A Edição 33 da Revista Nossa História, de julho de 2006, trouxe a reportagem “As drogas no Brasil – entre o delírio e o perigo”, um especial sobre drogas, a qual gerou reações no meio hoasqueiro. Leia abaixo uma carta da UDV ao autor da reportagem, Henrique Carneiro, e a sua resposta, ambas publicadas no nº 36, de outubro de 2006.

“Prezado Editor,

Queremos inicialmente cumprimentá-lo e ao Sr. Henrique Soares Carneiro, em nome do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal, pela reportagem “As Drogas no Brasil”, publicada na edição de nº 33 de Nossa História. Trata-se de um útil trabalho de divulgação a respeito deste flagelo das sociedades modernas, que é o uso das chamadas drogas de abuso. É nosso dever esclarecer, porém, que o chá Hoasca, também chamado de Vegetal ou Ayahuasca, utilizado pelos discípulos da UDV em seus rituais religiosos, não pode ser confundido nem incluído —— como foi, à página 19 da revista —— numa lista de drogas de abuso relacionadas na reportagem.

Pois de fato as diferenças do chá Hoasca em relação às drogas são muito grandes. A mais evidente delas é que o chá não provoca desajuste mental ou social. Ao contrário, produz um ajuste. São abundantes os depoimentos de pessoas que transformaram suas vidas para melhor depois que passaram a freqüentar a UDV. Além disso, ao contrário do que acontece com as drogas de abuso, o uso do Vegetal não causa os fenômenos que caracterizam dependência de substâncias, como crise de abstinência ou tolerância (isto é, a necessidade de doses cada vez maiores). E também não se observam entre seus usuários o prejuízo no trabalho e o desajustamento familiar, tipicamente observados entre os dependentes de álcool e drogas, que passam a viver em função da obtenção e uso daquelas substâncias, manifestando assim um importante desajustamento social.

Temos convicção, portanto, de que o chá Hoasca é comprovadamente inofensivo à saúde, conforme podem comprovar os milhares de associados da nossa instituição.

Ao longo do tempo, esta verdade está sendo confirmada por estudos acadêmicos. Uma comprovação incontestável é o fato de a UDV ter mais de 40 anos de história e contar hoje com cerca de 14 mil associados, tendo já inúmeras famílias com 3 ou 4 gerações sendo geradas em contato constante com o chá Hoasca, sem qualquer prejuízo para a saúde física, mental e para a ação social dessas pessoas.

Além disso, algumas pesquisas acadêmicas vêm sendo desenvolvidas por instituições nacionais e internacionais, com diversas abordagens, todas elas em alguma medida comprovando a inofensividade do chá Hoasca. Para conhecer detalhes dessas pesquisas, basta que se digite a palavra ayahuasca em sites de busca como Google, Yahoo e outros, para se ter acesso a uma vasta literatura médico-científica contendo os estudos e pesquisas mais recentes sobre as características do chá Hoasca (ver, a título de exemplo, www.nida.nih.gov/whatsnew/meetings/Psychoactive/McKenna.ppt.) Por fim, desejamos nos colocar à disposição de Nossa História e de seus colaboradores para prestar as informações necessárias, sempre que o assunto focalizado pela revista for o chá Hoasca e a UDV.

Atenciosamente,

Centro Espírita Beneficente União do Vegetal
Diretoria Geral
Sebastião Aguiar
Coordenador de Comunicação

Brasília, 18 de Julho de 2006″

Resposta de Henrique Carneiro:

“As cartas do representante da União do Vegetal e de um membro do Santo Daime consideram equivocada a inclusão da ayahuasca como uma droga. De um ponto de vista farmacoquímico, essa bebida contém vários princípios ativos que atuam como substâncias psicoativas (DMT, Harmina, Harmalina e outras) e, portanto, é uma droga psicoativa. O fato dela ser usada como sacramento em várias religiões não faz com que deixe de ser uma droga, pois senão também deveríamos considerar que o vinho quando usado na eucaristia deixaria de ser uma substância alcoólica. As mesma drogas podem ser usadas em muitos contextos diferentes, o vinho, assim como a ayahuasca, podem ser usados como sacramentos em contextos religiosos, como substâncias de uso profano, em contextos recreacionais ou estéticos e, até mesmo, como substâncias de abuso, de forma irresponsável e perigosa. A substância em si não é boa nem má, tudo depende do contexto e do usuário. As drogas assim, refletem e representam as características dos seus usuários e das formas de uso que delas se fazem não existindo substâncias que sejam “em si mesmas” abusivas, mas sim diferentes contextos culturais, alguns socialmente positivos e integradores e outros potencialmente daninhos e arriscados. Das diferentes drogas usadas na cultura brasileira, a ayahuasca é certamente uma das que apresenta o menor risco de abuso ou de usos nocivos, inclusive pela relativa inocuidade dos seus efeitos fisiológicos, comparada, por exemplo, ao álcool, mas também pode ser usada de forma “abusiva”.

Henrique Carneiro”

3 Comments

  1. Vinicius says:

    Parece natural recusar a pecha de “usuário de drogas”, pois isso remete aos setores menos equilibrados de uma sociedade, associa-se à marginalidade e contextos de violência, explícita ou camuflada. De modo semelhante, ao termo “seita” também se agrega uma gama de pensamentos depreciativos. É o preço que pagamos, usuários e membros de instituições religiosas que são minorias na coletividade. A rigor, não me causa vergonha beber hoasca e muito menos pertencer a uma seita. O preconceito deve acabar, antes, em nós mesmos.

  2. Anonymous says:

    Considero importante a diferenciação droga de abuso x droga.

  3. Tiago says:

    Para todas as pessoas que tem algo a dizer contra o ayahuaska eu sugiro que estas participem de uma experiência com a bebida. Façam isso abertos, sem idéias pré estabelecidas. Esqueçam as dualidades uso religioso/uso recreativo, certo/errado, ou droga/não droga. Mente vazia para conhecer o universo, para nos conhecermos.