“E a princesa beijou o sapo – veneno de rã usado por índios vira moda entre terapeutas alternativos, para preocupação da saúde pública

REVISTA ÉPOCA Edição 401 – 23/01/06

ANA ARANHA

A nova onda entre terapeutas florais e mesmo médicos homeopatas é uma receita repulsiva – e um tanto perigosa. Na busca pela serenidade de espírito, pela beleza e pelo equilíbrio do físico, a moda é o kambô, veneno de uma pequena rã amazônica. Conhecido há gerações por grupos indígenas do Acre, o kambô é usado para dar vitalidade nos tempos de caça. Entre os brancos, ganhou fama de remédio milagroso. Como o veneno nunca foi suficientemente estudado e as reações a ele são violentas, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária decidiu proibir a propaganda do produto (só a publicidade, já que o kambô mesmo não pode ser vetado pela Anvisa, pois não é classificado como remédio). A determinação, entretanto, ainda não surtiu efeito: o veneno segue cada vez mais procurado. Uma simples dose é vendida em São Paulo por R$ 120.

Os divulgadores da substância destacam principalmente seu efeito anti-stress, mas a estudante Bruna Lobo, de 21 anos, encontrou na substância um tratamento para seu problema de acne, conseqüência de distúrbios hormonais. “Na hora vomitei e senti dor no estômago. Depois de algum tempo as espinhas foram desaparecendo e meu ciclo menstrual ficou regulado.” O músico Wellington Machado, de 29 anos, sofre de reumatismo. Procurou o kambô porque lhe disseram que melhorava a circulação sanguínea. “Minhas dores diminuíram em 80%”, afirma.

Não são apenas os médicos que manifestam suas reservas em relação ao uso do kambô. Até os líderes indígenas criticam o modismo. Segundo o cacique Tashka, líder dos iauanauás, a propaganda de que o veneno cura todos os males funciona como placebo. “Se você der Coca-Cola a quem nunca tomou e disser que é remédio, ele vai se sentir bem. Esses movimentos new age querem achar na cultura indígena a resposta para seu mundo vazio”, diz Tashka. Fernando Katukina, líder dos catuquinas, reclama os direitos de conhecimento tradicional sobre a substância. Ele acusa divulgadores no sul do país de charlatanismo. “Eles usam a gente, dizem que mandam o dinheiro de volta, mas nunca recebemos nada.”

Os relatos sobre a rã e a disputa pela propriedade geraram a criação de um grupo no Ministério do Meio Ambiente, composto de médicos, antropólogos e biólogos, que vai dissecar as propriedades do veneno. Um dos médicos do grupo, Glacus de Souza, alerta para os riscos da substância. “Não dá para saber como pessoas com problemas cardiológicos e neurológicos seriam afetadas. Não há relatos de morte, mas tenho muitas reservas à urbanização do procedimento sem o acompanhamento da experiência indígena.”

O RITUAL DA APLICAÇÃO

– Com um pedaço de cipó em brasa, são feitas queimaduras no braço dos homens e na perna das mulheres. Os pontos variam de três a 13

– O kambô é colocado sobre os pontos, sendo absorvido pela pele queimada, e entra na corrente sanguínea

-Em segundos o veneno acelera os batimentos cardíacos, aumenta a pressão arterial e causa formigamento

– Depois de alguns minutos, o organismo passa a reagir com contrações gastrintestinais, o que gera náusea e vômito

– Quinze minutos depois da aplicação, retira-se o kambô e a sensação que se segue é de bem-estar e relaxamento.

Entrevista com índio Tashka sobre kambô
em: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT1113503-1655,00.html

ANA ARANHA

Tashka é o líder dos Yawanawá, grupo indígena da língua Pano que usa o kambô há diversas gerações no Acre. Sua aldeia é composta por 620 pessoas que vivem de caça, pesca e da parceria com uma empresa americana de cosméticos. Os Yawanawá chamam o veneno do sapo de kapun – apenas uma, das muitas variações do nome. Tashka, também conhecido como Joaquim Yawanawá, morou quatro anos nos Estados Unidos aprendendo inglês, computação, cinema – e muito sobre como funciona o mundo dos brancos. Ele deu a seguinte entrevista pela única linha telefônica de sua aldeia, instalada na semana passada.

ÉPOCA – Em que momentos os Yawanawá usam o kambô?

Tashka – A gente começa a usar antes de nascer, quando nossas mães ainda estão grávidas, e logo depois que a gente nasce, para limpar o sangue da mãe e renovar as energias. Acreditamos que, depois do parto, a mulher ainda guarda resíduos dentro dela. O kapun limpa e funciona como um fortificante. Quando crianças, tomamos para sermos fortes e felizes em nossas pescarias e caçadas, para não sermos crianças preguiçosas. Quando adultos, tomamos sempre que nos falta inspiração, energia e motivação. Também para prevenir doenças e deixar o espírito forte.

ÉPOCA – Com que freqüência vocês usam?

Tashka – Depende da pessoa, não tem data marcada. Se toma mais no inverno, que é a época em que chove e que o sapo canta.

ÉPOCA – Alguma vez alguém passou mal ou morreu por causa do efeito?

Tashka – Tomando de forma respeitosa e seguindo o ritual, nunca morreu ninguém. Agora, tomando como os New Ages do sul do país, não duvido que morra um a qualquer hora.

ÉPOCA – Os vendedores de Kambô no sul costumam dizer que ele funciona como cura para todos os males, que é medicina indígena, essa é a concepção correta?

Tashka – Essas propagandas são muito enganosas. O kapun tem suas especificidades. É aquela história de que, se você acredita, você se cura. Se você der Coca-cola para quem nunca tomou e disser que é remédio, ele vai se sentir bem, mas é psicológico. O kapun está ligado ao lado espiritual e físico, mas as pessoas tomam porque se sentem bem. A gente toma muito para caçar, e funciona. De manhã cedo, os jovens se juntam numa roda, tomam e vão para a mata buscar o que pediram: sorte, energia e saúde. Também pode curar algumas doenças específicas, mas não do jeito que é divulgado nas cidades.

ÉPOCA – Quais são as doenças?

Tashka – A malária. Quando os seringueiros chegaram aqui na Segunda guerra, morriam de malária aos montes. Aí o patrão deles veio perguntar para o meu avô como a gente tratava malária, e meu avô disse que tinha um remédio que, ou ía curar, ou ía matar eles todos. O patrão aceitou e todos os que tomaram ficaram curados. Funciona muito também como se fosse uma vitamina, a gente dá para criança que está magra e amarela. A gente toma também para verme e para a preguiça. Aqui na aldeia não tem índio preguiçoso. Índio acorda às cinco da manhã e vai pescar, se estiver com preguiça toma o sapo que é para dar coragem.

ÉPOCA – Como vocês avaliam o jeito que o kambô vem sendo usado no sul do país?

Tashka – Tem uma terapeuta chamada Soninha (Sônia Menezes) que está fazendo várias seções em São Paulo, usando o povo Katukina para fazer o mandado dela. Isso entristece muito nosso povo. O que existe hoje é um roubo do conhecimento tradicional. Ninguém mais que o povo indígena sabe usar o kapun. Uma pessoa que visita a aldeia e se diz terapeuta não é a pessoa correta para fazer a aplicação. Tem muita gente em São Paulo dizendo que é pajé para fazer ritual, mas nunca nem estudou para ser. Eu acho que o xamanismo hoje está perdendo sua essência por conta desses New Ages, eles vêem na cultura indígena a resposta para o seu mundo vazio. Eles não conseguem se encontrar e vão procurar na cultura dos outros as respostas que eles querem. Mas o que a Soninha está fazendo tem no mundo todo. Quando morei em São Francisco, na Califórnia, vivia rodeado de New Ages e ouvia as pessoas dizendo “você é índio, você é grande, vem se apresentar como pajé que todo mundo vai te ouvir”. E eu dizia que eu não era pajé, mas não adiantava. Não pode, suja a imagem de quem dedica uma vida inteira nisso.

ÉPOCA – Como os Yawanawá vêem o movimento de empresas farmacêuticas e laboratórios de pesquisa estudando e patenteando substâncias do kambô para desenvolver remédios?

Tashka – Nos preocupa de que forma vamos proteger o conhecimento. As companhias farmacêuticas e laboratórios estão estudando o sapo arduamente para tirar dele a essência e nos devolver em forma de pílula ou remédio industrializado. Nós, os donos do saber não vamos levar nada e, as grandes companhias, tudo. Eu defendo que cada povo, cada tribo do mundo tem que ser respeitada. Tudo bem, aqui na Amazônia tem muito medicamento que pode curar, a gente não pode ser ambicioso e prender isso só para a gente. Mas precisa de reciprocidade. Aqui na aldeia, quando você dá, você recebe sem esperar. Nesse mundo das grandes indústrias não existe reciprocidade, só ganho. Existe uma disputa muito grande, eles patenteiam e viram donos só porque fizeram uma pequena mudança, prejudicando os verdadeiros donos. A lei de patentes no Brasil é muito frágil. Ainda não existe uma política que protege o conhecimento tradicional, eu estou muito decepcionado com a lentidão com que o Ministério do Meio Ambiente conduziu a discussão. Eu achei que a ministra Marina Silva ía avançar, sendo uma defensora do meio ambiente, mas nada. Há pouco tempo estive em um congresso nos EUA e conheci uma pessoa que tinha a expressão “medicine hunter” estampada na sua mochila. Ela já tinha morado na Amazônia e a função dela era procurar medicina para as empresas farmacêuticas e “ajudar as comunidades” (risos). Essa última parte é difícil de acreditar. A gente sabe que há vários biopiratas espalhados por aqui, mas o problema é que essas pessoas não vêm com uma placa na testa, eles sempre dizem que vêm para ajudar. Não dá para identificar.”

Leia mais sobre este assunto em: http://www.gta.org.br/noticias_exibir.php?cod_cel=1964

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