Folha de São Paulo – Equilíbrio
São Paulo, quinta-feira, 05 de outubro de 2006

“Entrevista – Coca contra a dependência – Psiquiatra peruano defende o uso médico da folha de coca para recuperar viciados em cocaína e para combater a a osteoporose

TATIANA DINIZDA
REPORTAGEM LOCAL

Psiquiatra e doutor em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador de dependência de drogas pelo norte-americano ARC/Nida (Addiction Research Center do National Institute on Drug Abuse), o peruano Teobaldo Llosa é precursor de uma tese polêmica: a retomada do uso tradicional da folha de coca para auxiliar na recuperação de cocainômanos. Llosa defende ainda a utilização medicinal da erva – cujas folhas são mascadas ou consumidas como chá em vários países latino-americanos – como suplemento alimentar e para combater males como a osteoporose e a desnutrição de idosos. De Lima, onde é diretor da Coca Médica, instituição privada de pesquisas, Llosa falou à Folha por e-mail.

FOLHA – Como é possível tratar cocainômanos com a folha de coca?

TEOBALDO LLOSA – Minha experiência com o que chamo de cocaína oral [a que está contida nas folhas de coca e nas infusões] teve início nos anos 80. A base científica é o que se chama terapia de substituição ou terapia agonista: usar a mesma substância viciante por uma via farmacológica diferente, de preferência por via oral. Existem duas terapias desse tipo aprovadas no mundo: os adesivos de nicotina, para controlar o tabagismo, e a metadona, para controlar o vício em heroína. A cocaína oral segue o mesmo princípio, ou seja, usar a cocaína para libertar da dependência. A experiência ao longo de 15 anos com mais de 200 viciados que bebem infusões de coca ou tomam cápsulas de farinha de coca demonstrou efetividade superior a 70%.

FOLHA – Não é o mesmo administrar as substâncias presentes na folha ou a droga obtida a partir dela? Como foram feitos os estudos liderados pelo senhor?

LLOSA – A cocaína oral atua lentamente no intestino, levando de 15 a 30 minutos para ser absorvida, e gera estimulação. Já a cocaína inalada ou fumada como crack atua rapidamente no cérebro- entre um e três minutos -, produzindo excitação (estimulação violenta e intensa com aumento na freqüência cardíaca e na pressão arterial, respiração ofegante e dilatação de pupilas). Nada disso acontece quando a coca é ingerida. Monitoramos viciados voluntários, seguindo os protocolos internacionais de pesquisa médica.

FOLHA – A utilização da folha de coca é tradicional em vários países latino-americanos. Para que costuma ser usada? Há benefícios comprovados para o organismo?

LLOSA – Tradicionalmente, a folha é usada por 5 milhões de pessoas na Bolívia, no Peru, nos limites desses países com o Brasil – onde se masca a coca do tipo ipadu -, na Colômbia e no norte da Argentina, principalmente para ganhar mais resistência ao trabalho. Hoje, agricultores e mineiros ainda usam a coca na forma tradicional (mascada e bebida em mates). Ela reduz a fadiga laboral, estimula o estado de ânimo, controla o apetite, melhora a atenção e a concentração. É uma erva antiestresse de trabalho. Também é muito usada como complemento de vitaminas e minerais, substâncias que contém em níveis elevados, e para combater a osteoporose e a desnutrição da velhice.

FOLHA – Como são feitas as cápsulas de farinha de coca? Quanto alcalóide de cocaína há em uma delas?

LLOSA – São cápsulas de gelatina com folhas de coca micropulverizadas. Há cápsulas de 500 mg de farinha, que possuem de 2 mg a 2,5 mg de alcalóide de cocaína, e de 1.000 mg, que possuem de 4 mg a 6 mg.

FOLHA – A produção da farinha de coca é legal ou é considerada narcotráfico? Quem a produz?

LLOSA – No Peru, a produção legal e controlada de farinha de coca é monopólio da Enaco (Empresa Nacional da Coca). Ela vende a farinha de coca a clientes registrados. Os países que não fazem parte da Convenção Única das Nações Unidas sobre Narcóticos [firmada em 1961, que equiparou a folha à droga] podem comprá-la.

FOLHA – A coca pode ajudar na recuperação de transtornos psíquicos?

LLOSA – Pode ajudar no tratamento de adultos hiperativos, melhorando a atenção. Não há experiência em crianças.

1 Comment

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