Pereira, Maíra Teixeira, M. S. Arquitetura como um microcosmo: religiosidade e representação do esapço na Comunidade do Matutu- MG. Tese de Pós Graduação em Extensão Rural. Universidade Federal de Visçosa, 2003.

Resumo:

A arquitetura, ao longo da história, mostrou-se como um texto, no qual se encontram impressas as influências de um determinado contexto sócio-cultural, revelando ao seu leitor através da sua expressão formal os valores de um determinada época. Neglicenciar tais características significa não só reduzí-la à expressão de um simples abrigo desvinculado do seu universo cultural, mas também desprezá-la como um valioso documento de interpretaçãode uma determinada cultura. Foi a partir dessa visão, da arquitetura como um texto, embasada na interface entre Arquitetura e Antropologia, que procuramos investigar como as concepções da Comunidade Alternativa e do Santo Daime, presentes na Comunidade do Matutu-MG, influenciaram a construção dos seus espaços edificados. Para tanto, adotamos como metodologia a antropologia interpretativa de Geertz, que nos possibilitou uma análise dos aspectos êmicos da cultura da Comunidade do Matutu e, consequentemente, das suas edificações, construídas pelo homem comum, o não arquiteto, que não segue regras ou cânones codificados, mas é orientada por um saber construtivo daquela comunidade. A interpretação da arquitetura do Matutu nos revelou uma visão específica de “natureza” e de “homem”; uma visão que tem na natureza um espaço sagrado, a fonte dos conhecimentos e a “grande morada”, e no homem uma parte desta, à qual ele deve procurar se religar, não só através do consumo da ayahuasca, chá que é feito com as plantas encontradas na natureza, as “plantas mestras”, mas também através das suas construções que buscam, por sua vez, dar continuidade à natureza. Religar-se significa para o homem do Matutu a possibilidadede se unir a um todo chamado Deus, que é entendido como sinônimo de natureza. A arquitetura do Matutu comporta-se, assim, como um microcosmo religioso onde se encontram materializadas as manifestações de dois universos: um interior ao homem e outro exterior a ele, mundos estes que interagem e se modificam, mas que quando representados nas construções, conseguem ser a expressão do seu construtor e do contexto em que se encontram.

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