por Henrique Carneiro (*), especial para a Folha de São Paulo – 15 de janeiro de 2006.

“História do Mundo em Seis Copos” (**) traça a evolução das sociedades a partir do consumo de cerveja, vinho, destilados, chá, café e Coca-Cola.

Bebidas de deuses e burgueses

Por qual fio de continuidade podemos buscar compreender a história do mundo? Pela forma como os seres humanos nascem, matam, morrem, fazem sexo ou constroem suas habitações? Ou pela maneira como ingerem líqüidos? A esfera do consumo, da vida material, ou seja, aquilo que o corpo ingere – alimentos, bebidas, drogas – pode revelar não só as contingências da sobrevivência, os caprichos do gosto e a busca de sentidos simbólicos nos atos e gestos humanos, mas espelhar toda uma civilização.

A dimensão do cotidiano assumiu relevância historiográfica e sociológica e vem sendo abordada a partir de múltiplos ângulos, particularmente aqueles que revelam os meandros da “cultura material”, ou seja, como se bebe, se come, se veste, se habita etc.

Esse tema, longe de esgotar-se, encontra facetas novas sendo reveladas a partir da investigação das estruturas do cotidiano em sua interação com as formas da exploração econômica e da dominação política, especialmente, na constituição dos Estados e dos impérios modernos.

O livro “História do Mundo em Seis Copos”, de Tom Standage, jornalista da “Economist”, é um bom exemplo. Com base em uma ampla e atualizada bibliografia historiográfica, o autor percorre por meio de seis bebidas (cerveja, vinho, destilados, chá, café e Coca-Cola) os contextos históricos que deram origem a esses hábitos e as suas profundas repercussões culturais, religiosas e econômicas em diferentes épocas.

Linha do tempo

A invenção da agricultura é contemporânea à produção dos fermentados de cereais, a cerveja, por exemplo, cujo uso no Egito e na Mesopotâmia antigos tinha uma relevância tão grande como a do pão, servindo, além de alimento, como meio de pagamento e medicamento e sendo levada às tumbas tanto de faraós como de pessoas comuns.

O vinho, por sua vez, tornou-se não apenas um dos principais produtos no comércio do Mediterrâneo, em barcos carregados de ânforas, como assumiu a condição de bebida sagrada, cujas libações se tornaram mais tarde, na cultura filosófica da Grécia Antiga, o instrumento revelador dos segredos da alma, nos “simpósios”, que eram banquetes ritualizados onde floresceu o amor pela sabedoria e uma moralidade do “saber beber”.

Os destilados são emblemáticos da época moderna, quando, pela primeira vez, as bebidas alcoólicas de alto teor se tornaram disponíveis em massa. Sua origem e utilização fazem delas as primeiras bebidas “globalizadas”: produzidas com técnica de origem árabe, com um produto de origem asiática (cana-de-açúcar), com mão-de-obra escrava africana e consumidas no mundo inteiro, especialmente na ração dos marinheiros, o rum e a cachaça, assim como outras aguardentes, passaram a constituir um dos principais produtos da época mercantilista, estocando a riqueza dos cereais transformados em álcool, fornecendo imensos lucros aos mercadores e impostos e taxas aos aparelhos fiscais dos Estados modernos em construção.

Cafeína operária

O café e o chá não apenas fizeram da cafeína a droga mais consumida no planeta como ajudaram a edificar a potência imperial do Reino Unido. Seu consumo foi elogiado como produtor da sobriedade, antagônico ao álcool e, portanto, símbolo dos valores burgueses da época do Iluminismo. Consumidos por operários, eles ajudaram no aumento da produtividade laboral; e, por intelectuais e escritores, contribuíram para a exaltação dos valores da concentração mental.

O último dos “líquidos vitais” analisados por Standage, a Coca-Cola, tornou-se desde a Segunda Guerra Mundial não só o refrigerante mais consumido no mundo como um dos símbolos do “século norte-americano”, com suas fábricas tendo se espalhado pelo mundo juntamente com os quartéis do exército, e chegando, nos dias de hoje, a fornecer 3% de todos os líquidos ingeridos pela humanidade.

Finalmente, na conclusão, o autor analisa brevemente o significado da água potável e do seu futuro num planeta em que ela se torna cada vez mais um bem em escassez, já que ao menos cerca de 20% da população mundial não tem acesso e em torno de 80% das doenças ainda são provocadas por água contaminada.

O mercado de água engarrafada, no entanto, é um dos que mais crescem nos países desenvolvidos, superando, em alguns casos, até mesmo o consumo de água de torneira.

(*) Henrique Carneiro é professor no departamento de história da USP e autor de “Pequena Enciclopédia da História das Drogas e Bebidas” (Campus/Elsevier).

(**) História do Mundo em Seis Copos – 240 págs., R$ 32,50 de Tom Standage. Tradução de Antonio Braga. Ed. Jorge Zahar (r. México, 31, CEP 20031-144, RJ, tel. 0/xx/ 21/ 2240-0226).

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