quanto nós, artistas de teatro, que precisamos da bilheteria para continuar trabalhando. Em lugar do preço fixo e da burocracia de meias-entradas, descontos e convites, preferimos criar uma troca direta de generosidades”, explica Cibele, afirmando ainda que “pague quanto der” é ingresso e não contribuição.

Sobre a Cia. Livre
A Cia. Livre deve o seu nome a um desejo tão florido quanto espinhoso: constelar em trupe um bando de artistas que renegam diretores permanentes e ao mesmo tempo revezam funções conforme a bola da vez. A nascente da Cia. foi o Estudo Público das Tragédias Cariocas de Nelson Rodrigues (1999) e daí surgiu um par de montagens: Toda Nudez Será Castigada! (2000/02) e Os 7 Gatinhos (2000/01). Para continuar os trabalhos da Cia. Livre, Cibele Forjaz escolhe montar, em 2002, o espetáculo Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, enquanto Gustavo Machado escreve e dirige Pagarás Com Tua Alma (2000/04) e De Quatro (2004/07). Vadim Nikitin escreve e dirige O Nome da Peça depende da Lua (2004) e Dostoiévski (ou 3497 Rublos e Meio), em 2005.

Em 2004, a Cia. Livre ocupou o Teatro de Arena com dois projetos que ligam história a teatro: O projeto Arena Conta Arena 50 Anos, sob direção geral de Isabel Teixeira, que resgatou através de Depoimentos, palestras e leituras dramáticas à história e as memórias do Teatro de Arena, nascedouro do teatro de grupo paulista, e a montagem de Arena Conta Danton, livre recriação de A Morte de Danton, de Georg Büchner, com dramaturgia de Fernando Bonassi, em processo colaborativo com a Cia. Livre. O projeto virou uma exposição no Instituto Tomie Ohtake, permanecendo três meses em cartaz, onde no Grande Hall e nas três salas ocupadas, o Arena se contava em outro contexto, levando ao público uma experiência teatral fora das salas de teatro. O espetáculo Arena Conta Danton viajou sem parar até girar para além das fronteiras brasileiras, em Berlim, na Copa da Cultura de 2006. Em 2008 a Cia. mergulha no universo ameríndio e encena VemVai – O Caminho dos Mortos, recebendo o Prêmio Shell de direção (Cibele Forjaz) e atriz (Lúcia Romano). O espetáculo inaugura, em 2009, a Casa Livre, sede do grupo localizada na Barra Funda.


Para roteiro:
RAPTADA PELO RAIO – Estreia dia 1º de maio, sexta-feira, às 21 horas, na Casa Livre. Dramaturgia – Pedro Cesarino em processo colaborativo com a Cia. Livre. Direção – Cibele Forjaz. Elenco – Lúcia Romano, Edgar Castro, Christian Amêndola Moleiro e Paulo Azevedo. Preparação corporal – Juliana Monteiro e Tica Lemos. Iluminação – Alessandra Domingues. Direção de arte (cenário e figurinos) – Simone Mina. Direção musical e composição original – Lincoln Antônio. Direção vocal e pesquisa de sonoridades – Lucia Gayotto. Produção e Administração – Eneida de Souza. Duração – 90 minutos. Espetáculo Livre. Temporada – Sextas-feiras e sábados às 21 horas e domingos às 19 horas. Ingressos – “Pague quanto der”. Até 28 de junho.

Sinopse: O espetáculo conta a saga de um Homem que passa por diversos povos na tentativa de resgatar sua esposa, Maya, raptada pelo raio. Temas como a separação entre vivos e mortos e os limites do amor e a impossibilidade, são tratados com lirismo neste poema cênico. Com uma linguagem dinâmica, em que atores se misturam aos personagens, a montagem é uma variante do mito de Orfeu.

CASA LIVRE – Rua Pirineus, 107 – Barra Funda (próximo a estação de metrô Marechal Deodoro). Informações – (11) 3257-6652. Acesso para deficientes físicos. Bilheteria – Abre duas horas antes do espetáculo. Capacidade – 28 lugares. 

Assessoria de Imprensa
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