BR 3, desafio perturbador e estético

Teatro da Vertigem empreende viagem transformadora pelo Rio Tietê

MARIANGELA ALVES DE LIMA

ESPECIAL PARA O ESTADO – 15/04/2006

BR-3 é a sigla de uma rota imaginária traçada de um ponto situado na encosta da Cantareira até outro ponto no norte do País. É também convite a um percurso que nos leva ao lugar onde, por conta própria, não teríamos ido. Desse modo literal, o novo trabalho do Teatro da Vertigem cumpre um desígnio artístico previsto pela teoria aristotélica: a representação nos permite conhecer aquilo que, por medo ou repugnância, não ousaríamos contemplar. Para um grupo que já levou seu público ao hospital e à prisão, a excursão teatral pelo leito do Tietê significa a continuidade de um projeto estético. Nos dois trabalhos anteriores, no entanto, o grupo trabalhava a partir de atribuições históricas, sociais e antropológicas dos edifícios onde se alojavam os espetáculos. Tanto no hospital quanto na prisão o teatro restaurava, por meio da ficção, experiências humanas que poderiam ter ocorrido nesses equipamentos desativados. Esse elemento hipotético, aceno do possível que não é exatamente cópia da realidade, anima toda a criação artística e é a um só tempo o que nos permite conhecer e escapar com a vida do perigoso e do desagradável.

Mas o Tietê é algo que, por enquanto, não se pode desativar. Talvez, quem sabe, continuar a soterrá-lo. De qualquer modo, quem aceita o convite dessa trupe de valentes excursionistas do terrível entra a um só tempo no rio da realidade e nos rios fabulosos. Neste espetáculo, a experiência ficcional tem de conviver e igualar-se, na sensibilidade e na memória do espectador, à vivência espantosa de navegar sobre um rio que a modernidade transformou em esgoto.

É esse o desafio que, sem dúvida, de modo inteiramente consciente, o Teatro de Vertigem impôs a si mesmo. E é essa a provocação feita aos seus espectadores. Quem conseguir respirar os miasmas químicos e orgânicos exalados pela água, quem superar a visão estarrecedora de uma massa compacta de plástico deslizando sobre a superfície da correnteza, quem suportar com estoicismo a visão dos barracos onde crescem brasileirinhos nutridos por essa atmosfera envenenada e fétida terá, por assim dizer, conquistado o direito de tramar o vivido e simbólico.

De qualquer modo, o percurso pelo traçado ficcional – estrada, via de acesso, cruzamento e fim último de todos os dejetos de uma civilização infeliz – transcende tanto a geografia do rio paulistano quanto a história imediata da cultura que o margeia. A narrativa de BR-3, parente em primeiro grau da tragédia grega na estrutura e no desígnio universalizante, tem exatamente a formalização altissonante que lhe permite manter em equivalência o estímulo estético e o experimento perturbador da viagem pelo rio. Na condução da história há uma família cujo destino é assinalado, ou seja, inelutável. Brasília é o ponto de origem do trajeto, a periferia paulistana o lugar de exílio e sobrevivência na economia do tráfico de drogas e o extremo norte do País o ponto final onde a terceira geração se extingue. Por onde quer que trafeguem, esses personagens encontram, em cada etapa do percurso, oráculos significando, entre outras coisas, a tentação do alívio místico. Igrejas evangélicas na periferia paulistana, seitas esotéricas no Planalto Central do País, cultos indígenas revividos e reformados por caboclos do Norte, aparecem intercalados entre as peripécias decisivas do espetáculo.

O complemento coral dessa saga familiar – uma pregadora que testemunha ou sonha os episódios – está no barco, com o público-congregação. Divergindo da função canônica do coro trágico ou do moderno coreuta épico, cabe a esta personagem a tarefa de confundir os tempos para que se tornem analógicos, interferir na trama e, por fim, reforçar a moldura ficcional com a tintura da ambigüidade: “Achei que fosse um rio.” Os que aceitaram a experiência não poderão mais ver o Tietê como uma faixa de prata e a Cantareira como uma longínqua cortina verdejante. Fim dos clichês.

Há neste espetáculo, em dose maior do que nas criações anteriores do grupo, um componente lúdico. Talvez em razão dos prodígios de logística necessários para fazer um espetáculo que acontece ao mesmo tempo em um barco e ao longo das duas margens do rio, o processo de criação recobre e incorpora todos os elementos visuais do entorno. São cenografias os elementos construídos nas margens como lugares definidos, mas são também parte da significação visual do trabalho as favelas próximas, os luminosos publicitários nos edifícios das avenidas marginais, os pilares das pontes e as massas de cimento retilíneas que delimitam o curso. Também é perceptível o prazer da evolução das cenas sobre a água, mesmo que a navegação se faça sobre lixo em estado líquido. A execução deste trabalho difícil é um modo de agir que não se desvincula, neste caso, da experiência estética. Esta paisagem-signo da esterilidade, da podridão, de um sistema econômico que exaure e destrói a natureza enquanto compromete o futuro é, para um coletivo teatral, matéria de sonho e suporte para uma transubstanciação metafórica.

(SERVIÇO) BR3. 16 anos. 140 min. Espetáculo será encenado em um barco às margens do Rio Tietê (60 lugares). Para assistir é necessário comparecer, com 1 h de antecedência, ao estacionamento do Memorial da América Latina, portão 8. R. Auro Soares de Moura Andrade, 664, Barra Funda. 5.ª a dom., 21 h. R$ 40. Ingressos: lojas da Fnac Pinheiros e Paulista. Pç. dos Omaguás, 34, 4501-3223 e Av. Paulista, 901, 2123-2020. De 3.ª a dom., das 10 h às 20 h. Até 28/5.

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