Entrevista de José Eduardo Carvalho com Alexei Farfán Pino, para o Jornal A Tarde, de Salvador,
publicada no domingo 16 de fevereiro.

Nome:ALEXEI FARFÁN PINO
Idade: 35 anos.
Naturalidade: Cusco – Peru

JE: Quando começou a pintar?

AFP: Desde que me entendo como gente faço pinturas e desenhos. Sou
cusquenho, e minha infância e adolescência foram muito enriquecidas
pela convivência direta com a cultura indígena e camponesa presente
nos meus familiares e amigos aqui dos Andes peruanos, além dos locais
tradicionais de peregrinação que estao no entorno de Cusco e que não
se resumem a Machu Picchu como muitos podem pensar. Com dezenove anos
ingressei na Escola Superior de Belas Artes “Diego Quispe Ttito” de
Cusco, onde obtive o título como Artista profissional nas
especialidades Desenho e Pintura no ano de 1996. O interesse em
trabalhar com a chamada “arte visionária” surgiu pelo fascínio que
sempre tive pelos mitos e lendas de minha terra natal, especialmente a
cosmovisão andina das Culturas Inka, Chavin, Nazca e Paracas. Entendo
que o uso de plantas de poder, que foi comum a estas culturas
ameríndias, ainda hoje em dia nos permite um acesso direto à memória
ancestral de meu povo de um modo mais consciente e vivenciado que um
simples conhecimento teórico.

JE: O que se entende por arte visionária? Qual o conceito e como se
chega até essa definição?

AFP: A arte visionária é na verdade um fundamento de toda a história
da arte, já que nas cavernas e grutas da pré-história se
materializavam em pintura as visões dos primeiros xamãs. Se antes
essas pinturas eram utilizadas funcionalmente para atrair alguns
espíritos, ou conjurar algumas forças da natureza, na atualidade
possuem outra funcionalidade, a de responder às perguntas existenciais
do homem e voltar a recuperar o seu sentido de equilíbrio com a
natureza que o rodeia.

JE: Para ser arte visionária, o artista precisa realizar o trabalho
artístico sob efeito de alguma substância alucinógena (ayahuasca, lsd,
peiote, etc)?

AFP: Não, na verdade depois que uma pessoa experiencia o uso das
plantas de poder, já nao é a mesma, porque as plantas despertaram
dentro de si uma outra consciência, à qual no meu caso acedo quando
começo a comunicar-me através da pintura. É como desenredar um novelo,
as plantas te dão a ponta do “fio da memória” desse novelo e depois é
só puxar por si, em um ato de concentração interior que se exterioriza
durante o processo artístico de escolher as figuras, texturas, gamas
de cores, ritmos, volumes e dimensoes para conceber ao final a obra.

JE: Realiza as pinturas sob o efeito de que? Se não estiver sobre
efeito de substância alucinógena, o artista que realizar uma obra pode
ser considerado visionário?

AFP: As plantas de poder que mais despertaram minha memória ancestral
foram o Wachuma (o cacto San Pedro) e a Ayahuasca, ambos de uso
tradicional entre os xamãs peruanos. O uso das plantas no processo
artístico com certeza torna o trabalho de arte mais puro, intuitivo,
apartando-o dos cânones estéticos e intelectuais com que se mede a
arte em geral. Entretanto nao vejo a necessidade de ingerir as plantas
no momento exato da confecção da obra, é algo possível de se fazer mas
não necessário. É importante observar que o efeito das plantas nao se
resume ao momento de seu consumo ritual ou não, mas se prolonga muito
mais, enquanto digestão de um conhecimento absorvido e que continua
por toda a vida. O artista visionário possue uma clara vantagem de
expressar-se através do seu coração, e nao da razão, e isso faz sua
arte algo mais profundo.

JE: O que retrata em sua arte? Visões de que?

AFP: Trato de diferentes coisas. Em algumas são os elementais da
natureza, que se expressam em códigos e símbolos que se comunicam
universalmente com outras culturas que possuam esse mesmo tipo de
relação com os elementos naturais. Em outras se trata de expressar
minha percepção de uma expansão do conceito ocidental de Tempo, que é
relativo, não-absoluto e construtivo, e se desdobra em diferentes
dimensões e direções. E ainda há a questão da musicalidade das cores
em suas diferentes gamas, ritmos e magnitudes de onda, que permitem
despertar uma extra-percepção sensorial, tanto para o artista como
para o observador, e isso é o que comumente se chama “efeito
psicodélico”.

JE: Tenta interpretar as visões durante a pintura? É para transmitir
alguma mensagem?

AFP: Não. Surgem espontaneamente enquanto dura o processo criativo, e
também naturalmente surge para mim a explicação da mensagem contida na
obra depois de finalizada. Essa expressão possui uma lógica própria:
enquanto pintas, o mesmo quadro te conta qual a sua história, e o
melhor é não interferir nessa leitura, permitindo-se alçar vôo em
liberdade. A isso se chama na verdade um processo extra-criativo.

JE: Mudou sua relação com a arte desde quando não realizava trabalhos
sob efeito das plantas? O que mudou?

AFP: Sim, me fez muito mais consciente da mensagem que quero
transmitir e porque e para que pinto. Entendo agora que não pinto para
mim, e sim para as outras pessoas, e minha tarefa é a de ser um canal
de comunicação, despertando no público uma abertura de pensamento às
outras dimensões e sensações de energias através do uso de cores e
imagens. A “anima mundi”, ou alma do mundo, se comunica ao mundo
através de seus artistas, e sou feliz de ser um deles, tratando de ser
responsável por isso.

Ainda, sobre Alexei Farfán Pino: além de diversas exposições
coletivas no Peru, realizou nos últimos anos duas importantes
exposiçoes individuais em Cusco: “Memória da Terra” (2005),”Tempo da
Terra” (2006) e “Tecido da Terra” (2007). Atualmente prepara sua
primeira exposição individual no Brasil, a realizar-se no próximo mês
de abril nas capitais do Acre e Rondônia.

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