Título: “A experiência da ayahuasca e seus estados alterados de consciência. Um estudo transcultural dos “recitos” dos usuários urbanos da ayahuasca. Uma leitura através o conceito de inconsciente de Gilles Deleuze”.

Filiação: Mestrado em Psiquiatria Transcultural na Universidade Paris 13, Paris, França

Autora: Clara Novaes: claradices@yahoo.com.br

Palavras chave: ayahuasca, inconsciente, ayahuasqueiros, Deleuze, enteógenos, corpo sem órgãos, prudência, toxicomania.

Resumo:
A repressão legal do uso de substâncias enteógenas desde os anos 60 entravou seriamente o estudo científico dessas substâncias sem no entanto afetar a experimentação. O uso dessas substâncias é todavia um fenômeno social e psíquico de importância.

O presente trabalho é uma tentativa de cartografar a « experiência da ayahuasca » – planta milenar com a qual se fabrica um chá de propriedades psicoativas muito potentes e que ocupa um lugar singular no xamanismo sul-americano – em rituais urbanos, através dos «recitos» (narrativa, a experiência passada para a fala) dos seus usuários.

Por meio de uma leitura Deleuzeana do inconsciente tentamos tocar conceitos como os de devir, corpo sem orgãos, corporalidade, prudência e encontro para pensar os processos de subjetivação que estão em jogo entre os que experienciam a ayahuasca em contextos urbanos inseridos nas orientações ayahuasqueiras mais populares (a saber: Santo Daime e União do Vegetal) bem como aos chamados « grupos alternativos».

A nossa hipótese se vale das noções deleuzeanas (de inspirações spinozanas e nitzscheanas) de prudência e de encontro que se preocupa com a maneira pela qual o nosso corpo se encontra com outros corpos (encontrar-se com a ayahuasca é, por exemplo, encontrar-se com outro corpo); se é de maneira a aumentar a sua potência de agir ou se para despotencializá-lo, se para favorecer a vida e seus movimentos desejantes ou não.

Argumentamos que a maneira através da qual as pessoas fazem as indas e vindas entre o mundo ordinário e aquele aberto pela planta (o do estado alterado da consciência) vão responder a essas questões; e que existe uma diferença, que não podemos negligenciar, entre o perfil do «ayahuasqueiro» e o perfil do toxicomaníaco da literatura psicopatólogica. A dimensão existencial (noção de Szondi e da psiquiatria fenomenóloga) em jogo nesse último perfil não é a mesma daqueles que fazem a experiência da ayahuasca — embora toxicomanos possam igualmente encontrar-se com a ayahuasca.

A pesquisa mostrou que o uso coletivo de ayahuasca, com objetivos terapêuticos ou espirituais se diferencia da maioria dos usos de drogas cotidianas, não ritualizados e frequentemente perigosos. A experiência da ayahuasca inscreve o sujeito de maneira intensa e dramática em interrogações concernentes ao sentido do real, da vida, da doença, da experiência humana, da morte e o universo que os rodeia. A experiência enteógena é metabolizada de algum jeito, ou seja, o sujeito não fica bloqueado na sua experiência. Uma conversão é feita mesmo se na maioria dos casos em forma de “recito” (narrativa, a experiência passada para a fala) espiritual. O risco de instalação de um delírio crônico se mostrou longínquo entre os sujeitos com os quais tivemos contato. Existe um esforço por parte das «religiões ayahuasqueiras » e mesmo nos grupos alternativos de privilegiar a criação de um contexto e ambiente adaptados (set e setting) que impeçam a ausência de um sistema de controle mínimo. Nós não encontramos nos nossos sujeitos tendências a um isolamento de outras práticas ou conexões sociais, uma desintegração do resto do corpo social nem um isolamento do tipo sectário.

Parece que um uso socialmente integrado é fonte de «hétero-controle». Parece igualmente que a vida cotidiana dos ayahuasqueiros desta pesquisa não é mais particularmente repetitiva nem fechada que da população geral. É evidente, entretanto, que a potência de agir é ligada ao fato da pessoa estar certa que, tendo a experiência dos estados alterados de consciência, ela conheceu, — quiçá encontrou – uma dimensão da existência portadora de outros sentidos não-humanos.

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